As três funções da linguagem de Karl Bühler, e a extinção da função nominativa no Brasil – Olavo de Carvalho

“Karl Bühler dizia que a linguagem tem três funções. A primeira é a função expressiva, pela qual você manifesta seus sentimentos, seus estados interiores etc. O sujeito dá uma martelada no dedo e diz “Ai!”. O que ele está fazendo? Ele está expressando. Quando ele fica com medo, pede socorro, e assim por diante.

A segunda função é a apelativa. A função apelativa é aquela pela qual você age sobre as consciências dos outros. Por exemplo, o vendedor que está argumentando para você comprar um carro ou uma geladeira não está expressando as suas emoções, está agindo sobre sua mente. Isso aí já requer certo recuo do sujeito em relação à sua linguagem, ele tem de ter certo domínio sobre a linguagem e sobre a situação para ele poder fazer isto. (…) Então a função expressiva tem de recuar para que a função apelativa exerça sua função sobre a cabeça do ouvinte.

E, terceiro, tem a função nominativa, que é a função de descrever a realidade. Essa é, evidentemente, a mais difícil, e, para que você descreva a realidade, as outras duas funções têm de recuar. Nominativo, porque é dar nome às coisas.

Ora, no uso geral que se está fazendo da língua portuguesa no Brasil, a função nominativa simplesmente desapareceu. As pessoas não escrevem para descrever o que estão vendo, o que estão experimentando, ninguém mais faz isto. Elas só escrevem para dar certas impressões. Ou porque isso lhes faz bem, portanto estão na função expressiva ou porque querem que as pessoas sintam isso ou aquilo para que ajam da maneira que interessa a eles.

(…) O resultado se manifesta e se torna visível, sobretudo, no uso das figuras de linguagem. Você não encontra hoje, lendo artigos na mídia, sobretudo, e lendo até livros, dificilmente você encontra uma figura de linguagem que corresponda àquilo que o sujeito está querendo dizer. Eu vou lhes dar um exemplo: outro dia lendo um artigo do Frei Betto, em que ele estava querendo contrastar a civilização tradicional do Oriente, os valores profundos da mística oriental com o materialismo capitalista ocidental, ele disse o seguinte: “Eu visitei vários mosteiros no Tibet, na China, no Japão e ali havia aquela paz, aquela meditação e depois, olhando um aeroporto em Nova York, vendo aquela agitação, as pessoas comendo demais, todo mundo nervoso, eu me perguntei: “Qual desses dois modelos cria maior felicidade?” Eu digo: Bom, experimenta fazer o contrário, compare um mosteiro em Londres e um aeroporto em Pequim. Você está contrastando duas civilizações ou dois tipos de edifícios? Então, esse é o tipo da figura de linguagem totalmente desastrosa. Pior, eu vi que essa crônica circulou pela Internet e todo mundo dizia: “Mas que coisa linda, que coisa bem escrita”. É um analfabeto escrevendo para outro mais analfabeto ainda. Isto eu estou falando não porque é o Frei Betto, mas porque todo mundo hoje escreve assim.

(…) Quando eu li também aquele negócio do Dr. Emir Sader que dizia assim: “Há personagens que pela sua grandeza transcendem a capacidade de descrevê-los. O que quer que você diga sobre Karl Marx está abaixo, o que quer que você diga sobre o Fidel não vai alcançá-lo, o que quer que se diga sobre o Che…” Mas eu digo: Espere aí, nenhum ser humano pode ser transcendente à linguagem humana. O maior dos seres humanos pode ser descrito pela linguagem humana. Agora, se você fala de Deus, bom, daí não dá, porque Deus é infinito, eterno etc. e toda a nossa linguagem está condicionada às figuras do mundo temporal onde nós vivemos, então aí você tem uma certa dificuldade e mesmo assim dá para escrever um bocado sobre Deus. O que quer dizer Teologia? Teo e Logos, falar sobre Deus. Quer dizer, até de Deus os teólogos falam, agora o Che transcende a linguagem humana. Claro que isso aí é uma idolatria psicótica. Não é uma idolatria apenas, mas uma idolatria de tipo psicótico. Mas ele não percebe que é isto, ele não percebe que ele fez isto. Ele não percebe que atribuiu características divinas à inexpressabilidade. (…) E as pessoas leem isto e elas não percebem que é ridículo. Então quer dizer que o domínio da linguagem se perdeu completamente.

Esta é a maneira de escrever que é normal entre pessoas consideradas intelectuais. E tem um imenso público na universidade que acha que eles escrevem bem. As pessoas já não têm a menor ideia do que é escrever bem. Então, o que vai acontecer se você começar a escrever bem? As pessoas vão entendê-la nos termos do analfabetismo consagrado. Vão achar que você está fazendo as mesmas coisas que elas estão acostumadas a fazer. E, naturalmente, vão passar longe daquilo que você quis dizer. Mas, se você disser: “Mas eu não quero que isto aconteça, eu quero que essas pessoas me compreendam”. Isto é impossível, porque elas também não compreendem o Frei Betto, nem o Emir Sader. O que houve ali é o modelo de leitura deles. É apenas um modelo de auto-identificação grupal: as pessoas leem em busca de certos símbolos, de certos emblemas, de certos lugares-comuns que evocam neles um senso de concordância, um senso de pertinência, um senso de que elas pertencem àquele grupo, que esse é um dos nossos… é só isto. Eles não estão falando de nada, estão apenas mostrando a carteirinha do clube.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 11, 20/06/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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