A finitude do conhecimento humano é um dos pilares sobre os quais é constituída a nossa própria existência – Olavo de Carvalho

“Se você tem a expectativa de que vai alcançar a iluminação geral que lhe revelará tudo, você se priva de conhecer um dos elementos fundamentais da estrutura da realidade que é a presença do mistério. O mistério não está totalmente fechado. Ele se abre de vez em quando e deixa você ver um pouquinho. Este pouquinho é precioso, mas você se priva deste pouquinho se você quer ter tudo. Se você, mesmo reconhecendo a limitação do conhecimento humano, entende esta limitação como se fosse uma privação, como se fosse um defeito, como se fosse algo a ser vencido, você fugiu da estrutura da realidade. Os momentos de abertura que o mistério lhe oferece serão perdidos.

O que são estes momentos de mistério? Estes momentos de mistério não são necessariamente revelações no sentido religioso. São simples aberturas para você compreender aspectos da realidade que são pertinentes à sua vida e ao seu destino. E são aberturas que permitem a você instalar-se na estrutura da sua vida com um realismo terrível. Permite a você saber onde você está, o que você está fazendo ali e o que você pode esperar no instante seguinte, só no instante seguinte, não amanhã, ou depois.

Esta espécie de antecipação que é baseada em um conhecimento não-verbal, por assim dizer, em um conhecimento por presença, é um elemento sem o qual você não pode se orientar na realidade. É isto o que você perde quando você quer voar para as alturas do “eu transcendental”, ou quando você aposta na perfectibilidade infinita do conhecimento humano, ou quando você lamenta, ou fala das limitações do conhecimento humano como se fosse um defeito e não um dado da própria realidade.

A finitude do conhecimento humano é um dos pilares sobre os quais é constituída a nossa própria existência. Então o importante não é vencer o desconhecimento, mas encontrar o modus vivendi com o mistério que lhe permita ter uma reação adequada ao mistério e, portanto, obter o coeficiente de luminosidade que você precisa naquele momento e naquele lugar para você poder agir, pensar, conhecer e decidir responsavelmente. Isto é o máximo que o ser humano pode alcançar e não a suprema beatitude do conhecimento.

E aí, novamente, o nosso mestre é Agostinho. É a filosofia baseada na confissão da sua condição real. O resto é fuga da realidade. Pode ser gostoso como teatro, pode lhe dar uma impressão de beatitude, mas é tudo falso. (…) A confissão é falar a realidade, é aceitar a condição humana na sua plenitude, onde tudo é precioso, inclusive os detalhes mais irrisórios, os pecados, misérias etc. Tudo isto é precioso, porque é a realidade.

(…) Muitas pessoas perderam atualmente até o sentido do que é a certeza imediata, do que é evidência imediata. Elas não têm mais isso. Elas estão de tal modo confundidas em uma rede de argumentos e pensamentos que não são capazes mais de confessar o que sabem. Mas olha que coisa preciosa: aquilo que você efetivamente fez e que ninguém mais sabe que você fez, que só você sabe, ainda que seja um monte de pecado, ainda que seja um monte de merda é a realidade, não é um pensamento seu. Este é um ponto firme onde você pode se agarrar. E ali você adquire o senso da certeza, o senso da evidência, o senso do imediato, que é a base de todos os conhecimentos possíveis. Você pode medir a confiabilidade dos conhecimentos conforme eles se aproximem ou se afastem deste legado, por assim dizer, autobiográfico que cada um de nós tem. Mesmo que este legado seja constituído só de porcaria. (…) Por exemplo, quando as pessoas reclamam de seus pais: “Ah, meu pai me abandonou…” Por pior que seja o seu pai, ele fez uma coisa por você que você não poderá fazer, ele gerou você. Então, no mínimo esta gratidão você tem que ter, “o cara fez algo por mim que eu jamais poderia fazer”. Então, vamos dizer, este é um dado da realidade. Então a sua história também é este patrimônio de dados da realidade que você não pode negar.

Por exemplo, quando você estuda História, Ciências Sociais, Ciências Políticas, qualquer coisa, você deve perguntar a si mesmo: estas coisas que eu estou pensando, acreditando, a partir do que eu li, estudei; eu as conheço com certeza, como conheço a minha própria história? Se eu não conheço, não tenho este grau de certeza, então eu tenho um grau menor de certeza. E aí você pode aplicar aquele critério que está na apostila: “Inteligência, verdade e certeza”, que é o da gradação dos seus conhecimentos. E a partir da hora que você tiver esta gradação, aí você se tornou um estudioso responsável. Porque quando você acredita que sabe algo, você sabe se sabe aquilo com a) certeza imediata e evidência, b) com alto grau de probabilidade, c) com verossimilhança ou d) só como especulação de possibilidade. E se você não sabe distinguir estes quatro, se você não sabe que aquilo que você sabe é certo, razoável, verossímil, ou meramente possível, então você não sabe nada a respeito. A gradação da confiabilidade do conhecimento é básica para a ética da vida intelectual.

Agora, o critério da confiabilidade, o critério da credibilidade não é dado por nenhuma certeza cartesiana tipo: penso, logo existo. Não é nada disso. É dada pela confissão do que você já sabe, principalmente daquilo que só você sabe, porque aí você não tem para quem perguntar e se você não tem para quem perguntar, você não será escravo de pretensas autoridades externas, você é o único juiz. Só tem você e quem mais? O observador onisciente, o próprio Deus que, se você confessa o que sabe, Ele te ensinará mais alguma coisa que você não sabia. Cada vez que você admite a estrutura da realidade tal como ela é, cada vez que você cava onde está, o que acontece? Uma parte daquele imenso reservatório do conhecimento por presença sobe à sua consciência e você fica sabendo algo mais. Estão entendendo?

Estes são princípios do método. Claro que isto aqui já é uma exposição propriamente filosófica, mas não feita como exposição filosófica, como exposição teorética, e sim feita como, vamos dizer, conselhos, como regras práticas. Então, quando — no começo do curso — eu pedi a vocês aquele exercício do necrológio, é porque a figura do eu ideal é a unidade de medida com que você mesmo vai medir o que você sabe a seu respeito. O eu ideal foi sugerido para servir de unidade de contraste em relação à sua biografia real. O contraste sempre torna tudo nítido. A mente humana sempre pensa por pares de opostos. Ela é eminentemente dialética. Deus não é dialético, mas nós somos.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 9, 06/06/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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