O retorno ao “nada” é uma coisa impossível – Olavo de Carvalho

“Imagine que você morreu e que você entrou no “nada”. Mas como você pode entrar no “nada”, se no “nada” nunca houve nada? Para você entrar no “nada”, você precisa ter ido do “ser” para o “nada”, do existente para o inexistente. Mas acontece que, se você passou pelo existente por uma única fração de segundo, você está excluído do “nada” eternamente. Frequentemente faço este exercício: olho o vento balançando uma folhinha, e digo: “Olha, isso aí aconteceu, o ar realmente balançou a folhinha.” Quando é que isso poderá ser um “nada”? Nunca mais.

Os filósofos gregos tinham frequentemente a experiência da impermanência das coisas: tudo flui e tudo se extingue, as coisas passam pela existência e somem. Eu tenho frequentemente a experiência contrária: eu vejo o vento balançando a folhinha e tento suprimir aquilo mentalmente. Eu não posso fazer aquilo que aconteceu “desacontecer”. Eu não posso expulsar aquilo para o “nada”. Claro, aquilo foi numa outra fração de tempo, não está mais neste tempo (se estivesse neste tempo significaria apenas que foi um fato um pouco mais duradouro). Por exemplo, o ciclo que uma árvore percorre durante o ano, durante as quatro estações, dando folhas, depois frutos, depois caindo as folhas no outono e ficando pelada e seca no inverno, tudo isso aconteceu no ano passado. Para cada árvore que eu vi, isso aconteceu. Isso não pode voltar ao “nada”, o tempo é irreversível, aquilo que aconteceu está acontecido, não pode “desacontecer” nunca mais. O retorno ao “nada” é uma coisa impossível.

Do mesmo modo que existe a experiência da impermanência, a experiência da transitoriedade, existe a experiência da permanência, depende de por onde se olha as coisas. Quanto aos exercícios de impermanência, de transitoriedade, eu nem preciso falar, porque o mundo está tão cheio de menções à transitoriedade, é uma coisa que todo mundo repete. Mas, e a experiência da permanência? Ora, tente suprimir o acontecido. Se você entende que tudo o que aconteceu está acontecido e não pode mais voltar para o “nada”, você começa a ter uma pré-experiência, uma antevisão do que é a eternidade, onde nada jamais passa. Não tem como encaixar a eternidade dentro do tempo, mas, a partir da hora que você fez a experiência, você para de entender o tempo como a única dimensão possível, e entende que ele é apenas uma linha dentro da eternidade. Você pode ter acesso a isso não como teoria, mas como experiência. E ter essa experiência é muito mais importante do que ler tudo o que os filósofos escreveram a respeito disso. Pegue qualquer acontecimento, uma formiguinha que se mexeu, e tente suprimir aquilo. Tente fazer “desacontecer”. Quanto mais você tenta fazer “desacontecer”, mais você se lembra que a formiguinha se mexeu. Ou seja, você não tem o poder de devolver nada ao “nada”.

E Deus, teria? Deus também não teria, porque Deus é eterno; para que Ele próprio pudesse devolver alguma coisa ao “nada”, seria preciso que Ele próprio estivesse no “nada”, e que Ele fosse o “nada”.

Note que eu expresso isso às vezes sob a forma de raciocínio lógico, mas é apenas a forma verbal da expressão. O que eu estou sugerindo é que você busque apreender isso com experiência, com fatos da realidade, os fatos mais simples. Claro que nós podemos esquecer das coisas, mas eu não sou a medida do Universo: o fato de que eu esqueci uma coisa não significa que ela não exista. (…) É aquela famosa pergunta: “as coisas continuam existindo quando nós não as estamos percebendo?” Eu acho essa pergunta uma característica inversão da ordem real da experiência, porque são as coisas que nos lembram da sua existência; a nossa memória não é soberana, ela falha. Se não existir fora de você, para além de você, esses elementos que te recordam a existência do mundo, aí que a sua memória vai para o brejo mesmo.

Imagine, por exemplo, se todos os estímulos sensíveis que lhe chegam do mundo exterior desaparecessem: um experimento de privação sensorial total. A experiência de privação sensorial total, quando realizada efetivamente, introduz na pessoa uma tal desordem que o sujeito não aguenta nem por cinco minutos. Ou seja, se você não tem os estímulos do mundo exterior, a sua própria memória vai para o brejo.

(…) A pergunta “o mundo exterior continua existindo quando eu não estou reparando nele?” é uma pergunta totalmente imbecil. Ela é um truque, uma pegadinha, não é uma pergunta filosófica legítima, e nunca foi. Os filósofos gregos jamais se fariam uma pergunta tão idiota, os escolásticos jamais se fariam uma pergunta tão idiota. As pessoas só começaram a se fazer essa pergunta depois do Descartes, quando elas passaram a acreditar que o “eu” existe e o resto é duvidoso. Mas se o resto fosse duvidoso, eu não poderia ter “eu” algum! Se não existe a estabilidade do mundo exterior para me fazer lembrar que eu sou eu, não tem “eu” nenhum.

No estudo que estamos fazendo da mentalidade revolucionária, nós vemos essa série de inversões que foram aparecendo na modernidade – inversões em relação à atitude normal e normativa do ser humano. A inteligência construtiva começa a criar esses joguinhos, essas pegadinhas, e isso passa a ser chamado de filosofia, e as pessoas se mantêm ocupadas com essa masturbação mental durante séculos e, no fim, toda essa atividade filosófica se torna de um artificialismo absolutamente sufocante, que não serve para absolutamente nada. É o que a Bíblia chama de “as obras estéreis das trevas”.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 13, 04/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


Gostou da publicação? Clique aqui para ver todos os fragmentos do Curso Online de Filosofia.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: