A falsidade em olhar a si mesmo sob o aspecto das emoções e do intelecto – Olavo de Carvalho

“Os instrumentos com os quais nós olhamos a nós mesmos são as categorias com as quais a sociedade costuma descrever as pessoas. Então, muitas vezes, quando você quer se explicar, quer se compreender, você vai se olhar através desses espelhos que a sociedade coloca à sua disposição, que a cultura ambiente coloca à sua disposição. Fique sabendo que todos os espelhos, todas as categorias à disposição na discussão pública brasileira, seja jornalística, seja universitária, são todas falsas. Elas não servem para nada, são todas deformantes, e são todas demasiadamente pobres. Aqui, na sociedade americana, você também vê isso. Você vê, por exemplo, que todo mundo vai olhar a si mesmo sob o aspecto de duas categorias: a das emoções e a do intelecto.

O intelecto, dizem eles, é aquela função objetiva, voltada para a ciência e para a descrição dos fatos objetivos. E as emoções são aquilo que expressa o que se passa dentro de você. Quer dizer, as emoções são subjetivas e o intelecto é objetivo. Todo mundo se descreve assim! Isso se torna até um reflexo. Daí resultam inadequações como aquela que o falecido Frithjof Schuon dizia: se um sujeito diz tranquila e friamente que dois mais dois são cinco, e o outro retruca indignado que são quatro, todo mundo vai acreditar no primeiro, porque ele vai falar com a calma e a distância requerida ao intelecto, e o segundo deixou-se tomar pela emoção. Isso é só para dar um exemplo de como essas categorias podem ser totalmente inadequadas.

Veja você, por exemplo: não é possível você querer obter uma visão objetiva real das coisas se você não fez um certo recuo. Mas se esse recuo tomar a forma de uma indiferença, ou de uma afetação de indiferença, ou de uma afetação de superioridade, você já deformou a coisa toda. Quer dizer, quando você refreia suas emoções para você obter uma visão objetiva das coisas, a pergunta é: em nome de quê você as refreou? Por exemplo, hoje em dia é muito comum esse distanciamento ser operado de uma maneira sádica, depreciativa. Quer dizer, você quer diminuir tudo, quer rebaixar tudo, então você finge uma distância infinita, como se as pessoas fossem mosquitinhos lá embaixo e você as tivesse observando através microscópio. Isso na França é muito comum. É uma visão desumanizante. Você transforma as pessoas, os seus objetos, em fantoches.

(…) Ora, o fundo disso é uma busca do conhecimento? Não! Busca uma emoção irracional de medo e ódio. As pessoas que olham as coisas assim não querem ser elas mesmas olhadas assim. Então ela está se colocando por trás de uma máscara de frieza e objetividade para não ser atingida. Isso é pura autodefesa. Onde parece haver uma objetividade fria, existe uma emoção muito baixa e muito primária, emoção infantil, de medo, ódio, e sadismo mental.

Por outro lado, o que são as emoções? Em que consiste você emocionar-se? A emoção é uma repercussão que algum fato, real ou imaginário, tem sobre a totalidade do seu ser psicofísico. A emoção mexe com tudo. Não é possível você dizer onde você tem uma emoção. Mas também não se pode dizer que a emoção é incorpórea. Em termos de mente e corpo não dá para dizer onde está a emoção. Não dá para dizer que ela está só no corpo, só na mente. E se você disser: “Ah! Está nos dois.”, não dá para dizer a quantidade de um e de outro. Então é melhor não descrever as emoções nesses termos. O que você sabe é que a emoção é uma repercussão de um fato real ou imaginário sobre a totalidade do seu ser psicofísico. A emoção é uma mensuração, é uma medida da importância que algo tem para você. Essa medida pode ser adequada ou inadequada. Porém, se você faz abstração dessa emoção, você não sabe o peso real que a coisa tem sobre você; e se você não sabe o peso real que a coisa tem sobre você, você não sabe a posição em que você está em relação ao fato, ou seja, você escamoteou a sua própria presença no quadro. Você vai dizer que isso é racional? Não, isso é totalmente irracional. Porque razão significa, sobretudo, proporção. Então uma representação racional da realidade precisa estar equacionada e proporcionada. É claro que as emoções têm de entrar ali como um componente, só que tem de ser a emoção educada para que ela reflita os dados da realidade, e não uma fantasia imaginária. Todo o problema consiste em emocionar-se diante de coisas que aconteceram, e não das que não aconteceram. Quando a emoção da pessoa é mobilizada, é excitada, sobretudo por aquilo que ela imagina, e não por aquilo que está acontecendo, isso se chama histeria. O histérico é aquele cuja vida emocional reflete o seu imaginário, e não a realidade.

(…) A partir do momento em que se espalhou no mundo o fenômeno da paralaxe cognitiva e da inversão do sujeito e do objeto, a histeria é o traço fundamental das classes falantes. Quer dizer que a totalidade do mundo de valores, de reações etc. é toda determinada pelo imaginário, e não pela realidade. Agora, se você, contra isso, suprimir as emoções e disser: “Não, agora seremos frios, objetivos e científicos”, em primeiro lugar: frieza e objetividade científica é uma autodefesa; a autodefesa é criada pelo medo. Se você não tem medo, você não precisa dessa carapaça, você não precisa dessa máscara. Então o elemento emocional é absolutamente fundamental para você saber qual é o peso, a importância real que as coisas têm sobre você. E é só no momento em que você sabe isso que você pode perceber qual é a sua função dentro do quadro, o que é que você está fazendo. E se você não tem isso, você escapou do senso das proporções, e se você escapou do senso das proporções, não há mais nada de racional na coisa.

(…)  Não existe essa coisa de intelecto de um lado e emoção do outro. Também não quer dizer que os dois não entrem em jogo. Eu estou querendo dizer que o ser humano não pode ser descritível neste par de opostos. A estrutura real do ser humano é muito mais complicada do que isto.

Por exemplo, não é possível estudar a questão da emoção se você a separar da imaginação, porque esta sempre entra na composição daquela, ou para substituir os dados da realidade, criando a sintomatologia histérica, ou para esclarecer os elementos dessa realidade que não estão ainda plenamente manifestos. Por outro lado, a imaginação não poderia funcionar, ela não poderia completar o quadro da realidade, se ela estivesse totalmente livre para imaginar as coisas do jeito que ela quer, ou seja, é preciso haver um estímulo que não é imaginário para que a imaginação possa funcionar. Isso quer dizer que além da imaginação e das emoções, há uma terceira função, que é o que desperta uma coisa e a outra. Isso que desperta tem de ser um dado da realidade. Dirá você que são os dados dos sentidos? Os sentidos, por si mesmos, não podem despertar isso. O fato de que um mesmo dado dos sentidos possa provocar reações imaginárias diferentes nessa pessoa e naquela pessoa e, portanto, reações emocionais diferentes, mostra que os dados dos sentidos por si mesmos são impotentes. É necessário que o ser humano tenha uma espécie de percepção antecipatória que não tem nada a ver com a imaginação, que é como se fosse uma reação imediata, anterior ao trabalho do imaginário, e mais anterior ainda ao trabalho das emoções. É o que os escolásticos chamavam a estimativa.

São Tomás de Aquino dava o seguinte exemplo: uma ovelha que jamais viu um lobo. A primeira vez que ela vê um, ela sabe que aquilo não presta. Ela fica com medo do lobo? Não! Ela tem de saber disto para ficar com medo do lobo! A estimativa faz uma ponte entre os dados dos sentidos, a imaginação e as emoções. Essa função da estimativa é hoje totalmente desconhecida, as pessoas não falam mais dela, e daí simplificam dizendo “intelecto” e “emoções”. Eu digo: “Escute aqui: intelecto e emoções compõem um monstro, não um ser humano”. Um bicho composto de intelecto e emoções é como se fosse um computador e um coração. Não dá para você fazer um ser humano com isso, o ser humano é algo muito mais sistêmico, muito mais complexo, e muito mais inteiro que isso aí. (…) Embora a ciência psicológica tenha descoberto muitas coisas nos últimos duzentos anos, do ponto de vista conceitual, ela se empobreceu muito em relação à psicologia escolástica, muito mesmo. Embora hoje eles tenham mais conhecimento dos fatos, a estrutura conceitual dos escolásticos era muito mais fina, onde eles distinguiam as funções, a articulação. Nós vamos usar muito isto.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 011, 20/06/2009.


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