Tratando a questão do determinismo e livre-arbítrio com a verdadeira técnica filosófica – Olavo de Carvalho

“Como é que a gente trata uma questão com a verdadeira técnica filosófica? Se você está seriamente empenhado em filosofia, então vocês não podem aceitar qualquer questão. Porque existem questões que são colocadas para você como enigmas e como pegadinhas. E quem gosta disto é o diabo. O diabo gosta de colocar para você questões que não têm saída, nas quais você fica atrapalhado. Então você fica louco para encontrar uma resposta e vai correndo atrás da resposta como um cachorro no qual tivessem amarrado uma salsicha no rabo dele e ele ficasse correndo atrás. Podemos ver pessoas correndo atrás da salsicha faz séculos.

O verdadeiro espírito filosófico não joga com conceitos abstratos, na verdade ele quer criar conceitos para descrever ou explicar a realidade da experiência, a realidade da vida humana. Ou seja, quer cavar onde está e não em uma altura teorética hipotética aonde você obtém uma resposta final sobre uma questão metafísica, como no caso do determinismo e livre-arbítrio; isto é teatro mental! Se vocês lerem os diálogos de Platão verão que Sócrates está continuamente trazendo as pessoas de volta desde a altura de onde elas criam suas opiniões para a realidade do que elas efetivamente sabem. Às vezes até mostrando que elas sabiam mais do que imaginavam, que estavam curtindo um falso conhecimento inventado, construído, e que se, na verdade, procurassem dentro de si mesmas, encontrariam mais conhecimento simplesmente pelo método da confissão. (…) Ou seja, não precisa inventar, não precisa criar, não precisa construir nada. Mas quando vem alguém e lhe coloca estas pegadinhas como, por exemplo, no caso do determinismo e livre-arbítrio, o que você tem de fazer é o seguinte: deixa eu ver se entendi bem o que você quer dizer com esta coisa. Ou seja, vamos pegar esta dupla de conceitos e tentar aplicá-los à realidade da experiência, tal como eu a conheço para ver a que se referem na verdade.

Então, o determinismo e livre-arbítrio, das duas, uma: se você tem de escolher um deles é porque você os está tomando como absolutos, ou seja, é o livre-arbítrio total ou o determinismo total. Ora, se esses conceitos são absolutos, eles só podem se aplicar a seres que têm esta dimensão absoluta. Então perguntemos: existe determinismo e livre-arbítrio em Deus? No infinito? Deus pode ser livre ou predeterminado? Bom, por um lado, podemos dizer que Ele já sabe tudo o que vai acontecer e tudo o que Ele vai fazer, pois Ele é onisciente e, portanto, Ele já sabe tudo. Então poderíamos dizer que Ele está pré-determinado. Porém, eu digo: Ele está pré-determinado por quem? Se nada o pré-determinou, Ele não pode estar pré-determinado! Não é porque Ele decidiu fazer tal ou qual coisa, que você pode dizer que Ele está pré-determinado. Ele não está pré-determinado, Ele está determinado, Ele está decidido. Por outro lado, Deus pode ser livre? Eu pergunto: livre do quê? Existe um elemento externo que possa coagi-lo? Não! Então Ele não pode nem ser prisioneiro nem livre, ou seja, estes conceitos não se aplicam. Assim, de cara tiramos, excluímos esta dimensão. Conceitos de determinismo e livre-arbítrio não se aplicam a Deus e, portanto, não podem ser tratados nesse nível.

Tentemos agora aplicá-los aos seres humanos. Vejamos se um determinismo absoluto ou uma liberdade absoluta podem ser concebidas em função da realidade dos seres humanos tal como ela se apresenta na nossa experiência. Se eu tivesse uma liberdade absoluta, eu faria o que eu bem entendesse e nada poderia me limitar. Ou seja, os seres em volta estariam todos pré-determinados por mim. Então, a minha liberdade absoluta traria o determinismo para todos os outros, estariam todos ferrados. Se existe um ser humano absolutamente livre, ele é o único. Não pode haver dois seres humanos livres. Portanto, o conceito da liberdade absoluta está fora de cogitação. Se, por outro lado, eu estivesse totalmente pré-determinado, os meus pensamentos também estariam pré-determinados e não haveria possibilidade de eu me colocar alternativas; se eu estou pré-determinado, os meus conhecimentos também estão pré-determinados; estão pré-determinados todos, desde já, e eu tenho em mim o conjunto de todas as pré-determinações que me definem. Portanto, eu tenho de tê-las não somente no meu ser, mas também no meu conhecimento. Então se eu fosse totalmente pré-determinado eu não poderia colocar esta questão.

(…) Agora eu vou lhes dar um exemplo: você se apaixonou pela fulaninha, você quer pedi-la em casamento e você sabe que ela está apaixonada por você; sabe porque você não é nenhum idiota, já percebeu o negócio. Então você vai pedi-la em casamento e sabe que ela vai aceitar. Ela fez isso por determinismo ou por livre-arbítrio? Ela está totalmente livre? Não. Se ela estivesse totalmente livre, ela poderia mudar cem por cento em um instante sem nenhum motivo. Ela está totalmente pré-determinada? Não. Porque senão o “sim” que ela vai lhe dar não teria valor para você, que nem a pediria em casamento. Então, esta simples situação humana não pode ser descrita em termos de determinismo e livre-arbítrio. Ora, se existe uma situação humana, uma única, que não pode ser descrita em termos de determinismo e livre-arbítrio, muito menos o poderá a totalidade da condição humana.

Então, eu queria saber quem foi o filho-da-mãe que inventou este problema: inventa dois conceitos extremos e absolutos, e joga isto pra você e quer sua escolha. Se você escolher um está errado, se você escolher o outro também está errado, se você escolher uma mistura dos dois também está errado, porque uma mistura os anularia automaticamente. Se você disser “nós somos meio determinados e meio livres”, você não disse nada, não preciso explicar muito isso. Vocês são inteligentes e entenderam que um sujeito que é meio determinado e meio livre, não é determinado nem livre e sim uma terceira coisa que você não sabe explicar o que é. Muito bem, é esta terceira coisa que interessa. E esta terceira coisa é a realidade da condição humana com toda a sua complexidade.

Um alerta: existem centenas de conceitos filosóficos que são só pegadinhas, que são fugas da realidade, você não pode descrever a realidade com eles. Assim eu pergunto: se você não pode descrever a realidade nestes termos, para que usá-los?”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 009, 06/06/2009.


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