Imagine a vida de pessoas conhecidas como um drama – Olavo de Carvalho

“Você vai vendo que a vida das outras pessoas tem uma forma. Os vários fatos que sucedem a elas só adquirem sentido em face de tudo que aconteceu antes e de uma expectativa do que vem depois, ou seja, não há apenas uma sucessão, mas há efetivamente um drama. Esse drama surge porque as pessoas, além de serem aquilo que elas são presentemente, querem ser alguma coisa (mesmo que queiram apenas continuar sendo o que são agora).

Elas podem querer ser o que são agora, mas a vida pode forçá-las a mudar. Por exemplo, o sujeito mais rotineiro, mais burguês, mais banal, colocado no meio de uma crise, de uma revolução, de uma guerra. O sujeito estava vivendo na sua repetitividade plácida e medíocre e, de repente, é colocado dentro de um campo de concentração. Pronto, acabou. O que acontece, os fatos que acontecem, mesmo que venham de fontes absolutamente aleatórias, se incorporam na vida de cada um como elementos de um enredo dramático, e, de certo modo, cada pessoa que você conhece tem o direito de ser tratada como personagem desse drama. Ela tem uma vida própria, ela pode contar a sua vida, e os fatos da vida têm para ela um significado, mesmo que seja um significado ilusório (mesmo sendo um significado ilusório, não quer dizer que essa ilusão não exista mesmo, e que não tenha para ela, dentro do drama da sua vida, um papel específico).

Você é capaz de contar a vida de quantas pessoas em torno? Em geral, a compreensão que você tem das pessoas em torno é meramente esquemática, e não dramática; você não as entende como personagens de um drama, como elas mesmas se entendem. Você as entende como personagens ocasionais de cenas separadas, e estas cenas você incorpora ao seu próprio drama. Enquanto você faz isso, você está no egocentrismo, na ilusão egocêntrica. Você só sai disso se tentar contar a vida das pessoas como você conta a sua. Quando você conta a sua vida, você tem um sentimento de unidade do seu personagem desde o começo até o fim. Pelo simples fato de você contar agora cenas que se passaram quando você era bebê, ou seja, o “eu” que está contando a história agora é o mesmo “eu” que você coloca dentro do bebê, de tal modo que ele fale. Mas raramente você concede esse privilégio aos outros. Isso significa que você está em um mundo onde existe somente um “eu”, e existem personagens ocasionais que vão compondo o seu “eu”. Mas será que a vida é realmente assim? Não pode ser, pois cada uma das pessoas acha que tem um “eu”. Só de você tentar contar a vida das pessoas, você verá como esse seu horizonte vai se enriquecer e como as pessoas em torno começam a ser mais reais para você.

Isto é um exercício que todo romancista faz. O romancista lê uma noticiazinha, “fulano matou não sei quem”, e imediatamente começa a imaginar tudo para frente e para trás – como começou essa história. Isto fez da arte do romance um instrumento cognitivo formidável. Muitas vezes os romancistas entendem as coisas melhor do que os filósofos. No século XIX, quando tudo quanto é filósofo estava dizendo besteira, estava lá Dostoiévski que entendia as coisas mais ou menos como elas eram.

(…) Transforme um filme em narrativa verbal, e a narrativa verbal em filme, ou em peça de teatro. Isto serve, sobretudo, para você entender o que é a narrativa em si, e o que é a sua tradução ou condensação em símbolos que podem ser símbolos visuais, como no cinema, ou corporais, como no teatro.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 13, 04/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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