A situação do mundo de hoje é um negócio tão complexo que não foi feita para qualquer Alex Jones, para qualquer Tarpley – Olavo de Carvalho

“A cultura americana é muito rica. Ela é tão rica que você pode viver dela o resto da sua vida sem você nunca se interessar por nada que passou de fora. Aqui nos Estados Unidos é difícil encontrar uma pessoa que fale uma língua estrangeira. Mesmo quando aprendeu o sujeito não se interessa por aquilo. A ideia que se tem é de que existe uma força agente, que são os Estados Unidos, e que eles fazem tudo. Então a ação estrangeira sobre o resto do mundo e sobre eles mesmos é passada despercebida ou como um detalhe irrelevante.

Observa-se, como eu observei, que ideias e opiniões que foram injetadas aqui nos anos 50 pela KGB, com o tempo se tornaram a opinião dominante da grande mídia. A influência da KGB foi devastadora. Ela praticamente moldou a cabeça da classe jornalística aqui. Mas se você disser isso para um americano eles pensam que você está louco. De certo modo, o próprio orgulho nacional americano torna-os cegos para a ação das outras nações.

Eu já ressaltei mil vezes que nunca existiu uma organização do tamanho da KGB. É um negócio muito poderoso. Por exemplo, se você pegar uma firma de comunicações americana como o New York Times e comparar com a KGB, o New York Times é titica de galinha. A grande mídia americana inteira comparada com a KGB não é nada. A KGB tem um orçamento ilimitado e secreto, nem o parlamento soviético podia discutir o orçamento da KGB. Então quanto dinheiro tinha na KGB? É ilimitado, não dá para saber. As operações que eles chamam medidas ativas — isto é, moldar a opinião pública num outro país através de milhares de agentes de influência absolutamente insuspeitos, nenhum deles comunistas — é um negócio brutal! Influência ativa e permanente na formação da opinião mundial só existe uma: a KGB. O resto é tudo picado, temporário, impermanente. E esses caras aqui não tem a menor ideia. E como é que está funcionando a KGB hoje? Só sei o seguinte: ninguém foi demitido da KGB. A KGB continua do mesmo tamanho. Mudou de nome, chama-se FSB, e daí? Ela já mudou de nome 20 vezes. Chamava-se Tcheka, depois NKVD, mudou de nome mais uma vez, e isso foi tudo que aconteceu. O que eles estão fazendo exatamente? Não dá para saber. Dá para saber o que eles fizeram em outras épocas. Os arquivos da KGB não foram abertos, continuam fechados. Os que foram abertos são os arquivos do partido comunista, então indiretamente dá para se saber muita coisa do que a KGB fez. Mesmo assim o que se pegou até hoje é quase nada. Só para dar uma ideia: O Vladimir Bukovsky mostra que a imprensa de centro esquerda européia, por mais de 10 anos, foi toda financiada pela KGB e os europeus acreditando que aquilo era sua opinião nacional. Nacional nada! “Foi o russo que mandou vocês pensarem assim!” – Chegaram lá, compraram todo mundo, soltaram propina para todo mundo e pronto, acabou. E aqui foi a mesma coisa. Dá para saber o que eles fizeram nos anos 50 e então, extrapolando por comparação, imagina-se o que eles continuaram fazendo na década seguinte. O Alex Jones e o Tarplay têm uma visão completamente ideologizada da coisa. Para eles só existe a Nova Ordem Mundial, e que é americana. O resto são apenas fantoches acionados no cenário do mundo pela ação americana. Isso á absolutamente falso e tem muita gente que pensa assim.

A situação do mundo de hoje é um negócio tão complexo que não foi feita para qualquer Alex Jones, para qualquer Tarpley. Para se estudar essas coisas é preciso ter esse tipo de informação que eu estou dando para vocês. Vocês daqui a dez anos irão estar habilitados para entender tudo que acontece no cenário político mundial. Mas por enquanto não dá. Eu fico consternado de ver as pessoas com aquela sua formaçãozinha — Ah, estudei ciência política, estudei sociologia — acharem que irão entender alguma coisa. Meu deus do céu! Se você pegar somente a tradição marxista — o livro do Kolakowski, Correntes Principais do Marxismo, de três volumes —, só essa tradição é um mundo, é um universo inteiro de coisas com uma linguagem própria, com códigos mais ou menos implícitos. É um mundo difícil de penetrar. Agora, pegando outra linha de investigação, que é socialismo e organizações ocultistas. Se você passar a vida estudando o marxismo você nunca vai saber disto. No entanto, se você estudar isso sem conhecer o marxismo, você também não irá entender.

(…) Ainda tem gente que acredita — aqui está cheio de gente que acredita — naquele trecho do Alexis de Tocqueville, na Democracia na América, quando ele fala da tradição das revoluções e ele diz: “(…) a base das revoluções é o ideal da democracia (…)”. Mas se o ideal das revoluções é o ideal das democracias, como é que elas criaram as piores ditaduras de todos os tempos? Foi um equívoco! Em suma, a ideia de democracia não tem nada a ver com as revoluções. A revolução é uma coisa completamente diferente, não tem nada a ver com isto. Hoje eu entendo que o processo revolucionário pouco tem a ver com a natureza das propostas políticas que ele apresenta. Ele é um fenômeno de ordem estrutural, de ordem cognitiva que você pode trocar as propostas políticas mil vezes. Pode-se trazer propostas democráticas, socialistas, fascista, anarquista, nacionalista, o que se quiser. Mas se acredita que é possível entender as revoluções estudando-as do ponto de vista da suas ideologias e das suas propostas políticas. Mas não é possível. Eu mesmo acreditei nisso por muito tempo.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 12, 27/06/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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