Os vários círculos de que se compõe o ambiente – Olavo de Carvalho

“Quando falamos em ambiente, então vamos ver os vários círculos de que se compõe o ambiente. Existe o ambiente físico imediato; você nasce e está nele. E há o ambiente social e afetivo-familiar, que faz a sua mediação com o ambiente físico imediato. Ou seja, o ambiente familiar não é determinado pelo ambiente físico. Uma mesma família pode morar em vários lugares diferentes, em diferentes etapas da sua existência. Portanto, você entende que não há relação intrínseca entre o ambiente familiar e o ambiente físico. Pode haver uma associação maior ou menor, mas isso depende do fator empírico; não há uma regra, não há uma lei. Não há um princípio científico, que possa unir uma coisa com a outra, e que permita afirmar: “Em tal ambiente físico só haverá esse tipo de família”. Não, isto não é possível. Por exemplo, você tem aqui a favela do Rio, mas de repente vive lá uma família de chineses, que veio da China com a cabeça completamente diferente das pessoas que vivem na favela. Aí já temos dois ambientes: o ambiente físico imediato e o ambiente familiar. Muito bem, mas a família fala em alguma língua, e a língua não foi inventada por ela. Então, a língua expressa já um ambiente sócio-cultural em torno. Existe uma relação intrínseca entre o ambiente familiar e o ambiente sócio-cultural em torno? Não. Porque no mesmo ambiente sócio-cultural existem muitas famílias diferentes. Mais ainda: existem diferentes heranças sócio-culturais que cada família pode trazer consigo, como no exemplo do chinês que vai morar na favela. Então, nós vemos que a coisa de certo modo foi se complicando.

Agora note uma coisa: quando o seu ambiente familiar serve de mediador entre você e o ambiente espacial, a família aumenta a sua mobilidade no meio espacial, ela te ensina novos caminhos, e você vai, através da influência familiar, libertando-se da própria influência familiar e vai adquirindo um domínio maior do ambiente físico. Então esses dois ambientes não operam no mesmo sentido, eles operam em sentidos opostos. O ambiente físico te prende num certo lugar; você está onde você está, e você não tem ubiquidade. Bom, para você aprender a se deslocar ali — mudar de lugar, primeiramente — você precisa da mediação do ambiente familiar.

Ora, para você absorver a ajuda do ambiente familiar, você precisa da língua, ou seja, você precisa absorver algo que vem de um ambiente maior. Na medida em que você absorve a língua, absorve a linguagem e é capaz de se comunicar, você é capaz de manipular a influência familiar, de diferentes maneiras. Vocês nunca viram um moleque discutindo com a mãe? Fala pra danar, não é? Eu acho isso aí um dos tormentos da existência, ver os filhos discutindo com a mãe. Eu sempre chego e mando todo mundo calar a boca: Calado! E acaba a discussão. Mas você vê que a mãe quer que o sujeito faça uma coisa, e ele quer fazer outra completamente diferente. E ficam falando o dia inteiro.

Isso quer dizer que a absorção de um ambiente um pouco maior que o ambiente sócio-cultural faz com que o peso do ambiente familiar diminua e aumente o número de alternativas. Porém — fala-se em ambiente sócio-cultural —, de que tamanho é este ambiente? Até onde vai este ambiente? Por exemplo, o aprendizado da linguagem: se você aprendeu a falar apenas com as pessoas do seu bairro, então esse ambiente agora é o limite do seu horizonte. Mas você é obrigado a parar ali? Não. Você pode ampliar o seu domínio da linguagem e aprender a falar de outras maneiras que não são usuais naquele lugar, e quando você aprende isso, você descobre outras alternativas que naquele lugar não existem.

Então, você falar que é tudo determinado pela influência do ambiente, eu digo, “mas que influência, meu filho?”. O ambiente é composto de várias influências superpostas, muitas delas auto-contraditórias. Se você disser, “mas tem a somatória”, eu digo: “mas a somatória pode dar zero”.

(…) Note bem, cada um destes círculos do ambiente exerce sobre você, por um lado, um poder, e por outro, uma autoridade. O que é o poder? É uma imposição direta e, por assim dizer, muda. O primeiro poder é esse do ambiente espacial: você está onde você está e não em outro lugar, portanto, onde você está só existe aquilo que existe onde você está. Isso é um poder. Uma autoridade é uma coisa que não tem de ser obedecida tão diretamente, não se impõe tão diretamente, ela representa para você um valor, algo que você respeita, ama, admira, que você quer de algum modo.

O ambiente mais imediato sempre representa um poder, e o ambiente mais longínquo, uma autoridade. Mediante o apelo à autoridade, você se livra do poder mais imediato. Autoridade que implica também prestígio. Por exemplo, o garoto que sai da cidade pequena, pobre e miserável, para ir à capital estudar e ganhar mais dinheiro. Essa ideia da capital tem um prestígio, e tem para ele uma autoridade.

Ora, o conjunto dos símbolos de autoridade que você tem é a referência máxima que determina a sua conduta. Você não age para além do que as autoridades que existem na sua mente permitem.

Para começar, o ambiente físico é um poder, mas a família, uma autoridade: você, confiando na sua mãe e no seu pai, adquire um domínio maior sobre o território. Portanto você se libertou do poder do território confiando-se à autoridade do seu pai e da sua mãe. Mas eles, por sua vez, também são um fator limitante, e daí tem a escola, onde você aprende outras coisas, a televisão. Quando você começa a ver televisão, já adquire outra autoridade que pode ensinar o contrário do que seu pai e sua mãe estão lhe ensinando. Então eles passam a ser o poder, e a televisão passa a ser a autoridade, ou a escola passa a ser autoridade, ou o ambiente social em torno, e assim por diante.

Esta dialética entre poder e autoridade permanece dentro de nós a vida inteira. Cada autoridade, com o tempo, se transforma num poder, e você precisa de uma autoridade mais alta, para lhe libertar daquela antiga autoridade transformada apenas em poder.

O poder é como se fosse uma autoridade esvaziada do seu valor e transformada em mero fato.

Claro que eu estou usando a palavra poder e autoridade num sentido específico para esta aula, não é um conceito geral de poder e autoridade. Estou usando apenas como figura de linguagem, não um conceito exato, mas, para a explicação que eu estou dando, esses conceitos bastam.

O poder é uma limitação de fato que pesa sobre você, a autoridade, uma limitação aceita e auto-imposta para se livrar de outra limitação que lhe parece pior no momento.

(…) Ora, a educação não consiste em outra coisa senão você buscar uma autoridade cada vez mais alta, que vá lhe livrando de todos os poderes que estão pesando sobre você no momento. O que limita as suas possibilidades de educação? Às vezes a sua própria falta de imaginação de poder conceber que, para cima da autoridade que você confia no momento, existe outra maior. Quando nós avaliamos no conjunto qual a possibilidade que as pessoas têm de superar o seu ambiente social e cultural imediato depende de elas terem uma autoridade mais alta. Isso só se conquista através da educação. Porém, quanto de educação você quer, e qual educação você quer? Se você entende por educação aquilo que já está oferecido no próprio ambiente imediato, ele só vai lhe dar a educação necessária para você se virar dentro desse ambiente imediato. Isso quer dizer que o processo de auto-educação depende de você usar um pouco de imaginação e conceber uma dimensão mais alta e mais alta, até você chegar num limite do qual não dá para passar.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 012, 27/06/2009.


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