O medo da responsabilidade da existência – Olavo de Carvalho

“A tendência quase incoercível da mente humana é se refugiar na banalidade para evitar os grandes dilemas, os grandes conflitos. O sujeito se fazer de pequenininho, de inocente, para fingir que não sabe o que está realmente em jogo na sua vida. Particularmente na cultura brasileira, esse é um dos elementos mais permanentes e de maior peso, de maior impacto na mente das pessoas.

É claro: se você se preocupa com qualquer coisa que vá além do seu estômago e do seu bolso, já começa a ficar angustiado, então o que você faz? Se refugia no estômago e no bolso e recusa qualquer preocupação acima disso. Isto é, de fato, o medo da responsabilidade da existência, e este medo impede que as pessoas cheguem à maturidade, ficando num perpétuo estado de puerilismo moral, intelectual, espiritual etc. Graças a esse puerilismo, não são capazes de avaliar as suas próprias ações cotidianas, ou seja, fazem coisas horríveis, mas sentem que são perfeitamente inocentes. Isso é um caso crônico daquilo que Igor Caruso chamava de repressão da consciência moral: você sufoca a consciência moral e se refugia na noção de que você é apenas um bichinho, uma criancinha, numa afetação de falsa modéstia — “Esses problemas são demasiado elevados para mim; eu só tenho que me preocupar aqui com as minhas coisinhas.” — No fundo isso tudo é simples medo da responsabilidade da existência.

(…) Isso aí é comum no Brasil, e vem justamente dessa cultura da insignificância, do apego à insignificância, que é algo totalmente defensivo: um anestésico para que o sujeito não tenha de se confrontar com as grandes responsabilidades morais da vida. Em suma: para evitar o sofrimento moral. Acontece que o sofrimento moral é a parte mais elevada e mais bonita do ser humano. O ser humano praticamente só se distingue dos outros animais porque é capaz de ter sofrimento moral, de imaginar as ações possíveis que ele poderia realizar e de se horrorizar perante elas. Ele tem a capacidade de se negar a si mesmo, de ficar com horror de si mesmo, só em imaginação. Você se imagina fazendo certas coisas e tem horror daquilo. Não tem ninguém vendo, ninguém está sabendo. Você, na total solidão, se confronta com a possibilidade da exteriorização do mal que existe na sua imaginação e você recua, se policia e tenta melhorar. Isso é a parte mais importante do ser humano. Inclusive, para o exercício da filosofia, a pessoa que não se aprimorar nisso, que não buscar isso, jamais entenderá o que é a filosofia. Não esqueçam que a filosofia, com Sócrates, começa como filosofia moral e filosofia política. Ela não começa como metafísica, lógica, teoria do conhecimento, nada disso. Ela começa como um apelo do filósofo à responsabilidade moral e cívica das pessoas.

É curioso que, a partir da década de 90, entrou em moda no Brasil o negócio da ética, mas todos procedem como se a ética fosse uma coisa que deve ser só para os políticos. O cidadão que critica o político não precisa ter ética nenhuma – ele pode ser mentiroso, embrulhão, um fofoqueiro dos diabos. A ética se torna simplesmente um porrete para você bater na cabeça dos outros. Você imagine uma pessoa com essa composição moral estudando filosofia e querendo discutir com Platão, Aristóteles, com Leibniz, com René Guénon, que seja. O que vai se formar aí é um monstrinho, são figuras disformes. O Brasil está cheio dessas figuras disformes, praticamente toda nossa intelectualidade falante é constituída dessas pessoas que não têm mais a miníma consistência interior. Tanto não a têm que, no Brasil, em geral, se cobra das pessoas uma espécie de coerência lógica impossível.

Consistência interior é o seguinte: é a consciência dos elementos contraditórios que se agitam dentro de você, consciência das suas diferentes possibilidades de ação, consciência da multiplicidade de impulsos em luta dentro de você – ou seja, é a consciência das alternativas. Se fosse possível termos a coerência de um livro de lógica, não haveria nada disso. A coerência de um ser humano não é a coerência de um tratado filosófico; é a consistência das atitudes pessoais na luta da alma consigo mesma. Não é uma coerência linear, mas uma coerência opositiva, uma coerência dialética — extremamente complexa e dolorosa.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 013, 04/07/2009.


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