O modo de percepção milenarista, que é o de inversão do tempo, é uma tendência permanente da humanidade – Olavo de Carvalho

“O modo de percepção milenarista, que é o de inversão do tempo, eu acho que ele é uma tendência permanente da humanidade. Porque isso não é uma dissonância cognitiva, é uma defasagem entre dois planos da realidade. Por um lado, você é um indivíduo humano, por outro lado, você é membro de uma coletividade, você é um personagem da História. Enquanto indivíduo, a nossa vida se constrói desde um projeto de futuro. Todo mundo quer ser alguma coisa quando crescer. Todo mundo tem objetivos na vida. Bom, tem algumas pessoas que não tem, mas essas pessoas são irrelevantes na verdade. Se a pessoa não tem objetivo, a vida dela vai ser revestida com outro. Então eu estou falando das pessoas ativas. As pessoas ativas têm objetivos. Um quer ficar rico, outro quer comer todas as mulheres do mundo, outro quer ser um sábio, outro quer ser Papa, outro quer ser um santo, e assim por diante. É desde esta perspectiva de futuro que você toma suas decisões de agora e que você orienta sua vida. Então, a imagem de futuro é um fator permanente na estrutura da vida individual humana.

Por outro lado, você é um personagem da sociedade, é um membro da sociedade e um personagem da História. E aí, pessoas que tem um grande poder concebem uma imagem de futuro, de um projeto delas, e metem você nesse projeto. Só que nas passagens do plano individual para a sociedade nós temos o seguinte problema: Nossa vida tem uma duração média previsível. Você sabe que você não vai viver 500 anos, então que os seus planos devem ter uma medida de tempo. E na História, qual é a medida de tempo? O ser humano espontaneamente não precisa estar defasado da realidade, espontaneamente ele olha para o futuro e pede para que o futuro molde o presente. Mas se ele for não apenas um indivíduo, mas um governante, um sábio, um profeta ou pseudoprofeta, ele começa a fazer a mesma coisa no plano da história. Não porque ele esteja alienado. Mas porque ele não tem outras categorias de pensamento, exceto aquelas que se aplicam à sua vida intelectual. Só que a partir de um certo momento, ele passa da medida do que é humanamente previsível e começa a raciocinar em termos de história total. Não precisa haver uma crise e o sujeito não precisa estar desesperado para fazer isto.

Movimentos de milenarismo organizado acontecem em situações de crise, existem surtos até de teorização milenarista em certos momentos, mas não é só nestes momentos. Eu outro dia mencionei para vocês a oferta de Roger Bacon ao Papa: “nós podemos por meios astrológicos, calcular a vinda do Anti-Cristo e nos preparar para isto”. Isto não foi feito num momento de crise, isto foi feito num momento de apogeu da religião católica. Por outro lado, quando expulsam os judeus da Espanha, aparece um monte de milenarista. Então acontece o que está dizendo aqui o John Grey, ou seja, você tem um surto milenarista em resposta a uma situação aflitiva. Sua vida presente está tão miserável que você tem de sonhar com um negócio futuro.

O momento e a maneira de transformação das crenças milenaristas em forças decisórias no terreno da política depende dos acidentes da história. Bem, isso aí é verdade, mas eu não acho que o milenarismo em si seja uma dissonância cognitiva. Eu acho que uma certa tendência milenarista é normal no ser humano. O problema se constitui verdadeiramente quando esta expectativa milenarista se torna excessivamente terrestre, quando ela perde a dimensão espiritual, por exemplo a esperança. Digamos: quando nós, católicos, rezamos a prece que nossa senhora ensinou em Fátima “Oh, meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o céu e socorre as que mais precisarem”. Esta frase: “levai as almas todas para o céu” é uma esperança milenarista. Que Jesus salve a todos. Só que quando ele vai fazer isto? Não sei. Como ele vai fazer? Também não sei. Então você coloca sua esperança milenarista totalmente em Deus, e você não vai pautar a sua vida — nem a sua vida pessoal, nem a sua vida histórica — com uma esperança milenarista mais ou menos datada. Você vai fazer a sua tarefa e deixar a Deus o que é de Deus. Daí a César o que é de César e daí a Deus o que é de Deus. O reino da história é o reino de César, não é o reino de Deus. Deus vai fazer o juízo final quando terminar a história. Ele mesmo já disse; termina tudo e fazem-se novos céus e nova terra. Como é que vai ser isto? Nós não temos a menor ideia, nós não temos o controle disto. Até este ponto a esperança milenarista é normal no ser humano. Ela não pode ser uma dissonância cognitiva em si mesma. Ao contrário, esta esperança dá pra você a medida das relações entre tempo e História com a eternidade. É o título do livro do Jean Louis Vieillard-Baron, que é um dos grandes filósofos: A ilusão histórica e a esperança celeste. A nossa esperança milenarista está no céu, está em Deus. Digamos na meta-História. A dissonância cognitiva começa quando isto baixa para a História, ou seja, quando a relação correta entre tempo e eternidade se perde. Você escapou da estrutura da realidade.

O tempo histórico no qual nós vivemos não é contínuo, ele é escandido pela morte das pessoas. Os personagens entram, saem e não voltam mais. Para aquele que morreu, a História terminou. Mas e a continuidade histórica? Bom, a continuidade histórica só existe no nível abstrato e verbal. O historiador, o sujeito que raciocina sobre a história ele descobre certas linhas de continuidade que materialmente não existem. Por exemplo, a própria noção de milenarismo: apareceu um fenômeno milenarista e anos depois aparece outro, sem nenhuma ligação causal entre si. Nós percebemos o retorno de uma estrutura. Esta percepção só existe no nível da abstração, ela não existe materialmente na história. Ela só pode ser entendida justamente na relação entre tempo histórico e eternidade. Isto quer dizer que a história no sentido material da coisa é totalmente descontínua. A história é feita de cadáveres. As pessoas morrem e, no entanto, a ação histórica se prolonga. Quando uma instituição ou uma organização decide prosseguir na execução de um plano por cem ou duzentos anos, ela sabe que isso não existe materialmente. Sabe aquele negócio do Lord Keynes: a longo prazo estaremos todos mortos? Esta possibilidade de uma ação histórica contínua só existe quando as pessoas se colocam num plano que transcende a duração da sua própria vida, e ela sabe que materialmente não vai participar daquilo. Então não vai haver continuidade real, mas apenas continuidade estrutural. Certas regras do jogo serão repetidas, as pessoas continuarão a jogar o mesmo jogo depois que a gente morrer.

O que dá algum sentido real a esta continuidade é a dimensão de eternidade, na eternidade seremos todos julgados. Todos os nossos planos e nossas ações históricas também serão julgados. Lá tudo adquire unidade. Mas a dimensão Histórica em si é toda esfarelada. Temporalmente e mais ainda espacialmente. Culturas que não se comunicaram entre si, que não se influenciaram em nada, totalmente independentes, uma não sabia da existência da outra, o que elas pensavam? No tempo dos astecas, que pensavam disso os chineses? Não pensavam nada. Eles nem sabiam o que estava acontecendo. No entanto, nós concebemos um plano de unidade da espécie humana, esta unidade só existe para nós como ideia abstrata, e se ela tem algum fundamento, é perante Deus. Sem a ideia de um deus universal, não há humanidade alguma. A própria ideia de humanidade é dependente da ideia de Deus. Ou a humanidade é apenas uma abstração, um nome, ou ela é um personagem diante de Deus. Por isso que o milenarismo em si não é uma coisa doente.

A esperança milenarista é uma tendência permanente da espécie humana e uma tendência boa, no fim das contas. O judaísmo inteiro é um milenarismo porque tem uma estrutura histórica, tem uma origem e vai ter um fim. E as nossas esperanças estão colocadas no fim. O que é o cristianismo inteiro? É um milenarismo. Mas não é um milenarismo terrestre. A dissonância começa quando se torna um milenarismo terrestre, porque aí você está aplicando coisas ao plano terrestre que só fariam sentido no plano da eternidade. Que é a eternidade? É a simultaneidade de todos os momentos. Portanto, é o contrário do que a continuidade histórica. Agora, quando você projeta esta esperança milenarista na Terra, você pega um momento do fluxo histórico — isso foi muito bem explicado pelo Eric Voegelin — e você o cristaliza como se ele fosse ficar parado. É o fim da História, mas e depois do fim da História? Ela continua, não há fim. Só há fim na eternidade, no plano da eternidade. Santo Agostinho explicou isso direitinho. Não há continuidade nem unidade na História humana a não ser perante Deus. Se você abole Deus, então você tem de inventar uma História que tenha unidade. Você criar um fetiche, e fazer com que estas concepções abstratas de historiadores e de filósofos da história se tornem uma coisa materialmente existente. É claro que isso é um fetiche, isso é uma idolatria e uma estupidez fora do comum.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 12, 27/06/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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