A tentativa de construir o mundo a partir da consciência humana, destrói a própria consciência humana – Olavo de Carvalho

“Uma vez eu estava falando de desonestidade intelectual e alguém falou: “Você fica falando essas coisas mas, afinal de contas, o que é honestidade intelectual?” Respondi que era a coisa mais simples do mundo: é não fingir que você sabe o que não sabe e não fingir que não sabe aquilo que você sabe perfeitamente bem. Tudo isso que eu estou dizendo, todos os exercícios que eu estou sugerindo, são só para você assumir a responsabilidade daquilo que você sabe, e isso, evidentemente, é o análogo metafísico daquilo que a confissão é na ordem da moral. Então, no fim das contas, isso também é confissão.

Mas de que serve a confissão moral, se você não confessa a realidade da realidade? Isso é uma coisa gravíssima, porque, até uma certa fase da história, essa responsabilidade de assumir o real era compartilhada por todas as pessoas, tanto as simples quanto os maiores sábios. A realidade na qual vivia São Tomás de Aquino era a mesma realidade na qual vivia o Zé Mané da esquina.

A partir de um certo momento na história, por volta do século XVI, XVII, os intelectuais passam a viver em um outro mundo, que é o mundo do “eu”, das “formas a priori”, enquanto as demais pessoas continuam vivendo no mundo de sempre. Aos poucos, os filósofos vão fazendo o possível para tirar as pessoas do mundo de sempre e colocá-las dentro do seu mundo fechado.

Ora, o indivíduo que não está plenamente consciente da densidade do real e da densidade da sua própria existência no real, que sentido faz ele se confessar, se todos os seus atos estão impregnados de irrealidade? Note que o sacramento da confissão continua o mesmo, mas a situação mudou muito, porque as pessoas já não têm certeza de que elas fizeram ou não fizeram alguma coisa, de que elas pensaram ou não pensaram alguma coisa. Estão todos vivendo em uma situação de névoa kantiana. Então qual a possibilidade de você fazer uma confissão efetiva? É mínima. Para um camponês analfabeto de oito séculos atrás era muito mais fácil fazer uma confissão, porque ele tinha certeza do que ele tinha feito, ou do que ele tinha pensado, ou do que ele tinha desejado, enquanto nós, com todas as técnicas psicológicas que desenvolvemos, não temos mais essa certeza. 

Quando você vê a multidão de psicanálises diferentes que existem, elas existem porque aparentemente o autoconhecimento se transformou em uma coisa muito complicada. Nenhuma dessas técnicas, quando confrontadas, pode lhe dar autoconhecimento, porque cada uma delas só lhe dá o conhecimento de um aspecto hipotético da sua alma hipotética.

A própria profusão de técnicas de investigação psicológica — supostamente destinadas a amparar o autoconhecimento humano — na verdade criam uma confusão dos diabos, porque tudo isso pode ser muito útil, todas essas técnicas podem ser muito úteis se você tiver essa permanente admissão da densidade do real, no sentido do Louis Lavelle, porque daí você tem onde encaixar essas várias coisas, você sabe onde elas estão. Quando o Lavelle diz “a experiência da presença do ser é o que dá o significado e a importância das demais experiências”, significa que, desprovido da consciência da presença do ser, nada tem significado e nem importância – inclusive o seu famoso “eu”.

Quando Descartes fez do “eu” o centro de construção do conhecimento, ele não podia prever que em muito breve tempo esse “eu” ia se esfarelar, se desfazer. Porque o nosso “eu” só é alguma coisa quando situado dentro da presença do real e da sua própria presença ao real. Se você o isola, como o “eu” isolado poderia ter história? O “eu” de que fala Descartes é um “eu” atomístico. Ele diz “penso, logo existo, e esta frase é verdadeira no instante em que eu a penso”. Mas quanto tempo dura esse instante? Se transcorreu algum tempo, então você entendeu que, além do seu “eu”, existe alguma outra coisa que se chama “tempo”. E se não transcorreu tempo nenhum, isto simplesmente não aconteceu. Mais ainda: “penso, logo existo — está frase é verdadeira no instante em que eu a penso”, sim, mas também no lugar onde eu a penso. Pois onde você pensou isto? Em lugar nenhum? Então você não pensou. A tentativa de construir o mundo a partir do “eu”, ou da consciência humana, destrói a própria consciência humana.

E por que os filósofos caíram nisso? Por amadorismo, por inépcia, por incapacidade ou falta de vontade de confessar o real estado de coisas. Eu acho que, ao longo do tempo, o primeiro filósofo que restaura isso na sua plenitude é o Louis Lavelle. Você ler o Lavelle depois de estudar Kant, ou Descartes etc., é como despertar de um pesadelo. As pessoas que vivem dentro desse pesadelo e que, não obstante, querem levar uma vida moral, terminam todas loucas.

Por exemplo, agora que estou aqui nos EUA, eu assisto a muito mais filmes americanos do que antigamente, e vejo a infinidade de filmes sobre adultérios, e os dramas terríveis do adultério. Ou seja, o sujeito descobre que a mulher dele olhou para outro, pronto, meu mundo caiu — “Ah, ela desejou o outro”. Mas ele não foi informado de que as pessoas às vezes desejam os outros? Ele não sabia disso? Ele esperava realmente que a mulher só pensasse nele, só tivesse olhos para ele, nunca tivesse atração por outro? Ele espera isso? Mas que idiota! Por isso mesmo, o Cristo, na hora em que proíbe o adultério, diz que é para perdoar as pessoas, porque Ele já sabe que elas vão fazer isso. Então, a problemática do adultério separada da problemática do perdão é uma loucura, uma abstração, e não tem solução, é só sofrimento. E de onde vem isso? É o abstracionismo. É a separação entre a alma humana e a estrutura do real, a densidade do real. Ou seja, o sujeito se casa, mas não com uma pessoa de verdade; ele se casa com um produto imaginário, que é uma espécie de espelho dele, um espelho lisonjeiro.

(…) O subjetivismo moderno colocou as pessoas, cada ser humano, no centro e no topo de realidade, e colocou o universo abaixo dele. Isso é inversão total da realidade. Nós só temos o direito de falar a palavra “eu” se nós temos a consciência da “presença total” e da nossa presença à “presença total”. Aí nós temos um “eu”. O “eu” não é uma entidade substantiva que exista por si mesma. O “eu” é uma espécie de relação que nós temos com a realidade na medida em que nós assumimos essa realidade e, agindo e reagindo dentro dela, nos tornamos cada vez mais sensíveis à presença. Aí sim nós temos um “eu”. O verdadeiro “eu” é o produto de uma espécie de modéstia epistemológica do ser humano, o que é exatamente o contrário de toda essa tradição idealística moderna. Tradição idealística na qual os materialistas estão também incluídos.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 13, 04/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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