A ciência moderna é autora direta do subjetivismo moderno – Olavo de Carvalho

“No começo da modernidade surge, principalmente com Lord Bacon, a ideia de que a natureza física é um código escondido, ou seja, ela não se revela a nós, mas se disfarça, e que, portanto, para compreendê-la é preciso forçá-la; e você a força através do experimento. No experimento, você obriga as forças naturais a agirem de uma maneira que não é natural, para daí entender qual é o segredo que há no fundo da natureza. Toda ideia moderna do experimento científico é assim. Você cria uma situação artificial, inexistente na natureza, usando as forças naturais para fazer uma coisa que geralmente elas não fazem e, através desse experimento, você tenta entender como elas funcionam na realidade. A totalidade da ciência moderna é isso.

Mais tarde, Kant resumirá isso dizendo, de acordo com Bacon, que o cientista não se coloca perante a natureza como um observador, que a aceita como ela é, mas se coloca como um policial que a espreme e força a dizer alguma coisa. Sucede que esses resultados obtidos através desse experimento existem mesmo, mas somente naquelas condições em que foi concebido o experimento. Mediante o experimento, você consegue captar hipoteticamente uma certa relação entre elementos da natureza, só que na natureza essas relações existem no meio de bilhões de outras relações, de um número infinito de outras relações. Você apenas destacou uma, observou-a e disse: “essa aqui existe”. Se você tivesse feito outra pergunta e inventado outro experimento, iria descobrir outra coisa completamente diferente. Ou seja, o número de experimentos que você pode fazer é ilimitado, mas eles jamais vão alcançar toda a variedade da natureza. Em segundo lugar, esses experimentos mostram não como a natureza comporta-se em si mesma. Como ela responde à ação humana e o modo como ela funciona em si mesma nunca é exatamente igual, há sempre uma pequena diferença, porque tudo o que se passa na natureza é fato concreto.

E o que é fato concreto? Já expliquei isso uma vez, num outro curso, mas explicarei de novo. Fato concreto é o fato tomado não apenas na relação lógica que o expressa, mas na totalidade dos acidentes necessários para que ele aconteça. São justamente esses acidentes que o experimento isola: afasta-se o elemento acidental e fica-se somente com a definição lógica. Na natureza não existe nenhum fato assim, somente fatos concretos. Imagine quantos experimentos o ser humano fez desde que inventou esse negócio. Um número grande, sem dúvida. Mas o que é esse conjunto de experimentos em face da totalidade dos fatos concretos? É zero. Isso quer dizer que o conjunto do que a ciência experimental pode saber é um nada em comparação com a natureza real. E essa natureza real só pode ser conhecida em si mesma mediante observação contemplativa que a aceite na sua totalidade como fato misterioso, que é o que ela realmente é. Ou seja, a realidade concreta tomada na sua presença total é um mistério, sem dúvida, e a totalidade do que a ciência sabe sobre a natureza é uma titica de galinha, que não diz o que a natureza é ou faz, mas como ela reage a certas perguntas e provocações humanas.

A crítica que os filósofos da modernidade — Bacon, Galileu, dentre outros — faziam à ciência escolástica é que ela sempre tomava a natureza como ela apresentava-se, ao passo que eles pensavam: “nós temos de forçar a natureza a fazer o que a gente quer”. As duas coisas existem. Pode-se olhar a coisa das duas maneiras, ou até combiná-las. Mas se você pega essa nova maneira, essa nova ciência, e sobrepõe à outra, então você literalmente saiu da realidade, porque a ciência não investiga fatos concretos, ela só investiga certas relações que são comproporcionais à pergunta que você fez. O que é uma teoria científica? O que é uma hipótese científica? A hipótese científica é a suposição de que certo grupo de fatos comportar-se-á de acordo com uma constante hipotética se você selecionar os fatos a serem investigados de acordo com o que essa mesma constante determina. Isso é a mesma coisa que dizer que toda conclusão científica é tautológica. O que determina o recorte dos fatos a serem estudados? A constante que você quer descobrir. E quando esses fatos, em seguida, comportam-se de acordo com a constante, você diz que o experimento deu certo. Mas eles têm de dar certo! Só dão errado se você selecionou errado, ou fez as observações erradas, ou se a constante que você supôs não existe.

Isso quer dizer que esse conjunto de constantes observados pela ciência não são a realidade, mas certas possibilidades que o ser humano destacou do fundo imensurável da realidade, isolando-as de todas as acidentalidades possíveis, isolando-as de toda a concretude e olhando somente aquilo. É claro que isso deu muito resultado, sobretudo resultado técnico, aplicações técnicas em número ilimitado. Porque, se você mesmo fez o recorte, fez com algum objetivo e não é de espantar que, em seguida, você consiga realizar esse objetivo, pois fez o experimento exatamente para isso. Só que, tendo prosseguido agindo perante a natureza como um policial, pode-se dizer que o policial chega a conhecer as pessoas que ele está investigando? Não, porque ele só se interessa por elas sob algum aspecto possível, isolado do conjunto, e obtém uma resposta àquela pergunta específica que fez. Pode-se dizer que pessoas consideradas somente sob o ponto de vista policial existem? Não, não existem, são abstrações, evidentemente. Esse é um aspecto delas entre milhões de aspectos possíveis. Para que qualquer acontecimento de ordem policial aconteça é necessário que haja uma infinidade de acidentes que são totalmente alheios ao interesse policial. Por exemplo, tal crime aconteceu na rua tal, na esquina do edifício tal. Quem construiu o edifício? Se ali não tivesse edifício nenhum, nem rua nenhuma, o crime não poderia acontecer naquela rua. Mas a construção do edifício tem algum interesse do ponto de vista policial? Não. É outra ciência, outra arte completamente diferente. O bandido deu um tiro, mas estava ventando muito e houve um pequeno desvio do projétil, que acertou outra pessoa. Existe um método policial para estudar a direção dos ventos? Não, essa é outra ciência completamente diferente. Se você pegar o conjunto das ciências existentes e articular os pontos de vista delas todos você obtém uma série de linhas que confluem em alguns pontos. Essas linhas compõem um universo real? De jeito nenhum, compõem um conjunto de esquemas hipotéticos — uns funcionam mais, outros menos —, mas que não correspondem à realidade concreta.

A partir do momento em que se adotou como norma científica esse ponto de vista policial, toda a nossa visão da natureza material passou a ser determinada pelo nosso interesse policial e não pela própria natureza. Passados dois séculos, chegou Kant e disse que todo o conhecimento que nós temos da natureza resulta da projeção dos nossos esquemas cognitivos sobre um objeto que permanece inalcançável, ou seja, que nada conhecemos sobre a natureza propriamente dita, só conhecemos sobre os nossos próprios esquemas mentais projetados. Mais tarde, Michel Foucault, Thomas Kuhn, essa gente toda, disseram: “As estruturas das teorias científicas mudam todas de repente, por nada. Você acredita numa coisa e no dia seguinte você passa a não acreditar em nada, ou seja, é tudo subjetivo.” Isso é resultado da escolha feita por Lord Bacon.

Quando você privilegia o ponto de vista policial, privilegia-se o ponto de vista do observador e não o do objeto. O resultado é que, por mais que você conheça, tudo vai continuar parecendo-lhe subjetivo, porque você não complementou esse ponto de vista ativo e interrogativo com o ponto de vista contemplativo e passivo que aceita a totalidade da natureza como ela apresenta-se; você suprimiu a natureza enquanto objeto de experiência real e trocou-a pela natureza enquanto objeto científico, que consiste, diz Lord Bacon, em forçar a natureza a fazer o que ela não faz naturalmente, numa espécie de natureza não-natural.

Para compensar esse deslocamento em relação ao objeto material, a ciência introduz o elemento da medição e da exatidão matemática. Mas a exatidão matemática não pode, evidentemente, reconstituir o objeto, porque ela também resulta da atitude policial e também vem do sujeito. Quem faz a medição é você, não é a natureza que se mede a si mesma. O ponto de vista humano, o ponto de vista do investigador fica privilegiado e daí surge naturalmente o subjetivismo moderno. A ciência moderna é autora direta do subjetivismo moderno, não tem escapatória. Isso quer dizer que quando um sujeito alega, numa discussão, fatos objetivos comprovados pela ciência, ele não sabe o que está falando. Ciência moderna e subjetivismo são exatamente a mesma coisa.

A ciência moderna veio junto com o idealismo racionalista de Descartes, prosseguiu no subjetivismo radical de Kant e terminou no desconstrucionismo atual, no qual ninguém mais acredita em nada, não existe realidade objetiva nem coisa nenhuma. Tudo isso é uma espécie de doença infantil. A ciência moderna nasceu com essa doença infantil do subjetivismo. Vai ser preciso curá-la disso, mas só é possível curá-la articulando o ponto de vista ativo e interrogativo com a atitude contemplativa de aceitar a realidade concreta.

Mas está longe o dia em que a comunidade acadêmica entenderá isso, porque ela não existe para conhecer a realidade, mas para praticar a ciência tal como ela está socialmente definida. A busca do conhecimento hoje tem pouco a ver até mesmo com a atividade científica, mesmo quando exercida no seu mais alto nível. Quando nós falamos em educação, não é para o exercício de uma profissão científica ou acadêmica, é para a formação de seres humanos concretos — de carne e osso, históricos, biográficos, dotados de um “eu”, de uma consciência, de uma capacidade de falar e comunicar-se etc. —, capazes de ter acesso à realidade, ter experiência da realidade, sabendo que ela, como presença total, embora esteja presente desde o início, só se abre a você quando você chegou ao topo do conhecimento, quando sua única autoridade terrestre são os sábios — se houver outra autoridade embaixo, ela irá tampar a realidade de você.

O objetivo deste curso e de tudo o que eu estou fazendo é propiciar a vocês essa subida gradativa e, mais tarde, se possível, a experiência consciente da presença total. Quando você chega nesse ponto, não há mais autoridade humana sobre você, somente Deus está acima de você.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 12, 27/06/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


Gostou da publicação? Clique aqui para ver todos os fragmentos do Curso Online de Filosofia.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: