Gostaria de sugerir o exercício que eu chamo de biblioteca imaginária – Olavo de Carvalho

“A biblioteca imaginária é você fazer a lista de todos os livros que você vai ler pelo resto da sua vida. É claro que você não vai conseguir fazer uma lista completa; sempre vai ficar faltando livros, porque, para fazer a lista dos livros que você vai ler pelo resto da vida, você já precisaria saber os títulos deles, ou seja, já precisaria ter alguma informação sobre cada um desses livros, e essa informação você não tem. Frequentemente faltarão coisas, então você estará permanentemente completando isso.

Porém, você tem um certo universo de interesses, de áreas do conhecimento em que você pretende se desenvolver ou onde você tem algum enigma a resolver. De preferência escolha as suas áreas de conhecimento não pelo interesse superficial que tal ou qual disciplina ou arte lhe sugere, algo como “eu gosto de música, eu gosto de História”; não é assim. Parta das questões que realmente são importantes para você existencialmente, e essas questões vão lhe dar os nomes das disciplinas respectivas que as estudam, ou onde você pode encontrar alguma dica para elas. Trate de fazer com que o seu universo de estudo se expanda e se desenvolva precisamente no sentido em que a sua alma está se desenvolvendo, a sua verdadeira pessoa está se desenvolvendo, de modo que não haja esse abismo entre personalidade real e o universo intelectual – abismo que as escolas fomentam “até o último”; elas não só abrem o abismo como colocam um muro de chumbo entre uma coisa e a outra. Na medida em que colocam esse muro, essa separação, o efeito imediato é a estupidificação. Mais ainda, às vezes, essa estupidificação é exigida como prática disciplinar (eu não estou exagerando, isso não é caricatura).

Partindo das informações que você tem atualmente sobre livros que você não leu, mas que lhe parecem importantes, comece por fazer a lista deles, e por definir mais ou menos essas áreas de perplexidade, nas quais você precisa de auxílio para saber mais e poder resolver lá as suas dúvidas. Em seguida, você vai buscar as bibliografias essenciais dessas áreas. Hoje, na internet, você encontra bibliografia de praticamente tudo: existem bibliografias especializadas, publicações periódicas que atualizam a bibliografia. De início, claro, você ficará perdido em um mar de títulos, não só de livros, mas também de trabalhos acadêmicos ainda não publicados em livro. Para simplificar a coisa, eu sugiro que você pegue a bibliografia final da coleção dos “The Great Books of Western World”. Naqueles volumes introdutórios dos Great Books, chamado “The Great Conversation”, onde você tem o “The Great Ideas”, existe uma bibliografia final que são dos livros mais importantes que tratam daquelas questões que estão colocadas no índice do Great Ideas. Eu creio que dá mil e quinhentos, dois mil livros. Aquilo é um bom começo. Você vai ver que há áreas inteiras que não vão lhe interessar e que serão excluídas.

Em seguida, você vai procurar os livros que tratam da história dessas disciplinas. Por exemplo, se você se interessa por Ciências Sociais, Sociologia, então vai pegar uma História da Sociologia. Não precisa ler tudo, mas apenas pegar o nome dos autores e dos livros e ir completando a sua lista, como se você fosse comprar esses livros (imagine que você tem muito dinheiro e irá percorrer várias livrarias, compondo fisicamente a sua biblioteca). Claro que você vai passar o resto da sua vida compondo a sua biblioteca, como eu, que estou até hoje compondo a minha.

É muito importante você prestar atenção nos elementos conflitivos que existem já nessa seleção, porque cada autor de bibliografia, ou cada autor de história de uma disciplina, faz a seleção que a ele parece a certa, e às vezes pode fazer omissões medonhas. Onde houver essas dúvidas – onde o sujeito colocar no centro da história de uma disciplina determinado autor, e o outro nem mencionar o mesmo autor –, exatamente aí você tem uma preciosidade, porque neste ponto há um conflito de perspectivas. Esses conflitos sempre se travam em torno de elementos muito importantes dessas disciplinas. Em geral, o coração do problema está ali, naquilo que foi omitido por um e destacado por outro – aí você já sabe que tem algo de muito importante.

(…) Sem essa lista de livros que compõem a sua bibliografia, você nunca terá um senso de orientação nos seus estudos. Vá comprando os livros na medida em que for possível. Há livros que eu anotei um dia e comprei trinta ou quarenta anos depois, por uma questão de conveniência (o livro estava mais barato ou apareceu na minha frente). Mas, sem isto, você nunca terá orientação nenhuma nos estudos. Uma biblioteca imaginária é, praticamente, o começo de uma vida de estudos.

Essa biblioteca lhe dará uma outra coisa, que eu chamo “o repertório da ignorância”, ou seja, o que eu não sei, mas preciso saber. Se você sabe que não sabe algo, então algo a respeito você já sabe: o suficiente para saber que lhe faltam conhecimentos a respeito. Esse repertório da ignorância é precioso porque lhe permitirá fazer um esquema do que você precisa saber para resolver determinadas questões, quando for confrontado com elas.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 013, 04/07/2009.


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