O que o ambiente não lhe passou, você certamente não aprendeu – Olavo de Carvalho

“O que o ambiente não lhe passou, você certamente não aprendeu, embora essas informações faltantes possam estar depositadas em algum lugar do ambiente; elas apenas não vieram até você. Você é que, se as quiser, vai ter de ir até elas. E no caso de você querer ir até elas, o ambiente pode facilitar o seu acesso a elas ou não.

Quando eu mudei para os Estados Unidos, umas das primeiras coisas que eu notei é que aqui é muito difícil você se perder nas estradas, porque tem tanta placa, que você acaba achando; mesmo que você se perca, acaba achando. Você pode dizer a mesma coisa do Brasil? Da cidade de São Paulo? Aquilo é um território caótico, e as placas não te dão indicação suficiente, então é facílimo você se perder em São Paulo. Isso quer dizer que o acesso à informação está facilitado num lugar, mas não está facilitado no outro. Quer dizer que a amplitude de território que as pessoas têm aqui é muito maior do que em São Paulo. Uma segunda diferença: aí tem transporte coletivo, aqui todo mundo anda de carro. Quando chega aos quatorze, quinze anos, todo mundo já está andando de carro. Se não souber andar de carro, você está ferrado. Significa que aqui é normal as pessoas terem um domínio territorial imenso, mesmo porque tudo fica longe (o sujeito mora aqui e estuda a duas horas). Então qualquer moleque de quinze, dezesseis anos, possui um horizonte territorial imenso. No entanto, o fato de o ambiente colocar essas informações à disposição não quer dizer que você vai aprender, porque o ambiente não vai determinar a sua capacidade de aprendizagem.

Qual é a possibilidade que você tem de buscar informações que estão para além do seu ambiente imediato? Por exemplo, a história da sua família. De onde você veio? Quais os dramas que antecederam a sua vinda a este mundo? Qual é a história dos seus antepassados? A esses dados você não pode ter acesso visual, não vai poder conhecer por experiência direta; você vai ter de pedir que lhe contem e completar imaginativamente aquela coisa. A maior parte das pessoas que eu conheci no Brasil tem uma ideia muito vaga disto aí. Ou seja, conhecem a história do seu pai e de sua mãe, e o que ficou para trás não interessa. Ah, você não sabe qual é a carga hereditária que pesa sobre você? Então, essa carga é um fator cego que opera sobre você, determina a sua conduta e sobre a qual você não tem controle nenhum.

O psiquiatra Lipot Szondi lida com esta coisa que eu mesmo chamei de “carma familiar” — não é uma expressão dele, fui eu que inventei. Mas o próprio Szondi, quando mostraram a ele uma tradução para o francês de um artigo que escrevi sobre isso chamado “O Carma Familiar”, disse que a expressão estava certíssima. Então, a expressão carma familiar não está inadequada. Quando eu li o Szondi e vi o peso imenso que os perfis psicológicos de nossos antepassados mantém sobre nós — no sentido em que o Szondi diz que os antepassados mortos permanecem em nós, exigindo voltar à vida, ou seja, exigindo que você repita o destino deles, que você seja igual a eles, ao mesmo tempo em que estão em conflito porque são vários —, na medida em que eu estudava isto, eu ia me dando conta do quanto isto é verdade.

Eu cheguei a ficar assustado de ver como as pessoas ignoram isto. Ou seja, há coisas que podem acontecer a essas pessoas e que estão de algum modo predeterminadas, porque aquela pressão da conduta repetitiva dos antepassados está ali determinando as ações dele e vai levá-lo, de maneira mais ou menos inevitável, a um certo destino, a certas situações de destino, e ele não terá a menor ideia do que foi que o colocou ali. Então como é que ele vai se orientar? É claro que somente o conhecimento pode ampliar a sua margem de manobra, porque se você souber a vida de alguns dos seus antepassados, você conseguir meditar e conseguir reconhecer a conduta repetitiva quando ela aparecer. Isto pode levar anos, porque muitas dessas condutas são tão automatizadas em você, que você já se acostumou a considerá-las inteiramente suas.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 12, 27/06/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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