O aumento do volume de registros não é o aumento do conhecimento – Olavo de Carvalho

“O aumento do volume de registros não é o aumento do conhecimento. É o aumento dos objetos do conhecimento que tem de ser decodificados para que se tornem conhecimento. Agora, em cada geração, você tem um número relativamente pequeno de pessoas que têm as decodificações, e que incorporaram aquilo a si mesmo.

Existem dois tipos de progresso do conhecimento: (a) um é o progresso da acumulação de registros; (b) o outro é o progresso na geração de pessoas capacitadas para a decodificação. E esse é o verdadeiro progresso do conhecimento. Progresso que é altamente problemático, cheio de fracassos, porque às vezes de uma geração para outra se perde tudo — como aconteceu no Brasil. Quando leio um daqueles críticos literários dos anos 50, como Otto Maria Carpeaux ou Álvaro Lins, eu vejo a riqueza de sensibilidade daqueles caras. É uma coisa impressionante! Eu vejo os diálogos que havia entre os escritores, entre eles e o Manuel Bandeira, um Augusto Mayer. Mas que riqueza de experiência humana impressionante. E tudo isso se perdeu! É recuperável, principalmente se aparece um elo. E esse elo é este que vos fala. Porque eu recebi tudo isso na época em que existia. E quando foi acabando e foi morrendo, eu fui vendo isto, e fui ficando angustiado. E quanto mais eu via isso morrer, mas me esforçava para preservar dentro de mim aquilo.

(…) Os registros certamente estão aí. Mas se existe uma ruptura total de uma geração para outra é dificílimo recuperar. Uma boa parte da cultura brasileira ficou ininteligível. E da cultura portuguesa então? Experimentem ler Camilo Castelo Branco ou Aquilino Ribeiro. Vocês não vão entender “a” do que estão lendo ali. As gerações e gerações que perderam contato com a cultura portuguesa, perderam a linguagem. Então é preciso de um esforço monstro para recuperar isso aí.

Um aumento do volume de registros cria uma segunda camada de objetos em cima dos objetos da natureza — os objetos culturais que tem de ser decodificados, tem de se transformar em patrimônio de pessoas reais. Por exemplo: você vê um escritor bom que em uma geração é bastante lido, conhecido, comentado etc., e a geração seguinte o apaga. Quando chega na 3ª geração, aquilo já tornou-se quase ininteligível. Você tem de recuperar o imaginário do público para quem ele falava para voltar a entendê-lo. Por exemplo, o Brasil tem grande escritor que é o José Geraldo Vieira. Na época em que ele estava vivo, todos os escritores brasileiros o respeitavam como uma espécie de guru da arte do romance. Depois sumiu. Sumiu completamente. Então hoje, quando as pessoas vão lê-lo, aquilo parece esquisito, fica difícil você recuperar aquilo. E se passar duas ou três gerações, bom daí só se vier um erudito e passar a vida estudando aquilo.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 010, 13/06/2009.


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