Mário Ferreira é um filósofo para gente que tem muita cultura filosófica – Olavo de Carvalho

“A obra do Mário é uma sequência formidável de intuições que esse sujeito teve, sobretudo isso! Eu asseguro para vocês: ele leu toda a filosofia escolástica existente. Tudo! Até os autores escolásticos mínimos, ele sabia tudo isso de trás para adiante. Para ele, São Tomás de Aquino era um negócio transparente. Ele é um filósofo que está sempre raciocinando desde a herança cultural inteira, a herança da história da filosofia inteira, ele nunca raciocina desde a simples experiência direta. É por isso que eu recomendo que o Mário não seja um dos primeiros autores que você vai estudar. Primeiro, pelo fato dos textos dele estarem nessa mixórdia; segundo, por ser um escritor eminentemente metalinguístico, que está sempre raciocinando sobre o legado inteiro da história da filosofia.

A quantidade de referências intelectuais do Mário é um negócio de você cair de costas. Por exemplo, quando ele está escrevendo sobre lógica, ele está levando em conta a lógica de Aristóteles, o desenvolvimento todo que houve na Idade Média, as contribuições da modernidade — o cálculo infinitesimal, Leibniz etc —, e o que veio depois com a lógica matemática. E isso tudo está em uma só frase. Ele é um filósofo para gente que tem muita cultura filosófica, então adquira essa cultura. Não é porque eu acho um cara espetacular que é pra você sair lendo.

O que periga de acontecer é o seguinte: quando ele dá esses resumos esquemáticos de tudo, ele está dando uma fórmula. Na alquimia você tem três elementos: mercúrio, enxofre e sal. O mercúrio é o mundo da mutação, mobilidade, é a confusão e o caos. O enxofre é o elemento fixante que vai dar àquilo uma forma. E o sal é o cristal, a forma final. Se antes de você ter mercúrio suficiente você mete lá o enxofre, você fez fracassar a operação alquímica, o negócio cristalizou cedo demais e imperfeito. O Mário é um elemento organizador, ele é um enxofre, e ele pega o caos inteiro de vinte séculos da filosofia e dá uma forma. Se você começa a ler o Mário Ferreira antes de ter uma quantidade suficiente de mercúrio acumulada, você cristaliza imperfeitamente; se você cristaliza, você começa a ter ideias erradas. Eu não estou proibindo você de ler o Mário Ferreira, apenas não estou recomendando que seja uma leitura inicial. Ele mesmo diz da sua própria filosofia: o que ele chama a mathesis megiste é o conjunto crítico e articulado de todas as grandes importantes teses descobertas pela filosofia ao longo de dois mil e quatrocentos anos. É uma metalinguagem da filosofia universal. Se você não tem nenhuma filosofia universal na cabeça, o que é que você vai fazer com a metalinguagem dela?

Eu mesmo, a primeira vez que li o Mário Ferreira, vi que não estava habilitado para ler aquilo. Eu falei: “ele está se referindo a isto, e mais àquilo, mas eu não li isso, então vou lá atrás e vou ver do que ele está falando.” Só fazendo isso eu percebi a grandeza imensa daquele homem. Ele é um príncipe entre os filósofos! É um homem que senta sobre a montanha inteira da filosofia e vê aquilo como um conjunto! Ele é maior que o Brasil! Quando não existir mais Brasil e ninguém mais se lembrar desta palavra, a obra do Mário Ferreira será lembrada e lida com reverência. Ele é um novo Platão! É um homem da estatura do Platão! Eu não estou brincando, não estou exagerando. Só que para entender isso você precisa conhecer a história da filosofia inteira, e assim você entende como aquilo que ele está vendo é real.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 011, 20/06/2009.


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