A limitação dos conhecimentos humanos – Olavo de Carvalho

“Muitas pessoas reconhecem da boca para fora a limitação dos conhecimentos humanos. Kant, por exemplo, reconhecia, todos os filósofos modernos sempre falam dos limites do conhecimento humano, mas isso é tudo flatus vocis, não é um reconhecimento efetivo.

Outro exemplo: o pessoal praticante da ciência moderna sempre fala: “os nossos conhecimentos são limitados etc.”, mas eles entendem a limitação do conhecimento humano primeiro como se fosse uma deficiência da realidade, e uma deficiência é uma anormalidade. (…) “É uma pena, mas nós estamos fazendo o possível para suprir essa deficiência e ao longo de um prazo histórico não definido nós acabaremos resolvendo todas estas questões.”

Esta visão é totalmente alienada, porque a limitação do conhecimento humano é inerente à limitação da vida humana. De que serviria um conhecimento infinito para um ser que tem uma duração finita? Não faz sentido. Um conhecimento infinito supõe uma forma de existência infinita, então o conhecimento total supõe uma existência infinita. Não somente a vida eterna humana, note bem, porque mesmo dentro da religião cristã a promessa da vida eterna não diz que você vai saber tudo, diz que você vai ver Deus, não que você vai ser Deus. Então é possível que após a morte você fique sabendo alguma coisinha a mais, mas não tudo. Mesmo na perspectiva da vida eterna você não vai saber tudo, quanto mais nessa vida aqui.

Outra coisa, quando as pessoas apostam no progresso do conhecimento, no progresso da ciência, e descrevem a estrutura da evolução cultural como se fosse uma caminhada em direção ao conhecimento universal e perfeito, elas esquecem o seguinte: elas vão morrer. Então quem é esse “nós” que vai ter o conhecimento universal e perfeito? A humanidade não conhece nada, só quem conhece são os indivíduos humanos. Quando eu estudo, o meu vizinho não aprende nada necessariamente com isto. Saber alguma coisa é saber algo que os outros não sabem. Portanto, não existe este “nós” (humanidade) que vai saber tudo, ou que vai saber mais. (…) Esta ideia do conhecimento humano que está crescendo é uma ficção, é uma figura de linguagem na qual as pessoas acreditam. Esta é uma fuga da estrutura da realidade.

Quando Cristo diz: — Não é para vocês saberem “o fim”. Ele não está dizendo que vocês não devem saber o fim. Ele está dizendo que vocês não sabem mesmo. Está dizendo que a impossibilidade humana de obter um conhecimento total não é uma falha de humanidade, é um elemento constitutivo da própria ordem da realidade. A finitude e limitação dos nossos conhecimentos não é algo a ser vencido, é algo a ser assumido. E não assumido com aquele ar de desgraça — “Ah! Que pena, os nossos conhecimentos são tão limitados, nós nada sabemos além da nossa experiência…” — como Kant. Não é isto. Esta limitação é a estrutura real da nossa existência. É ali que nós estamos. É ali que você vai cavar. Isso mostra para você que o elemento do desconhecido e do mistério está presente permanentemente na estrutura da existência.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 009, 06/06/2009.


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