As experiências da verdade – Olavo de Carvalho

“Vemos muitas discussões sobre o tema da verdade, sobretudo no confronto entre os relativistas e os que acreditam na existência de uma verdade objetiva que pode ser alcançada. Essas discussões todas só fazem mal para a cabeça. A verdade é um conceito tão importante, tão decisivo para nós, que perder tempo com essas polêmicas é um verdadeiro pecado. O que você tem de fazer é colocar o problema seriamente para si mesmo: fazer deste problema uma questão da sua orientação na vida e enfocá-lo com toda a responsabilidade possível.

O primeiro passo é se perguntar de onde esse conceito, essa ideia da verdade, chegou até você – qual foi a sua primeira experiência da verdade. É claro que todos os fatos que lhe chegaram, desde o seu nascimento, são todos verdadeiros. Porém, há um momento em que a ideia da verdade se diferencia, como uma espécie de um conhecimento especial, que tem uma acentuação e um valor maior do que o das meras percepções, ou das ideias ou sentimentos que lhe ocorrem; a verdade se diferencia da mera experiência. As experiências começam no instante em que você nasce, jamais param, nem mesmo quando você dorme, e estão continuamente fluindo e se acumulando, se mesclando. Todas elas são verdadeiras – não há dúvida de que existe verdade em todas elas. Mas há um momento em que determinada experiência adquire para você um valor especial, no sentido de que você não pode negá-la. Ou seja, a ideia da verdade vem junto com a ideia da negação. A verdade é aquilo que não pode ser negado.

Qual foi a primeira vez em que isso apareceu para você? Suponhamos que você esteja montando um quebra-cabeça e, depois de tentar várias peças, você vê que umas se encaixam, e outras, não, mesmo que você force. Ao encontrar a peça que se encaixa, isso tem para você um valor um pouco maior do que a mera experimentação das outras peças – você tentou várias, mas uma efetivamente se encaixava ali. Essa peça certa tem um valor especial, que aparece justamente no contraste com as outras peças que não se encaixavam.

Uma experiência tão elementar, até um rato de laboratório pode ter: aquele teste do rato diante de várias alavanquinhas, em que ele aperta uma, aperta outra, aperta outra, até que aperta uma e desce um queijo. Ele também tem a experiência e também retornará à mesma alavanquinha para obter novamente o queijo. Aquela alavanquinha adquire para ele um valor especial. Essa é uma experiência que nós temos. Num primeiro nível, nós tínhamos só o fluxo geral da experiência.

(…) Num segundo nível, você tem aquela experiência diferenciada, e percebe que ela vale um pouco mais do que as outras. Isso já é um componente que vai entrar na sua ideia da verdade. A partir do momento em que o ratinho aprendeu qual é a alavanca certa, ele já sabe que não adianta apertar as outras alavancas – ele pode até tentar, mas não vai dar em nada. Portanto, ele sabe que as coisas são de um certo modo e não são de outro – esse contraste já ficou bastante claro para ele. Até um animal bem burrinho como o rato consegue ter essa base inicial. Isso ainda não basta para compor a noção de verdade, mas é um dos seus elementos. Claro que o rato não chega com isso a adquirir a noção da verdade, mas ele tem um dos seus componentes, que é a distinção entre uma certa ação, ou uma certa experiência, que significa algo para ele, e outra que não significa a mesma coisa.

Essa experiência, no ser humano, não vem sozinha, mas acompanhada de uma segunda, que se superpõe a ela: agora ele sabe que sabe. Os animais não são capazes de fazer esse retorno – eles apenas sabem algo e são capazes de repetir. Tanto que, quando o sujeito aprende, por exemplo, qual é o circuito de ações que funcionam em um jogo, ele pode até se gabar de que sabe aquilo, enquanto o outro não sabe. Na hora em que ele percebe que sabe algo que o outro não sabe, ele já tem uma espécie de terceiro nível de valorização da experiência, que é totalmente inacessível ao animal.

Isso ainda não é a noção inteira da verdade, mas alguns de seus componentes. Primeiro, a experiência; segundo, a diferenciação (o valor maior de uma experiência comparada com outras); terceiro, a consciência de que você sabe. Nesses exemplos já aparece um elemento muito importante: a noção de que a verdade aparece em face de uma alternativa. Há sempre uma diferença; a verdade implica uma diferença em relação à experiência em geral (seja experiência externa ou interna). A verdade é um tipo de experiência que não é igual às outras, vale mais do que as outras e representa, conscientemente, uma certa aquisição de possibilidades de novas ações.

Quando o ratinho aprende a apertar a alavanca certa, ele aprende somente isso. Mas o ser humano, no instante em que aprende a mesma coisa – qual é a peça certa –, automaticamente percebe que esse mecanismo pode se repetir muitas vezes, em muitas outras situações. Por exemplo, ao jogar baralho, ele terá de jogar a carta certa; no xadrez, terá de colocar a peça no lugar certo, onde as coisas vão acontecer conforme ele espera, e não de outra maneira. Ou seja, a aquisição dessa primeira verdade elementar abre para o sujeito uma certa perspectiva. Mas a diferença maior desta experiência com as outras é o seguinte: esta aqui não pode ser negada. Se a peça certa é essa, você sabe que não adianta experimentar todas as outras. Um ratinho pode aprender facilmente a apertar a tecla certa para fazer cair o queijo, mas ele tem um número limitado de alternativas. E se ele tiver um quebra-cabeça com mil peças? O fato de acertar uma vez não vai ajudá-lo a acertar a peça seguinte, porque ela será diferente. Mas o ser humano, no instante em que acertou a primeira peça, percebeu a identidade de estrutura entre duas figuras (uma figura em alto relevo e outra em baixo relevo; uma figura positiva e outra negativa etc.). Ele sabe que essa regra se repetirá para todas as outras peças – a regra será a mesma, embora as peças sejam diferentes. Pode haver ainda mil peças a serem encaixadas; ele sabe que o que terá de procurar é o mesmo tipo de encaixe.

Então, nós temos essas duas características da verdade: primeiro, ela vem por contraste; segundo, ela nunca vem sozinha. Além, evidentemente, de ela ser uma coisa que você sabe que não adianta negar.

Mas a experiência efetiva da verdade, que vai lhe dar toda a dimensão do que está em jogo, não se trata nem de apertar uma alavanca, nem de encaixar uma peça num quebra-cabeça, mas de reconhecer aquilo que você mesmo fez ou pensou.

Por exemplo, aparece um móvel quebrado e sua mãe pergunta quem o quebrou. Você sabe que foi você (você pode até negar, mas só pode negar porque sabe que foi você). Neste caso, o indivíduo é confrontado com um passado que ele não pode mais apagar. Ele sabe perfeitamente que, se negá-lo, terá de criar um outro passado imaginário, saltando da mera função memorativa para a função imaginativa ou construtiva: terá de construir algo para encaixar no lugar que ele sabe ser o da verdade.

Essa é a experiência mais fundamental da verdade: a verdade como confissão (não precisa ser necessariamente confissão de uma coisa ruim). Essa experiência é extremamente valiosa porque só você sabe qual é a verdade, no caso. No exemplo do quebra-cabeça, ou das alavancas do ratinho, havia uma série de testemunhas externas (a própria peça testemunha se ela funciona ou não), de modo que a veracidade do que você está fazendo é atestada por um elemento externo. Mas, no caso presente, não.

Para a quase totalidade dos seres humanos, o problema da verdade surge neste momento. Esta é a experiência mais caracteristicamente humana da verdade: a verdade como oposta à mentira – não somente oposta a um erro. No caso do quebra-cabeça, quando você tenta encaixar a peça e ela não entra, há apenas um erro, não houve nenhuma mentira, não houve implicação moral alguma.

No momento em que você é confrontado com a situação de reconhecer o que você fez (ou pensou, ou quis), e tem de confessar isso ao menos para você mesmo, a verdade vem imediatamente carregada de um senso de responsabilidade (tanto maior porque só você sabe aquilo). Se você inventar uma historinha para colocar naquele lugar, você não terá falsificado somente a sua vida, mas toda a situação. Através da palavra, estará agindo sobre outras pessoas, criando uma situação imaginária, na qual os papéis correspondentes não serão desempenhados apenas por você mesmo: você cria um teatro e distribui novos papéis. Por exemplo, você diz que foi o gato que quebrou o móvel. Então o gato passou a ter uma função, a sua mãe já vai enxergá-lo de uma maneira diferente, e assim por diante.

Portanto, a experiência da verdade vem junto com a noção de que você pode mudar a situação. Ao mudá-la, você inaugura uma outra situação que não existia antes, inteiramente da sua invenção, e você terá de sustentá-la dali em diante. Mas se você confessa a verdade, o que acontece? Você encaixa a situação presente num passado que só você conhece, e que agora se torna de domínio público: os papéis não mudaram, nem as funções. Sua ação do momento é então reencaixada dentro de uma linha normal de tempo.

Essas primeiras experiências da verdade são o guia para que a questão da verdade possa ser abordada filosoficamente, sem perda e sem muitas alucinações lógicas – sem separar o que é a questão da verdade objetiva e o que é a questão da sinceridade. Nesta experiência, as duas coisas vêm ligadas: existe a verdade dos fatos que já se passaram e existe a verdade da sua declaração no momento. Une-se a verdade do passado com a sinceridade do presente. A sinceridade restabelece a linha do tempo, reencaixa o presente no tempo. Por outro lado, se você inventar uma situação nova, você terá inaugurado uma nova linha de temporalidade, que começa naquele mesmo instante.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 14, 11/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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