Por que mandamos um criminoso para a cadeia? – Olavo de Carvalho

“A ilusão de fazer justiça é outro desses idealismos que arrebata as pessoas para a suprema beatitude do conhecimento. Nós jamais fazemos justiça. A pretensão de fazer justiça é uma coisa tremendamente injusta. Por que mandamos um criminoso para a cadeia? Nós mandamos para puni-lo e fazer justiça? O que é que tem a ver uma coisa com outra? O sujeito matou uma pessoa e eu trancafio-o na cadeia durante certo tempo e acho que isso é fazer justiça. Como assim “fazer justiça”? Qual a equivalência que há? Mesmo se eu matar o criminoso não há equivalência, pois isso não trará o outro à vida. Só Deus faz justiça.

E se alguém disser: “Ah, eu não estou pondo o criminoso na cadeia para fazer justiça, mas para recuperá-lo.” Que legal! Ele vai viver entre outros criminosos, aprender mais técnicas do crime, sair puto da vida e cometer mais crimes. E você chama isso de educação! Ou seja, nós não podemos nem fazer justiça nem recuperar os criminosos. Nós pomos os criminosos na cadeia porque nós não os aguentamos. É só por isso. Não é por justiça nem por pedagogia, mas só por segurança. Então, por que a gente não confessa isso? Se tem um sujeito matando gente para caramba, nós não o aguentamos mais e morremos de medo dele, havendo um jeito de trancafiá-lo na cadeia e livrar-nos desse problema, por que não o faríamos?

(…) Quantas vezes não vi alunos meus, estudantes de direito, com este problema na cabeça: a cadeia é uma punição ou uma oportunidade de recuperação? Ela não é nem uma coisa nem outra. A cadeia é um quebra-galho para você continuar vivendo. Do mesmo modo a pena de morte, a cadeira elétrica etc., também são isso. Tem uns caras que você não aguenta nem mesmo na cadeia; até na cadeia você fica com medo deles. Então, liquide os desgraçados!

E como eu cheguei a essa conclusão? Investigando a mim mesmo. Meu pai era advogado e eu acompanhava alguns casos dele. Ele dizia uma coisa: que o juiz não precisa ser parcial em favor de uma das partes, mas ele é sempre parcial a favor de si mesmo. Nada mais justo, pois ele é um ser humano falível, fraco, e tem de cuidar de si em primeiro lugar. Quem não cuida nem de si como vai cuidar dos outros? Se ele manda um criminoso para a cadeia, a primeira pessoa que ele está defendendo é ele mesmo. E defendendo-se a si mesmo ele está, por tabela, defendendo as possíveis futuras vítimas.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 009, 06/06/2009.


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