A educação moral, social e intelectual no Brasil – Olavo de Carvalho

“Em circunstâncias normais, numa sociedade na qual você tem ideia de como ela funciona, quais são as instituições que existem, quais são os valores e critérios, quais são os hábitos consolidados; você normalmente estuda para obter um lugar dentro de um quadro que você mais ou menos já conhece. Existindo as várias profissões intelectuais, existindo as funções públicas, profissionais ou não, associadas à vida intelectual, você quer um lugar dentro delas. Essa condição não se cumpre no Brasil de hoje. A sociedade está numa mudança tão acelerada e existe uma decomposição tão rápida dos padrões da vida intelectual que, simplesmente, não há postos a serem preenchidos.

Nós vamos ter que criar novas funções, criar novas identidades públicas, criar novos papéis dentro do cenário da vida intelectual e, de fato, nós vamos ter de criar a própria vida intelectual brasileira que não existe mais. Esta é uma situação muito peculiar que vai exigir de nós uma modalidade de ensino completamente diferente do que seria em outras circunstâncias.

(…) Em geral, a educação abrange os seguintes aspectos: em primeiro lugar, a educação da personalidade, das emoções, das reações básicas, dos valores etc. Isso é feito, em geral, quase tudo na educação doméstica. Quer dizer, é na sua casa, no meio de sua família, que você vai receber aqueles valores primários que, de alguma maneira, vão lhe orientar para o resto de sua vida, quer você permaneça fiel a eles, quer você os mude depois. Mas, de qualquer modo, eles são o quadro inicial de referência, é onde se forma realmente a sua personalidade. Não há comparação entre a função da escola e a função da família no tocante à formação da personalidade.

A escola pode depois interferir em alguns hábitos, alguns valores, mas são hábitos e valores que dizem respeito mais à vida pública do sujeito. A personalidade de base, nós podemos dizer, já está formada quando você vai para a escola. Hoje em dia a tendência é mandar o sujeito para escola cada vez mais cedo, para que a própria escola molde a personalidade de base.

(…) Depois dessa educação, que chamaremos de educação moral — o que é só uma convenção, não é um nome técnico —, começa a formação do cidadão para a convivência social, que naturalmente é feita na escola. Na escola é que você, pela primeira vez, vai receber regras formais que são válidas para toda uma comunidade. Essas regras são muito diferentes daquelas que você recebe em casa. Em casa você tem a autoridade do pai e da mãe que lhe dá certas ordens, coloca certas obrigações e coloca certas proibições, mas que só valem naquele contexto imediato, e que seria bem diferente do que você observaria numa outra casa. Neste plano você vê a infinidade de diferentes códigos familiares que podem existir.

(…) Agora, quando você ia para a escola, não. Você começava a receber códigos que eram válidos para toda uma comunidade de mil, duas mil, três mil, dez mil pessoas. Ali começava a tal da formação para a cidadania. Ser um cidadão é você estar submetido às mesmas regras que valem para toda a sociedade. Então, em um colégio grande com três ou quatro mil alunos, você tinha uma sociedade em miniatura, na qual o tratamento já não era direto e pessoal. Por exemplo, ninguém ia gritar com você como as mães, que às vezes tinham crises histéricas com as crianças. Algumas mães choravam, faziam chantagem emocional e se desesperavam quando os filhos não as obedeciam. Você não via nada disso na escola, o tratamento era muito mais impessoal.

Se você cometesse uma infração qualquer, ninguém descarregaria sobre você as suas emoções pessoais, simplesmente o castigariam, suspenderiam, expulsariam ou você seria exposto alguma humilhação pública, mas era uma coisa impessoal e mais ou menos mecânica. Muito pior, é claro, do que a coisa doméstica, porque a sua mãe, por mais brava e histérica que ela seja, você também pode fazer a chantagem emocional em cima dela, mas ali no colégio chantagem emocional não ia funcionar, eles estavam pouco se lixando para você. As suas emoções pessoais já não contavam, contavam apenas os seus direitos e deveres iguais aos direitos e deveres de todas as outras crianças. Esse era um segundo tipo de educação.

Essa educação não somente ia passar os direitos e deveres, mas ia passar certo número de códigos que permitiam que você agisse, que se virasse dentro da sociedade e aprendesse a obter dali aquilo que desejava e que era possível nas circunstâncias. Então, essa educação é o conjunto de habilidades práticas requeridas para a vida em sociedade. Inclusive já com até alguns rudimentos de vida comercial.

(…) Aos poucos essa educação social — vamos chamar social — se transfigurava numa educação propriamente intelectual: o adestramento para as ciências, para a linguagem etc. De início, essa educação também tinha um caráter puramente disciplinar, eles lhe ensinavam regras que você tinha de cumprir. Então, eu digo que ainda não era uma educação, mas apenas um adestramento. A educação do intelecto propriamente dito começa na hora em que se requer de você uma compreensão e uma elaboração mais pessoal das coisas. Isso, de fato, não só não era exigido como era até proibido.

Eu me lembro, por exemplo, que quando começaram as lições de Matemática — a primeira vez que me deram aula de Geometria e o sujeito definiu ponto, reta e plano, e disse que um ponto não media nada e que, somando-se vários pontos obtinha-se uma reta. Eu paralisei imediatamente e falei: “Espera aí, tem algum problema aí! Se você somar várias coisas que não medem nada, você não sai do lugar.” Daí o professor respondeu assim: “Não, mas isso aqui é intuitivo.” Eu falei: “Como intuitivo? Eu não estou intuindo nada aqui. Quanto mais você diz que é intuitivo, mais está me deixando maluco.” Então eu percebi que o objetivo daquelas aulas não era nos fazer compreender nada, mas seguir certo protocolo de procedimentos que permitiam obter dos cálculos o resultado desejado, de modo que você fosse premiado ou castigado com uma nota dez ou uma nota zero — evidentemente eu tirei zero. Isso foi uma experiência pessoal minha. Eu me lembro que, naquele instante, o meu cérebro rejeitou profundamente aceitar a regra do jogo, que me parecia absurda. Eu lembro que naquele dia eu decidi: “Eu não assisto mais esta aula”. Quando chegava o professor de geometria, eu dizia: “O senhor entrou, eu saio. Não que eu tenha nada contra o senhor, não é nenhum ato de rebeldia, é simplesmente uma coisa de autopreservação, eu não quero ficar maluco.”

(…) A Matemática transmitida não como educação verdadeira, mas como puro adestramento, como indução a uma obediência e a uma educação de comportamento, eu acho que isso faz um mal absolutamente formidável para a cabeça. Por ser uma atividade mentalmente complexa, você acha que está exercendo uma atividade intelectual, mas você a está exercendo exatamente como um macaco adestrado, e não como um ser humano que está compreendendo realmente o que está fazendo.

(…) E isso, evidentemente, era a regra geral no ensino, porque a questão que eu estava colocando era uma alta questão de filosofia da matemática: a origem das figuras geométricas. Uma questão que ocupou desde Platão até Edmund Husserl. Eu não sabia disso, evidentemente, eu não sabia que as questões que eu estava colocando, que me atormentavam pessoalmente, eram questões que tinham sido tratadas por cérebros tão eminentes.

(…) Mas isto é só para dar um exemplo de que o princípio do ensino das ciências e das artes é ainda um ensino disciplinar tal como a educação social (que nós estávamos mencionando há pouco), ainda não é uma educação intelectual. Às vezes, o restante da sua educação continua puramente disciplinar até você chegar à universidade, ou seja, a educação intelectual não começa jamais. A matéria, o conteúdo do que está sendo ensinado é referente às disciplinas intelectuais, é referente à educação intelectual, mas ainda está sendo tratado como educação social. Isto quer dizer que é possível, sobretudo nas circunstâncias brasileiras, você passar vinte anos de escola sem jamais receber nenhuma educação intelectual.

A partir dos anos 60, em que as universidades são ocupadas por esse pessoal militante, gramsciano etc., aí é que se torna assim. Pior ainda, porque o objetivo ali não é despertar efetivamente a capacidade intelectual do sujeito, mas moldá-la para que ele se comporte desta ou daquela maneira. Para que ele se integre no grupo, diga as mesmas coisas que o grupo está dizendo, sinta as mesmas coisas e seja facilmente mobilizável para esta ou aquela reivindicação ou organização política etc. Podemos dizer que, no Brasil, praticamente toda a educação se transformou em educação social e adestramento.

Quando você vê as coisas que aconteceram na semana passada na USP, aqueles movimentos reivindicatórios, aquela coisa toda. Em nenhum momento aparece na cabeça daquelas pessoas a ideia de que aquilo é uma universidade pública e, portanto, eles não pagam nada pelo que estão recebendo, é tudo de graça. E tudo o que é de graça foi extraído dos impostos pagos não por moleques, mas por pessoas de 40, de 50 anos que estão trabalhando — que vão desde a classe média até o operariado mesmo — está todo mundo ali pagando imposto. Você não compra nada, não compra um maço de cigarro sem pagar imposto, não compra um saco de feijão sem pagar imposto. Todo mundo está pagando imposto, menos aqueles camaradas, eles só estão recebendo, quer dizer, eles não estão fazendo nada pela sociedade, eles estão recebendo tudo e de graça. E na hora em que um sujeito desses sente que tem direito a reivindicar, ele já se transformou num bandido automaticamente. Ele não tem direito de reivindicar nada, nada, nada. Quem está recebendo de graça tem de calar a boca e fazer o que lhe mandam. Quem tem o direito de reivindicar é quem está trabalhando, é quem está produzindo.

(…) O estudante que não deu absolutamente nada e que está recebendo tudo?! Como é que essas pessoas não percebem a sua verdadeira situação social? É simples: porque a própria circunstância social na qual eles vivem os ensina a encará-la não com o espírito de conhecimento e de objetividade científica, mas com o espírito de adestramento para certas atividades reivindicatórias, políticas, revolucionárias etc. Isto quer dizer que o sujeito não sabe onde ele está e não sabe o que está fazendo, ele só sabe aquilo que os seus colegas e os seus gurus acham que ele deve fazer, e que instigam nele a revolta e o ódio contra aqueles que não fazem. Isto aí é adestramento de macaco, evidentemente.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 11, 20/06/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


Gostou da publicação? Clique aqui para ver todos os fragmentos do Curso Online de Filosofia.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: