As relações entre ciência e ocultismo são tão íntimas que é impossível separar uma coisa da outra – Olavo de Carvalho

“Posterior ao Renascimento, praticamente tudo que se escreveu ali já vem com paralaxe cognitiva desde o início. Porque aquela época foi justamente quando se forma o conceito da ciência moderna, que se forma de uma maneira muitíssimo engraçada.

Na época, havia certa tradição de livros que eram chamados “livros de segredos”. São processos ocultos da natureza. Quando você vai ler, na verdade, parecem com livros de receitas, ensinando um monte de truques, de magicas etc., mas ali no meio tem receita culinária, formulinha de remédios domésticos para isto ou aquilo. Circulavam muito, como parte da herança ocultista que foi sendo desenterrada nessa época. Naturalmente, os fundadores da ciência moderna queriam se destacar dessa coisa: “isso aí tudo é macumba, e nós não temos nada a ver com isso”. Só que a inspiração verdadeira deles era aquilo. Aquele método experimental que eles estavam inventando era exatamente aquilo dos livrinhos de receita. Então você tem um comprometimento íntimo entre o ocultismo e a ciência moderna que jamais pode ser confessado. Esta coisa rígida e esta autoimagem rígida e orgulhosa da ciência moderna, como uma coisa totalmente distinta do irracionalismo, do misticismo, do ocultismo, isso tudo é uma camuflagem, não é uma coisa real. As relações entre ciência e ocultismo são tão íntimas que é impossível separar uma coisa da outra. Não dá mesmo. Claro que isto é um assunto que terá de ficar para mais tarde, um assunto de, até, histórias das idéias — nem é história da filosofia, mas nós vamos voltar a isso algum dia.

Nesta época também se observa outro fenômeno que é o das falsas autobiografias. René Descartes faz uma falsa autobiografia. O livro dele, Meditações Metafísicas, é um episódio autobiográfico contado de maneira radicalmente falsificada, oferecendo, ao mesmo tempo, aquela experiência como fundamento de uma nova filosofia. Bom, os dados que você está contando já são falseados, recortados de acordo com o interesse que você tem. Você está dizendo que a coisa é uma narrativa real, mas é apenas uma figura de linguagem que você inventou para camuflar a experiência real. Os ensaios de Michel de Montaigne são totalmente inventados, falseados. É um conjunto de procedimentos de retórica para dar a impressão que ele está sendo muito sincero quando não está. Os escritos autobiográficos de Maquiavel são totalmente falseados também. É uma profusão de falsas autobiografias.

Ao mesmo tempo vai surgir o romance moderno, que é uma história inventada, sem pretensão de ser verdadeira, mas que através da ficção transmite alguma verdade profunda da natureza humana. A partir dessa época é o seguinte: só dá para falar a verdade mentindo; e quando você tenta falar a verdade, também está mentindo. A verdade se torna objeto da ficção, e a ciência tem um elemento ficcional e mágico ali dentro que ninguém quer reconhecer, mas que está ali presente — e que hoje a gente percebe com muita clareza. Esta é a época da paralaxe cognitiva. Foi ali que o Ocidente aprendeu a mentir. Quando passam dois séculos e chega ao século XVIII, a mentira já é aceita como procedimento intelectual normal. Por exemplo, Voltaire e Diderot.

Com o tempo, vai aumentando esse negócio da mentira, e chega a haver fenômenos como da União Soviética: um conjunto de mentiras imposto oficialmente a trezentos, quatrocentos milhões de pessoas. Todo mundo sabe que aquilo é mentira, mas, ao mesmo tempo, todo mundo tem de dizer amém. Que loucura é esta? Como se chegou nisto? Estude as origens da ciência moderna e descubra. Essa ciência foi uma grande descoberta, mas veio com uma tara hereditária que nós temos de cortar. Essa tara foi o quê? A rejeição da Presença Total, a ideia de que o mundo das ciências pode coincidir com o mundo real — ele não pode coincidir com o mundo real. São construções feitas humanamente em cima do mundo real. O Husserl, inibido pelo subjetivismo tradicional, chamava isso “o mundo da vida” — o Lebenswelt —, quer dizer, o “mundo da nossa experiência”. Mas não é disso que estou falando, não é do mundo da nossa experiência. Estou falando da Presença Total, que está abaixo da nossa experiência e que está fundamentando a nossa experiência, que todos nós sabemos que está ali sem que tenhamos a experiência diferenciada dela. Mas é esta presença que — como diz Lavelle — possibilita a experiência e lhe dá toda a sua importância. Sem a experiência da Presença Total, o resto não significa nada — e foi isso mesmo que a ciência moderna amputou. Por que amputou? Porque ela já nasceu escondendo a sua própria origem. Vinha com um resíduo ocultista tremendo que jamais foi extirpado.

Como quando você lê aquela tese da Ana Maria Goldfarb (esposa do meu primeiro editor, da Nova Stella, muito boa gente), “Da Alquimia à Química”. Dá a impressão que o negócio começou como ocultismo e depois virou ciência. Não mesmo. O elemento ocultista está presente lá até hoje: vocês apenas o camuflaram. Camuflaram por quê? Porque na origem dessas ciências modernas havia uma revivescência de seitas ocultistas que tinham ficado mais ou menos escondidas durante a Idade Média e que de repente voltaram e falaram “agora nós vamos tomar o poder. Nós vamos derrubar a Igreja Católica e tomar o poder. Mas não podemos aparecer com aquela cara de feiticeiro, porque senão eles nos queimam e nós vamos nos desmoralizar. Então, vamos encobrir com outro negócio e vamos dar a impressão de que estamos em um terreno neutro”.

Este é um dos mitos fundadores da sociedade moderna, mas é um mito. Por exemplo, quando você lê livros sobre o Iluminismo que dizem: “no Iluminismo predominava a razão sobre a mística etc.” Absolutamente falso. O conceito que eles tinham da razão é um conceito eminentemente fetichista e mágico. Quando você observa a cultura real da época, você vê que nunca pulularam tantas seitas ocultistas, nunca houve tanta macumba quanto durante o Iluminismo — praticado pelas mesmas pessoas que estavam ali arrotando razão para tudo quanto é lado. Quando existe o mito fundador, também existe a mentira fundadora, e nós temos de ter a coragem de sondar e descobrir. Alguém mentiu lá para trás e depois a geração seguinte esqueceu que era mentira — e isso vira o quê? Uma neurose, que, na definição do Juan Alfredo César Müller, é “a mentira esquecida na qual você ainda acredita”. Como nos livrar da neurose? Descobrindo qual foi a mentira ancestral e parando de acreditar nela.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 012, 27/06/2009.


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