A classe intelectual e a opinião pública letrada desapareceram do país – Olavo de Carvalho

“Em todo país, além da classe intelectual que está em exercício, existe uma opinião pública letrada — um certo círculo de pessoas que tem uma certa cultura histórica, literária, científica etc., e que podem receber e julgar os produtos dos novos escritores, filósofos etc. No Brasil isso não existe mais. Isso foi abolido. Há pelo menos quarenta anos isso desapareceu, não há um público letrado ao qual você possa se dirigir. E pior ainda, o topo, a parte superior deste público, que seria o círculo dos intelectuais propriamente dito, a rigor também não existe.

O que existe é um grupo ativista militante que, através do processo conhecido como a revolução cultural gramsciana, foi ocupando espaços — este é um termo técnico deles — em todas as universidades, instituições de cultura etc., e que desempenham perante o público geral um papel que simula o da classe letrada. A classe letrada é o conjunto de pessoas que por ter cultura, por ter informação, está mais ou menos habilitada a separar o que faz sentido do que não faz sentido, e criar mediante essa seleção uma espécie de senso comum superior da sociedade. Como esta turma militante ocupou todos os espaços, hoje ela desempenha, perante o público, o papel dessa classe letrada superior. Só que ela não é letrada, ela não é preparada; aquilo é um bando de ignorantes. No entanto, para quem é mais inculto ainda do que eles, para o público em geral ou para o estudante que chega a uma universidade, esse círculo de indivíduos desempenha a autoridade que seria da classe letrada.

Isso criou uma situação muito específica, muito peculiar, no Brasil: as opiniões desse grupo de ignorantes funcionam para a população como se fossem a própria expressão da cultura superior. Só que essa cultura superior não existe mais. Eu não estou brincando, não é uma maneira de dizer, não é um insulto, é uma descrição objetiva de um estado de coisas. Eu asseguro para vocês que, na USP, por exemplo, na parte de ciências humanas não há um só professor com menos de sessenta anos que seja sequer alfabetizado. Eu asseguro isto para vocês. Eu nunca li um escrito de um desses sujeitos que não fosse abundante em erros de gramática primários, bocós, coisa de criança. Isso significa que toda esta ostentação de autoridade intelectual deles é toda falsa.

(…) O que está acontecendo no Brasil é que essa autoridade desempenhada por um círculo de farsantes, iletrados, semi-analfabetos, sobre outros que são mais analfabetos ainda, cria uma inibição mental, uma paralisia cultural, que é uma coisa catastrófica. E é dentro disso que vocês estão vivendo. Não se iludam. Por exemplo, quando essas pessoas, esses professores universitários, pretendem posar como se fossem os porta-vozes do que é a cultura superior não só no Brasil, como no mundo, eles estão enganando vocês, eles não têm cultura nenhuma.

Essa semana eu pude verificar isso novamente quando, ao ler brevemente um artigo publicado na USP em defesa dos estudantes que fizeram aquele quebra-quebra lá — sob o título “A universidade não é caso de polícia”, assinado por um tal de Vladimir Safatle, professor de filosofia na USP. Eu fui verificar quem era o tal de Vladimir Safatle e qual era a produção intelectual dele. Havia uma lista de artigos acadêmicos, que aparece no Currículo Lattes, onde, infelizmente, ele colocava um link para cada um desses artigos, dando acesso à produção cerebral total dessa criatura. Eu li vários dos seus trabalhos acadêmicos e, se eu já estava espantado com o que ele dizia no artigo publicado na Folha de São Paulo, fiquei mais espantado ainda com a produção acadêmica do cidadão, onde o uso do vocabulário usual da Escola de Frankfurt somado a Jacques Lacan e mais meia-dúzia de outros dava um ar de refinamento intelectual para a coisa, coexistindo com erros de gramática brutais, e com primores de inconsciência e de incompreensão que seriam mais dignos de se encontrar em um ginasiano, em um adolescente. Não obstante, eu asseguro para vocês que o Vladimir Safatle é aquele onde eu encontrei menos erros de gramática — no artigo acadêmico que eu irei comentar devia ter apenas uns sete ou oito; em geral, a média é cinquenta, sessenta — e, por incrível que pareça, o sujeito não era totalmente incapaz, ele demonstrou alguma capacidade. Eu consideraria o Vladimir Safatle um sujeito qualificado para ser meu aluno, para sentar aí, ouvir e aprender comigo e se tornar gente. Pelo que a gente vê do trabalho dele tudo que esse sujeito leu foi aquele círculo de autores regulamentares que são praticamente obrigatórios para todos os intelectuais esquerdistas de hoje: Escola de Frankfurt, Michel Foucault, Jacques Lacan, e isso é tudo. Eu duvido que esse sujeito tenha lido, algum dia, alguma obra literária, porque o mau gosto com que ele escreve é uma coisa incrível. Não é possível que alguém que tenha lido Camões, Cervantes etc., depois escreva assim. Ele aprendeu a escrever com os seus mestres, e os seus mestres são esses; então basta aprender assimilar aquele vocabulário deles, aquele jargão deles e você parece estar falando uma coisa séria. Esse é o estilo padrão dos professores da USP, todos escrevem assim. Uns pior, outros melhor, mas é tudo assim. É uma coisa absolutamente impressionante essa exibição de miséria mental.

(…) Esta primeira parte da aula, essas coisas que eu estou explicando agora, são apenas para vocês tomarem consciência cada vez mais aprofundada da miséria cultural, moral e humana, dentro da qual vocês vivem, e da qual vocês vão ter de se libertar. Vocês vão ter de sair deste lamaçal, erguer-se acima dele, dominar a situação, não só intelectualmente, mas existencialmente — não permitir que essa porcaria toda os contamine, os deprima, os desencoraje, ou os corrompa.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 010, 13/06/2009.


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