Conselhos aos pais – Olavo de Carvalho

“A vida intelectual, compreendida tal como estamos compreendendo aqui, ou seja, como a condensação e um upgrade da educação social e do adestramento que você recebeu, ela significa a conquista da maturidade. Aristóteles já dizia que o homem ideal para o estudo da filosofia é o homem maduro. O que é ser um homem maduro? Por exemplo, se você tem filhos, e muitos aqui têm, você tem de saber o seguinte: você, dos seus filhos, não vai obter nada. Acidentalmente você pode obter. Se você tiver muita sorte eles podem te dar algumas satisfações. Mas, em geral, não vai haver tempo de eles retribuírem nada. Isso significa que não adianta você cortejar os seus filhos.

Hoje em dia a coisa mais comum é as pessoas dizerem: “Mas o que os meus filhos vão pensar de mim?” Eu nunca perguntei o que eles pensavam de mim e se eles vierem me dizer eu digo: “Não me encham o saco, que eu tenho mais o que fazer. Eu não quero saber a sua opinião a meu respeito! Eu sou seu pai, eu estou aqui para trabalhar por você, te sustentar, te educar, te botar no mundo e não para ser do jeito que você quer que eu seja!” Às vezes eu digo para eles assim: Você é responsável pelo pai que você tem, porque o único pai que deu pra você arrumar foi este, então se vire. Eu estou aqui cumprindo o meu dever, fazendo da melhor maneira possível — cá entre nós eu sei educar criança e até adolescente, mas eu sei fazer — não estou aqui para moldá-los à minha imagem e semelhança, de maneira alguma, estou aqui para ajudá-los na vida, e simplesmente não há tempo para eu perguntar o que eles estão achando disso.

Se você está pronto para isso, se está pronto para amar e fazer o bem para as pessoas, sem querer saber o que elas pensam de você, então você alcançou a maturidade. Ou seja, não pode dizer a mesma coisa da sua mulher, do seu marido, isso aí não. Porque é um seu igual e vai ter alguma opinião sobre você e a opinião pode estar até errada, mas você não pode se recusar a ouvir. Agora, de criança e de adolescente? O que é isto, meu filho? A gente às vezes vê esses filmes americanos e estão lá o pai, a mãe, e eles juntam as crianças de cinco, seis anos e falam: “Olha, eu decidi aqui mudar de casa, o que é que vocês acham?” Daí eles fazem uma assembleia familiar e as crianças votam. Isto aqui é uma coisa de uma covardia e de uma maldade que vocês não imaginam. Por quê? Vamos supor que o sujeito mude de casa e dê tudo errado. Vinte anos depois ele vai poder dizer pros filhos: “Ah, mas vocês aprovaram!” E eles vão dizer: “Não, eu era apenas uma criança, não sabia o que estava fazendo. A ideia foi sua, a responsabilidade é sua.” Você está tentando se aliviar da responsabilidade, mas você não vai conseguir. É natural da criança atribuir a responsabilidade ao adulto, mesmo que ela tenha aprovado. Se você transforma a criança num eleitor adulto com direito a voz e voto, isto só se passou na sua cabeça, não na dela. Então você está vivendo dentro de uma mentira, e você botou as crianças dentro da mentira e as está usando como instrumento para sustentar a sua mentira. E você vai querer que elas fiquem satisfeitas por causa disso?

Então duas sugestões que eu dou para os pais: primeiro, não atormente seus filhos. Não fique o dia inteiro dizendo o que eles devem fazer. Interfira raramente, deixe o espaço para que eles tomem as suas decisões quanto às suas vidinhas; vidinhas deles, não a sua! Não diga para eles o que eles devem comer, o que devem vestir, que horas eles devem fazer isto etc. Interfira o mínimo. Quando interferir e disser: “Faça assim ou não faça aquilo” e ele perguntar o porquê, responda: “Porque eu mandei”. É simples. As crianças aceitam isso com uma naturalidade impressionante, mas se você fizer isso duas ou três vezes por mês. Se você fizer mais você começou a enervá-las. Note bem: a Bíblia proíbe enervar crianças. Eu sei que uma das maiores ocupações de pais e mães, sobretudo mães, é enervar crianças, ficar o dia inteiro dando palpite, julgando-as dia inteiro e querendo decidir tudo por elas. Isto aí é um inferno, não faça isto. Se você quer ter autoridade sobre seus filhos você tem de refrear a sua autoridade para que ela não se transforme num abuso. É justamente porque você tem autoridade total sobre a criança que você tem o dever de refreá-la e não transformar essa autoridade num motivo de enervamento. E, mutatis mutandis, jamais pergunte o que eles acham. Não queira a aprovação deles, o amor do pai para filho é um amor one way. Não é mútuo que nem o de marido e mulher. Marido e mulher eu dou e recebo. Mulher dá e recebe. Se ajudar, ela te ajuda. Você dá uns palpites para ela, ela dá uns palpites para você. Com criança não, pelo amor de Deus, você não casou com os seus filhos!”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 11, 20/06/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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