Não caia de novo na armadilha da busca da aprovação social – Olavo de Carvalho

“Existe um conto do Hermann Hesse que se chama O Selvagem. O selvagem é um sujeito que tem um problema qualquer com o pajé da tribo e é expulso da tribo. Ele está muito triste ali, andando no mato, sai andando, andando, andando e, de repente, ele chega ao mar, que era uma coisa que até aquele dia ele não conhecia. Ele vê aquela coisa imensa, e então percebe que todo aquele problema que ele teve na tribo era uma absoluta insignificância, era um nada. A abertura para o mundo do conhecimento é esta experiência, é se abrir para uma dimensão que não existia. Agora, se você ainda está preso dentro daquela dimensão e se tudo o que você quer é sentir a identidade grupal, é sentir aquele apoio, você não vai conseguir jamais.

Entre o momento em que você pertence à tribo e o momento em que você descobre o mar, existe a travessia ali do mato, em que você vai estar sozinho e vai estar muito triste e achar que está tudo perdido, mas é uma ilusão e isto dura pouco. Portanto, não me venha com essa conversa: “Ah, agora ninguém gosta mais de mim e eu tento discutir com as pessoas e elas não mais me aceitam.” Primeiro: você não tem de discutir com essas pessoas. Você não tem de discutir com ninguém, com ninguém. Tem um escritor colombiano, um excelente escritor, Nicolás Gómez Dávila, ele diz o seguinte: “Vencer um tonto nos humilha.” A minha vida você sabe que é uma sucessão de humilhações; no Brasil só tem tonto, querer discutir com Emir Sader, é derrotar tonto. Quer dizer, a minha vida é uma humilhação sucessiva. Mas eu faço isso porque é obrigatório fazer. Não porque eu deseje convencê-los disso ou daquilo. Imagina se eu desejo mudar a opinião do Dr. Emir Sader! A única coisa que eu quero que o Dr. Emir Sader faça é que ele largue a profissão intelectual e vá pra casa. Faça que nem o Ennio Candotti: vá plantar batata, vá trabalhar de frentista de posto de gasolina, vá criar galinha, vá fazer alguma coisa que esteja à altura da sua capacidade intelectual. (…) Então, só o que eu quero é mostrar para eles, num relance, que eles tenham um relance intuitivo e percebam a fragilidade da sua posição existencial e que vão cuidar de suas vidas. Se eu não conseguir mostrar para eles, pelo menos conseguir mostrar para os outros. “Olhem, isso aí é um palhaço, é um louco. Saiam de perto!”

Agora, se você vai discutir com o seu colega de faculdade, com o seu colega de trabalho, com o pessoal da sua família, para que você está fazendo isto? Você não vai trazer nenhum benefício para eles, nem para você, nem para terceiro. Você está apenas tentando conquistar a adesão deles a você, para que eles gostem de você, e isto está profundamente errado. Porque você está caindo de novo na mesma armadilha. Caiu de novo na armadilha da busca da aprovação social. Só que você se tornou um cara diferente e quer que eles aprovem o diferente.

A resposta para isso é muito simples: “Vai procurar a sua turma.” Quem é a sua turma? (…) São Tomás de Aquino dizia que a amizade consiste em querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas. Aqui nos Estados Unidos as pessoas compreendem isto, porque a rede de amizades aqui costuma formar-se pela afinidade na busca de certas coisas. Há, por exemplo, pessoas que gostam de caçar, então você vai lá e faz amizade no círculo de caçadores. Aqui está cheio, aqui na Virginia está cheio. Ah, você não gosta de caçar, mas gosta de poesia, então tem lá o clube de poesia; os caras vão lá recitar poesia e você faz amizade ali. Ou seja, a amizade não é feita na base da pura simpatia pessoal momentânea que é totalmente enganosa, meu filho. Você pode simpatizar com uma pessoa, mas você não sabe quem é ela realmente. Então aqui, nos Estados Unidos, esse problema está resolvido. As amizades aqui são mais sólidas por causa disso. No Brasil, o que é a amizade? O sujeito ser seu amigo significa o seguinte: ele está no seu círculo de amizade, no seu círculo de convivência, então ele adquiriu o direito de falar mal de você. Todos nós sabemos que é isto. Isto é o máximo que você vai obter de um amigo.

(…) Se você tenta discutir com essas pessoas é porque quer a aprovação delas. Só é lícito começar a discutir e começar a falar em público quando você está realmente empenhado numa missão e não espera mais a aprovação das pessoas, e você não quer isto. Se você quiser a aprovação delas você já está numa posição fraca. Quando eu começo a falar ou discutir em público com um sujeito qualquer, eu não quero a aprovação dele, eu digo: “Se você me aprovar, isto é vantagem para você. Eu não vou ganhar nada com isso.” Se você disser: “Ah, agora você mudou minha ideia, agora entendi, agora estou acreditando em você.” Eu digo: “Bom para você, porque para mim você só vai fazer uma coisa: você vai começar a mandar e-mail, fazer perguntas, vai começar a me encher o saco. É isso o que eu ganhei de convencer você. Agora, você não, meu filho, você ganhou uma nova perspectiva, uma nova vida. Então, sorte sua que acreditou em mim.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 011, 20/06/2009.


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