A influência do “ambiente” – Olavo de Carvalho

“A influência do “ambiente”, não é um conceito científico, é uma simples figura de linguagem. Ela não está se referindo a nenhum fenômeno preciso. Com ambiente o sujeito está querendo dizer “tudo aquilo que não é eu”. Então é o Ortega y Gasset “Yo soy yo y mi circunstancia”. Até onde vai minha circunstância?

Por exemplo, qual é o âmbito temporal no qual você vive? Quando você é pequenininho, qual é o âmbito temporal e espacial no qual você vive? O seu ambiente espacial é o seu quarto e a sua casa, no máximo. Você não sabe nada para além daquilo ali. Você pode se perder até dentro de casa. Você sabe que existe alguma coisa para além da sua casa, mas a chave que abre a porta de acesso desse ambiente maior é o seu pai e a sua mãe. Você não vai agir baseado na confiança que você tem no seu próprio conhecimento do ambiente externo, porque você sabe que não o conhece, mas você supõe que papai e mamãe o conheçam. Então eles são o mapa do ambiente externo. Quando você vai atravessar a rua, e sua mãe te dá a mão, ela esta fazendo uma mediação entre você e o espaço em torno. Você não está tendo uma relação direta com o espaço em torno. Essa relação é determinada pelo conhecimento que sua mãe, seu pai ou um adulto qualquer tenha desse espaço. Ela está te guiando nesse espaço. A criança pode ir até a esquina e na esquina já se perdeu, não é isto? Então significa que ela não tem o domínio próprio do espaço externo, a relação dela com o espaço tem de ser mediada por outro tipo de relação completamente diferente, que não é a relação espacial, é uma relação social e afetiva. Sem essa relação social afetiva ela está perdida no espaço.

Já não se pode dizer a mesma coisa de um adulto. Para um adulto caminhar na rua, se orientar na cidade, depende de uma relação social e afetiva? Absolutamente não. Essa mediação afetiva existe para a criança, mas não existe para um adulto. Você percebe que, na passagem da infância para a idade madura, houve não só uma ampliação do espaço percorrido, do espaço à sua disposição, mas também um aumento da sua autonomia na relação com esse espaço.

A mesma coisa acontece com relação a outros domínios. Por exemplo: a linguagem. A criança já desde pequenininha está ouvindo os outros falarem, a maior parte do que os outros estão falando ela não entende. Ela entende só um pedacinho. A relação dela com este mundo de signos também é mediada por uma relação afetiva. Por exemplo, a mãe e o pai podem estar interessados em ajudar a criança a aprender a falar, então, nesse caso, ensinarão palavras novas a ela, ajudarão a criança a se comunicar quando não consegue e assim por diante.

(…) Eu me lembro de quando era pequenininho — aliás, eu não lembro, é a minha tia que contava isto, eu não me lembro da cena —, ela disse que uma vez chegou em casa e ouviu uma risada que vinha do quarto: estávamos eu, o meu pai e o meu irmão ali no quarto. Nós ríamos que nem uns loucos, daí a minha tia perguntou à minha mãe: “O que é que o Luiz está fazendo com as crianças?”, e minha mãe respondeu: “Ele está ensinando a eles todos os palavrões”. Nós achamos aquilo maravilhoso. Foi algo que ampliou formidavelmente o nosso vocabulário e facilitou a nossa relação com os demais meninos. Menino fala palavrão pra caramba, e se você fica no meio daquela conversa sem entender o que eles estão falando, você fica meio atemorizado. Então, saber todos os palavrões era nos dar um instrumento para nós podermos nos orientar no ambiente infantil.

(…) Quer dizer que a sua participação no ambiente vai sendo ampliada por meio de uma série de outras relações que você tem. Uma relação abre, te dá a chave para outra relação. Pode ser uma relação humana que te dá acesso a uma relação com o ambiente físico. A relação com o ambiente físico te dá acesso a outra relação humana, e assim por diante. Mas a cada etapa da sua vida, a cada dia da sua vida, você pode conceber que você tem um universo de referências, coisas que você sabe e com as quais conta para se orientar na sua vida diária. Por exemplo, você pode se perguntar: “Qual é o domínio que eu tenho do espaço em torno?”, “Até onde eu sei ir na minha cidade, sem me perder e sem ter de perguntar?” Ninguém conhece uma cidade inteira, nem motorista de táxi. Até motorista de táxi, que percorre a cidade o tempo todo, às vezes tem de parar e perguntar. Ou seja, a relação dele com o espaço em torno volta a ser mediada por uma relação humana. E essa relação humana é determinada pelo quê? Por um código de normas de polidez que geralmente as pessoas obedecem. Então, se o motorista perguntar “Meu amigo, onde fica a rua tal?”, e o sujeito responder “Vai lamber sabão”, como é que você faz? E se ninguém quiser te responder? Então, note bem, a sua mobilidade no espaço urbano depende de um código que não tem nada a ver com o espaço urbano. As normas de polidez não são espaciais. Elas são um código, uma hierarquia de valores atribuídos à conduta humana. Mais ainda, se fosse só um código, seria uma imposição externa, mas não é um código, esse código está internalizado, as pessoas já reagem assim porque elas gostam de reagir assim.

(…) É como se fossem dois códigos: de um lado, você tem o mapa da cidade; de outro lado, você tem um código de conduta, com o qual você conta. Ou seja, você se orienta melhor num desses códigos do que no outro. Se você conhecesse o mapa da cidade melhor do que conhece as expectativas de reação humana, você não precisaria perguntar nada para ninguém.

A cada momento nós temos um conjunto de sistemas de referências — referências espaciais, temporais, linguísticas, afetivas etc. etc. Em que medida esse conjunto pode ser determinado pelo ambiente? Em medida nenhuma. Porque o ambiente pode te dar essas referências, mas ele não vai determinar se você vai apreendê-las ou não. Você dá a mesma referência para um grupo de dez pessoas, cujo QI vai de 75 a 140, e elas não vão aprender a mesma coisa. Quer dizer, o seu conjunto de referências não é determinado pelo ambiente de maneira alguma; ele é fornecido pelo ambiente, mas você seleciona de acordo com a sua capacidade — capacidade que o ambiente pode ter contribuído para aumentar ou diminuir um pouco. A pessoa não muda muito de QI.

Este conjunto de referências determina as suas possibilidades de ação e aprendizado, e, ao mesmo tempo, é ele que limita essas possibilidades. Então, toda a educação consiste em dar ao indivíduo possibilidades de ampliar esse quadro de referências. Não só de ampliá-lo, mas de adquirir um domínio maior, ou seja, uma consciência maior da unidade e coerência interna desses vários sistemas, a ponto de tornar o indivíduo, se possível, capaz de expressar tudo isso em palavras — não quantitativamente, não todos os elementos, mas capaz de dizer a si mesmo quais são os códigos nos quais ele tem baseado as suas ações, a sua conduta, as suas reações etc. etc.

(…) O ambiente só pode determinar a nossa conduta através desses códigos. É o conjunto mais ou menos organizado desses códigos que determina a nossa conduta, e não o ambiente diretamente. A influência do ambiente é mediada pela sua capacidade de aprendizado. O ambiente não pode também determinar a sua capacidade de aprendizado. Se o ambiente determinasse a capacidade de aprendizado, todos que estão no mesmo ambiente aprenderiam exatamente as mesmas coisas. Quem quer que tenha dado aula um dia, entende que as coisas não são assim.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 012, 27/06/2009.


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