Refazendo a sua educação moral através da técnica da confissão – Olavo de Carvalho

“Existem inúmeros livros que você pode ler e que irão ajudá-lo nesta trajetória do autoconhecimento. O primeiro são as Confissões de Santo Agostinho. Aquele é o modelo: naquelas confissões, pela primeira vez, e não antes, o homem ocidental adquire a noção da sua responsabilidade por tudo o que se passa dentro da sua alma.

Esta foi uma conquista da civilização e não algo que veio naturalmente. Claro que todo homem tem a capacidade para realizar esta confissão, pelo simples fato de ser homem. Porém, o confronto com a realidade existencial da sua própria vida não é uma ideia que ocorra naturalmente aos seres humanos. Quando Agostinho começa a fazer isso já havia quatro séculos de experiência da confissão cristã. A confissão é um sacramento, mas ela também é uma arte, e também é uma técnica, e esta foi se aprimorando com o tempo.

Eu me lembro, por exemplo, que havia o livro do Adolphe Tanquerey: Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Neste livro, ele ensinava a preparação para a confissão. E o que é esta preparação? É o que se chama exame de consciência. Esta é uma prática que tem dois mil anos! E o primeiro que fez a confissão não acertou tudo: ele teve que ir aprendendo.

A confissão, claro, tem um lado puramente ritual. É um rito pelo qual o sacerdote, investido do mandato divino para isto, concede a absolvição dos seus pecados. Porém, existe a articulação entre este lado exterior ritual e o lado interior. O sacerdote o absolve dos seus pecados desde que a confissão tenha sido sincera. Entretanto, a confissão sincera é um problema gravíssimo, porque frequentemente nós não sabemos sequer o que é e o que não é pecado. Frequentemente, estamos confusos com relação a nossa vida interior. Além disso, você não pode ir ao confessionário e lá permanecer por dez dias fazendo as “confissões de Santo Agostinho” — isto não é possível! Então, você vai ter de agrupar os seus pecados por gêneros e espécies e mencioná-los ali de forma mais ou menos genérica. Mas, para isso, você precisa saber quais são eles.

Havia no livro do Adolphe Tanquerey a técnica do exame de consciência, que é uma técnica muito simples. Você tem dez mandamentos a cumprir e, então, com relação a cada um desses dez mandamentos, você vai responder a uma série de perguntas para si mesmo: eu fiz “isto”; eu fiz “aquilo”; eu pensei “aquilo outro”; eu tive “tal e qual” intenção. Era algo maravilhoso! O sujeito respondia a cem perguntas e, convenhamos: é impossível fazer isso e não sair sabendo algo sobre si mesmo, mas desde que se faça isso não com um espírito masoquista, porque é quase inevitável que se introduza dentro desta prática aquela hipocrisia de querer parecer um bom menino perante o próprio Deus.

Entenda: você precisa ter em mente que não está lá para ser aprovado por Deus. (…) Ele não está ali para aprová-lo. Ele está ali para quebrar o seu galho. Fazer um discurso de auto-acusação perante Deus também não vai resolver seu problema, porque Ele sabe muito mais do que você sabe. Esta prática é para que você fique sabendo, de si mesmo, algumas coisas que Deus já sabe. É uma prática de abertura e de tomada de consciência. Ela tem de ser feita com certa tranqüilidade e neutralidade. Não é para você ficar batendo no peito: “Eu sei que sou um filho da puta, eu sou isso, eu sou aquilo…” Não é isso! Se fizer assim, você já inverteu tudo. Aquilo deve ser feito com serenidade.

(…) Todos têm de fazer esta prática. Não é que você tenha de ser católico. Pode ser budista, protestante, judeu, qualquer outra coisa, e mesmo assim vai lhe fazer bem. E, sobretudo: não há outra técnica.

Mas, e a psicanálise, por exemplo? Primeiramente, em psicanálise, ocorre um fenômeno que é o da análise sem fim. O sujeito começa a análise e aquilo começa a girar em círculo e nunca mais termina. Para que serve esta porcaria? Segundo: a psicanálise não serve como instrumento de autoconhecimento geral, porque ela só está interessada em um único aspecto. Por trás da técnica psicanalítica existe a teoria psicanalítica, que é tremendamente limitativa. Ela acredita que existe dentro de você um monstro chamado id e outro monstro chamado superego. Você, o pobre eu, está ali espremido entre os dois e, então, tampa a porta do id porque tem medo do superego — assim, as paixões ocultas começam a se transformar em neuroses. Muito bem — isso até acontece, às vezes. Mas eu asseguro a vocês (e mais tarde podemos examinar isto com mais cuidado) que este mecanismo não é universal. Este não é o mecanismo fundamental gerador das neuroses e é algo que só ocorre para certos tipos de pessoa.

(…) Não há outra modalidade de autoconhecimento a não ser a técnica da confissão. É claro que você mesmo pode completá-la, mas apenas acrescentando, sem jamais tirar nada! (…) É através da confissão que você vai corrigir as inumeráveis distorções da sua educação primeira. Preste atenção! Isto não está incluído nas perguntas do Tanquerey, mas adaptando à situação brasileira específica, preste atenção ao seguinte: na sutil indução de covardia que houve desde que você era pequeno. Você é induzido, em primeiro lugar, à busca de segurança, à busca de proteção. É incrível! As pessoas estão mais preocupadas com que você se autoproteja, em vez de estar preocupadas com que você vença. (…) Eu vejo que, na sociedade brasileira, existe essa indução a uma autoproteção excessiva e à busca de proteção e de aprovação. Preste muita atenção nisso: onde você procurar dentro de você, irá encontrar mecanismos que você possui para cortejar a aprovação ou de um grupo de referência, ou do chefe, ou de alguma outra pessoa.

Outra coisa que você deve sondar dentro de você com muita atenção, e que também é algo que se aplica à sociedade brasileira, é o ódio ao conhecimento. As pessoas têm isso no Brasil. É algo notável! Eu sugiro para vocês a leitura de três livros que são os três grandes romances do Lima Barreto, seus três melhores romances, que são: Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Triste Fim de Policarpo Quaresma e Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. O tema deles é sempre o mesmo: o homem de conhecimento, o homem que busca o conhecimento e como ele se vira na sociedade brasileira.

(…) É claro que pode existir um pouco de tendências anti-intelectuais, anti-conhecimento, por toda a parte, mas elas não são centrais nas sociedades como são no Brasil. Ao mesmo tempo que você tem este horror ao conhecimento e esta espécie de inveja maliciosa e destrutiva das pessoas com um pouco mais de talento há, como compensação, o culto dos símbolos exteriores ao conhecimento como, por exemplo, a escola, o diploma etc.

(…) Some isso àquilo que dizia Hermann Keyserling, um filósofo muito rico, que era conde e passava a vida viajando porque não tinha nada para fazer, então ele escrevia um monte de livros de viagem. No livro Meditações Sul-Americanas ele conta sobre sua experiência no Brasil. Conversando com a elite brasileira, ele fez esta observação terrível: “Por todo o lugar que eu viajava eu notava que quando as pessoas imitavam algo, imitavam uma conduta, era porque elas queriam se tornar iguais àquilo; elas tomavam um modelo e queriam se tornar iguais a ele. No Brasil, não, elas se contentam com a imitação enquanto tal; elas não querem ser aquilo, elas só querem parecer.” Quando eu li isso eu tive um arrepio na espinha. Entendi, naquele momento, milhões de coisas que eu via acontecer neste país. As pessoas não acreditam que elas podem ser realmente alguma coisa, elas não acreditam em realidade, elas só acreditam em encenação. Então, esta situação é associada imediatamente com a Teoria do Medalhão do Machado de Assis, na qual ele dizia que a aparência era o que importava, o que era verdadeiramente valioso. A verdade era apenas conveniente. Então o pai ensinava que o filho tinha de dizer aquilo que criava uma boa impressão, não aquilo que ele sabia.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 011, 20/06/2009.


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