O limite da inteligência humana é a galeria dos sábios – Olavo de Carvalho

“Atualmente, eu fico espantado, às vezes chego a ficar aterrorizado, quando eu leio as opiniões de intelectuais, professores, escritores etc., e vejo a quase impossibilidade que essas pessoas têm de subir acima da opinião dos seus pares, do seu grupo profissional, do seu grupo de referência. Eles estudaram tanto, são PhDs, e acreditam que existe um negócio chamado comunidade científica, e têm terror de dizer alguma coisa que essa comunidade científica não aceite, porque têm terror de serem expostos ao ridículo, de serem boicotados nos seus empregos etc. Então, todo estudo serviu a quê? A torná-los escravos.

Se você fala em comunidade científica, você está se referindo à comunidade científica existente hoje, não à comunidade dos sábios tomada ao longo de toda a sua história. Eu vou dar o meu exemplo pessoal de como funciona isso: eu também tenho minha comunidade científica, que são aquelas pessoas cuja opinião eu respeito, e que eu tremeria nos alicerces se elas desaprovassem totalmente o que eu estou fazendo. A minha comunidade científica é constituída assim: Platão, Aristóteles, São Tomás de Aquino, Leibniz, Schelling. Eu, quando estou pensando algum negócio, eu sempre me pergunto: “mas o que eles diriam?”. Eu comecei a fazer isso porque eu li certa vez em São Tomás de Aquino uma recomendação: “Tem sempre diante de ti o olhar dos sábios”. Então eu falei: “agora eu sei a comunidade científica que a gente tem de obedecer. Você pega os maiores dos maiores e pergunta somente para eles”. Não vai perguntar para um professor da USP, não vai perguntar para Harvard. Por quê? Porque todas essas comunidades científicas de hoje são apenas de hoje, são apenas um momento da história da opinião, e essa opinião já variou mil vezes ao longo dos tempos. Então por que eu devo tomar como dogma uma coisa que os caras estão apenas dizendo hoje e a respeito do que amanhã eles podem mudar de ideia? Se eu quero me tornar realmente um homem de cultura, um letrado, um intelectual, eu tenho de tomar como meu horizonte máximo o horizonte máximo da humanidade, ou seja, os maiores sábios de todos os tempos. E é a esses que eu tenho de perguntar.

Se você fizer isso, você vai notar, em primeiro lugar, que, tomados como conjunto, estes grandes sábios têm um número muito menor de convicções do que qualquer comunidade social ou acadêmica de hoje em dia. As comunidades acadêmicas estão cheias de crenças, e você, se discordou de um pedacinho, já começam a achar que você está louco, ou que você recebeu um dinheiro para dizer aquilo. Agora, se você leva a mesma questão para Leibniz, Platão, Aristóteles, muito provavelmente o que eles vão lhe dizer é que não sabem. “Tenta, experimenta, vê se dá certo”. Os pontos em que eles estão de acordo, aquilo que o Mário Ferreira dos Santos chamava mathesis megiste, o conjunto das teses positivas subscritas por toda a filosofia universal, são de natureza muito genérica, não tinham soluções para os problemas concretos. Então, nos problemas concretos, os sábios provavelmente confessariam seus limites, que são os limites reais da inteligência humana. Os limites que Aristóteles, Leibniz, São Tomás de Aquino, Schelling, Emund Husserl, Eric Voegelin não transpuseram provavelmente são limites permanentes da inteligência humana; eles não sabiam isso, eu não sei, e amanhã vamos continuar não sabendo. E, se é assim, a gente tem o direito de especular.

Como é que você faz para se colocar sob a autoridade deles e se livrar da autoridade do meio intelectual atual, mesmo tomado nas suas expressões mais cultas? Precisa de muita coragem para isso, porque você só terá acesso a esta comunidade dos sábios através de um único instrumento, que se chama leitura. Eles não podem estar fisicamente presentes; eles não podem exercer contra ou a favor de você pressão social de tipo nenhum; eles não podem lhe dar um emprego ou tomar seu emprego, não podem aumentar seu salário nem diminui-lo, eles não podem te olhar feio, não podem fazer uma piadinha a seu respeito, nem podem te dar uma propina. Não podem fazer nada. Eles só podem dizer sim ou não.

É justamente essa galeria de sábios que São Tomás de Aquino sugeria que colocássemos diante de nós como nossos juízes permanentes. Se você não é capaz de fazer isso, então você não tem educação nenhuma, você tem apenas o adestramento para o meio social em que você está. Quando você se submete a essa autoridade, de fato você é capaz de se sobrepor a qualquer meio social e cultural, não porque você escapou, não é a liberdade metafísica. Você apenas entrou num ambiente cultural universal. É o máximo ambiente mental que nós podemos conceber.

(…) Nós temos que chegar a essa dimensão da verdadeira educação, que é você tomar o universo dos sábios como seu juiz, seu tribunal, sua autoridade, e não aceitar mais nenhuma outra abaixo dela. Daqui para cima, só Deus! Se eu perguntei para Platão, Aristóteles, Confúcio, Lao Tse, Shankaracharya e eles não sabem, acabou! Dançou! Daqui por diante só Deus sabe! Deus, quando abre a boca, não é uma opinião, é um fato brutal! E não adianta você querer achar uma explicação para este fato. Isso é fundamental: os fatos da Ordem Divina não têm explicação, eles acabam com toda a explicação. E, de certo modo, eles também têm uma translucidez, porque na hora em que você entende o que é o poder divino em ação, você vê que não há o que discutir. É o limite da realidade tomada na sua totalidade. Para você ter um vislumbre do que é realidade objetiva, você precisa ter experimentado isso pelo menos uma vez em sua vida, mas você só vai experimentar se você for abandonando essas sucessivas autoridades que foram, por sua vez, te libertando de sucessivos poderes anteriores, até chegar ao limite do conhecimento humano, ao limite da inteligência humana. O limite da inteligência humana é a galeria dos sábios.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 12, 27/06/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


Gostou da publicação? Clique aqui para ver todos os fragmentos do Curso Online de Filosofia.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: