O determinismo behaviorista – Olavo de Carvalho

“Existe uma diferença entre o determinismo como doutrina metafísica e como uma teoria de psicologia experimental. O determinismo a que se refere o behaviorismo não tem o mesmo alcance total e abrangente que tinha, por exemplo, para Lutero ou Calvino. Calvino dizia que quando você nasce já é tarde pra tentar salvar ou domar você. Você nasceu, já está tudo feito, então ele está se referindo ao destino último do homem que já está predeterminado no nascimento. Na verdade, antes de você ser gerado, seu destino já está todo demarcado.

Claro que não é disso que os behavioristas estão falando. Eles estão falando de um determinismo muito mais limitado, que é definido pelo ambiente em torno. Se a sua conduta, a sua vida psicológica reflete o ambiente em torno, ela já não está predeterminada, porque ambientes diferentes produzirão condutas diferentes, então, se por acaso você mudar de ambiente, você vai ter de ter outra reação. Quer dizer, se você pega o índio de uma tribo e o coloca numa outra tribo, pronto, já bagunçou toda a programação dele.

A palavra que está sendo usada é a mesma. É determinismo em um e determinismo no outro, mas não se trata da mesma coisa, não se trata do mesmo conceito de maneira alguma. (…) O determinismo do Skinner e de todos os behavioristas é uma coisa muito mais limitada. Ele está se referindo apenas à dificuldade que elas têm para agir ou pensar ou conceber qualquer coisa para além ou para fora daquilo que o seu ambiente determinou, então, essa dificuldade, ela existe mesmo. O que nós podemos contestar é apenas se o ambiente tem esta onipotência completa que diz o behaviorista. A mim, me parece que a teoria behaviorista é autocontraditória, porque se eles têm a pretensão de modificar as pessoas modificando o ambiente, então já não se pode falar de determinismo. Ele está apenas falando de uma relação de causa e efeito, que existe, quer dizer, se você moldar o ambiente assim, você moldará as pessoas desta ou daquela maneira. Agora, você não vai dizer que o ambiente do B. F. Skinner o moldou para que ele moldasse o ambiente dos outros, não é possível isto. Se o próprio Skinner tem a capacidade de moldar o ambiente alheio, é porque o ambiente não é tão onipotente quanto ele diz.

Na verdade, o Skinner não discute a coisa em termos metafísicos, quer dizer, ele não chega a colocar se existe um determinismo em sentido metafísico ou não. Ele está apenas partindo de um fato de experiência que é: em geral o pensamento das pessoas reflete apenas a influência do meio, mas nós não poderíamos dizer a mesma coisa do pensamento do B. F. Skinner. Será que toda ciência behaviorista foi ela toda determinada pelo ambiente? Não é possível. A existência da ciência behaviorista já reflete um desejo de aprender a relação de causa e efeito para poder manipulá-la de algum modo. Se o behaviorismo tem algum sentido técnico, então a teoria dele está errada.

Isto é um caso extremo de paralaxe cognitiva. Se for possível aplicar o behaviorismo na prática é porque, como teoria, ele está errado. Se você é totalmente mudado pelo ambiente, em todos os momentos da sua vida, então não faz sentido você querer moldar o ambiente, não é? Aí você tem um exemplo de circularidade e uma circularidade absolutamente insustentável.

(…) Se você esta predeterminado, estão determinados seus conhecimentos também e, portanto, o conteúdo todo da ciência behaviorista tem de estar predeterminado pelo ambiente também. E a pretensão behaviorista de moldar o ambiente e a sua técnica de moldar o ambiente tem de estar predeterminada também. O que é totalmente impossível, mesmo porque você pode mudar o ambiente num sentido ou no outro. Por exemplo, eu vou treinar, eu vou criar ambientes para fazer pessoas, digamos, corajosas ou covardes? Eu quero que elas tenham autoconfiança, iniciativa etc.? Ou quero que fiquem tímidas, inibidas e incapazes? O que eu quero? Quando Skinner decide montar um ambiente para isso ou montar um ambiente pra aquilo, isto já está predeterminado? Ou ele tem de fazer uma escolha? Evidentemente ele tem de fazer uma escolha. Se ele não pudesse fazer uma escolha, ele não poderia fazer um experimento científico. O experimento científico pressupõe hipóteses diferentes e contrastantes. Ele tem de testar uma coisa e testar outra.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 12, 27/06/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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