Trazer do fundo para si o universo é a garantia de que seus pensamentos não vão fugir muito da realidade – Olavo de Carvalho

“Sugiro um exercício que aprendi num livro do Narciso Irala — psicólogo e padre jesuíta — que chama-se Controle Cerebral e Emocional. Ele dá esse exercício, como muitos outros, para o bem da sua saúde mental. Mas o que nós estamos visando aqui não é bem da nossa saúde mental, ou pelo menos não é só isso, é outra coisa.

(…) Esse exercício é de você deitar, relaxar, fechar os olhos e tentar perceber conscientemente todos os ruídos em torno — ruídos próximos e ruídos distantes. E aí você verá como há uma infinidade de ruídos que você não estava percebendo conscientemente, mas também não pode-se dizer que você não percebia de maneira alguma, pois você os percebia no fundo. Ou seja, não eram ruídos importantes para a sua ação imediata, eles constituíam o fundo da sua ação imediata. Existe o cenário próximo onde você está agindo e existe, vamos dizer, o ambiente em torno que se prolonga como uma série de círculos concêntricos, de modo que os ruídos vão se tornando cada vez mais imperceptíveis, mas eles estão lá. Você não vai pensar, você não vai analisar, você não vai fazer nada, você vai fazer apenas a coleção dos ruídos. (…) Esse exercício é somente de percepção passiva, você vai só perceber aquilo que já estava percebendo no fundo. Simplesmente, aquilo que estava no fundo você vai trazer para frente. Não é para pensar nada, é só para perceber.

Em seguida, você vai fazer um segundo exercício. Você novamente vai fechar os olhos e imaginar um fundo preto. Nesse fundo preto você vai traçar, da esquerda para a direita, uma linha branca. E daí, da ponta direita da linha branca, você vai traçar um ângulo reto, e traçar outra linha branca perpendicular àquela e do mesmo tamanho daquela. Deste ponto aqui você traçar uma terceira perpendicular, terceira linha branca também do mesmo tamanho, e da ponta desta você vai puxar uma outra linha branca e fechar um quadrado.

O primeiro exercício é de percepção, o segundo exercício é de construção mental. Os ruídos estavam presentes, o quadrado não estava presente, foi você que pôs, você o inventou, você o construiu. A atividade construtiva da mente é evidentemente muito importante, porque existem muitas coisas que estão para além do nosso círculo de experiência imediata, e que sem essa atividade construtiva nós não poderíamos conceber. Porém, quando ela começa a se exercer prematuramente, antes de você ter desenvolvido a consciência de percepção, ao ponto de você poder incorporar a presença do ser como um dado constante e consciente, o que acontece? Você substitui o mundo das suas ideias pelo mundo da realidade. Isso é uma doença. O mundo do pensamento sem dúvida é interessante, e pode ser até bastante rico. Mas cá entre nós, nunca poderá haver tantas coisas nele quanto existe no universo real.

(…) Mas preste atenção que, durante todo esse exercício, você sempre soube que os ruídos saem de algum lugar. Ou seja, você não percebeu só os ruídos, você percebeu presenças. Você não precisou pensar para saber que o latido vem de um cachorro, você está percebendo isso aí. Você tem à sua volta um círculo de presenças ao qual você não presta atenção, mas do qual você está de certo modo consciente. Por que? Porque aquilo assinala onde você está, o que você está fazendo agora e onde você está fazendo. Essa referência está permanentemente presente. Não há ninguém, ninguém, ninguém que aja no vazio. E essa percepção de presença contém também a percepção de inúmeras presenças latentes que você não pode captar agora, mas que você sabe que estão lá. Por exemplo: se todas as criaturas estavam emitindo barulho, é porque elas estão em algum lugar do espaço. E você sabe disso, não é uma conclusão que você tira. Na hora em que você percebe que um ruído está longe, o longe não é um ruído, é uma referência espacial. Como é que você poderia distinguir entre os vários ruídos mais próximos e mais distantes se não estivesse implícita a presença do espaço? Então, esse é também mais um elemento consciente.

(…) São exercícios que puxam a presença do fundo para frente e a incorporam na sua pessoa. Ora, normalmente nós não fazemos isso, nós prestamos atenção só naquilo que nos interessa. Mas quem escolheu o que lhe interessa? Foi você mesmo. Portanto, escolher o que lhe interessa é uma atividade construtiva da mente. A sua mente separa um pedaço para prestar atenção só naquilo. Por exemplo, você está lá comendo um pedaço de bolo, então certamente você não está pensando em outra coisa. No máximo você está pensando em duas coisas: você está comendo um pedaço de bolo e conversando sobre futebol. Você está prestando atenção em duas coisas. Você é capaz de imaginar um universo que se compusesse tão apenas de bolo e futebol? Não, isso não existe evidentemente. Isso só existe mentalmente, quer dizer, o seu círculo de atenção recortou aquilo, mas o bolo, o assunto da conversa e as pessoas com quem você está conversando, tudo isso existe num universo que está presente.

Esse exercício de você trazer do fundo para si o universo é a garantia de que seus pensamentos não vão fugir muito da realidade. É a garantia de que seus exercícios, as suas atividades de construção mental, não construirão uma jaula para prender você dentro e isolá-lo da realidade.

(…) Então, aquilo que você presta atenção, que você recorta como objeto da sua atenção, só vale quando está colocado no fundo permanente daquilo no qual você não presta atenção. Do mesmo modo que hoje se fala tanto de comunicação não verbal. Mas é claro que existe comunicação não-verbal, porque quando você diz alguma coisa, para dizer alguma coisa eu tenho de estar fisicamente presente, mas a sua presença física não faz parte da mensagem verbal, ela é a base da mensagem verbal. O mundo do verbal, daquilo que é dito, daquilo que é pensado etc., ele é um recorte de dentro do mundo da experiência real e, para além do mundo da experiência real, existe o mundo presente que não é objeto da experiência, mas que está ali presente. O exemplo mais óbvio é o seguinte: as pessoas com quem você conversa só estão sendo olhadas de fora, de maneira que você não está vendo o interior dos corpos delas — o pulmão, os intestinos, o cérebro. Agora, suponha por um momento que essas pessoas não tenham nada disso, que elas são apenas formas ocas, que dentro do corpo delas não existe nada, que é vazio; seria macabro e aterrorizante, não é mesmo?! Ou seja, você não está vendo os órgãos internos, não está vendo o seu funcionamento, mas você conta com isso, pois está presente. E, note bem, isso não é uma conclusão que você tira. Nós estamos agora pensando sobre isso, mas não é através do pensamento que você sabe disso, é através do senso de presença.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 10, 13/06/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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