A lógica não é o instrumento certo para a investigação da verdade – Olavo de Carvalho

“Em geral, os filósofos (no sentido profissional da coisa) analisam a questão da verdade fazendo abstração do problema da sinceridade: eles querem resolver o problema da verdade em si – o problema teórico da verdade. Eu acredito que isso não é possível de maneira alguma. Por exemplo, na lógica analítica, há as tábuas de verdade, uma sequência de proposições expressas por símbolos – estas são verdadeiras; aquelas são falsas. Coloca-se um signo de verdadeiro aqui, um signo de falso ali. Tudo isso, evidentemente, são verdades hipotéticas, porque você pode preencher aquilo com afirmações que não se referem a nada. Por exemplo, quando se diz que A=A, você não precisa saber o que é A para saber que ele será igual a outro A.

Quando nós transferimos o problema da verdade para uma abordagem lógica, em vez de uma abordagem descritiva como a que eu estou usando, nós automaticamente fugimos do problema, porque lógica nunca se refere à realidade. A lógica é uma articulação de relações possíveis entre conceitos, ou proposições, ou até entre signos, como se fosse uma regra do jogo, e essa regra do jogo funcionará igualzinho se você preenchê-la com referências verdadeiras, factuais, ou se você a preencher com conteúdos completamente imaginários. De cara, nós vemos que a lógica não é o instrumento certo para a investigação da verdade e, sobretudo, para a sondagem do próprio conceito de verdade. Em lógica é considerado verdade aquilo que é confirmado por uma proposição anterior. Se eu partir da proposição, por exemplo, de que “todos os elefantes são verdes”, eu naturalmente terei de excluir da categoria de elefante todos os que forem cinzentos, pretos etc. Logicamente isso não vai fazer a menor diferença. Portanto, a análise lógica dos conceitos não nos levará a absolutamente nada.

Para que exista um conceito da verdade lógica, é necessário que exista um conceito da verdade efetiva – e nós não vamos ainda chamá-la de verdade ontológica, porque esta se refere ao ser em geral, o que também é secundário em relação a essa primeira experiência da verdade. Nessa primeira experiência, quando a noção da verdade do fato aparece articulada com a noção da sinceridade, o que é essa sinceridade? É a veracidade da ação atual. Ao reconhecer que foi você que fez isso ou aquilo, você não está apenas afirmando verbalmente uma verdade passada; você está praticando uma ação que o torna verdadeiro naquele instante. Portanto, você não tem aí uma verdade, mas duas. A sinceridade é o que coloca você, o seu desempenho atual, dentro do quadro real que já foi determinado pelas ações passadas. É por isso que eu considero a sinceridade como um elemento vital na busca da verdade, porque essa busca mesma pode ser falsificada, pode se tornar uma mera especulação lógica, e daí nós automaticamente perdemos a noção da verdade.

A maior parte das pessoas desiste de conhecer a verdade, chegando até a desenvolver crenças relativistas ou cépticas, porque jamais fizeram um esforço sério de buscar a verdade no que quer que fosse, e porque tudo o que elas dizem a respeito da verdade refere-se somente ao conceito genérico de verdade, e não de verdades específicas e concretas que elas conheçam. Ora, o que significa um conceito genérico que não tenha ligação com as suas espécies concretas que o manifestam? Não significa nada, é apenas uma palavra. A tal da verdade, que as pessoas não podem encontrar nem conhecer, é uma coisa inexistente mesmo. O que essas pessoas estão procurando é uma verdade genérica que seja verdadeira independentemente da sua conexão ou não com o mundo da experiência real. Uma verdade assim não pode existir – quando elas dizem que a verdade não existe, têm toda razão.

Por exemplo, diante das discussões sobre as questões últimas – qual é o sentido da vida, se Deus existe, se existe vida após a morte –, a pergunta a fazer é a seguinte: qual é a base de experiência real de que você dispõe para investigar essas perguntas? Se é nenhuma, então você só pode fazer uma investigação lógica. Numa investigação lógica, você vai discutir estruturas de possibilidades, e não mais a realidade. Uma possibilidade ser verdadeira não quer dizer que ela seja verdadeira fora do plano da lógica, verdadeira na realidade da experiência. Então, o que esses indivíduos fazem é saltar de uma discussão para outra – é o que Edmund Husserl chamava de metabasis eis allo genos, a passagem para outro gênero (você está discutindo coisas de um gênero e, sub-repticiamente, troca de gênero). Você estava discutindo a verdade e agora está discutindo a coerência entre possibilidades, porque a lógica só trata disso. Feita uma primeira afirmação de que A=B, lá para diante você tira uma dedução complexa, que tem de ser justificada por aquela primeira, tem de ser coerente (coerente quer dizer colado; uma coisa está colada na outra e não dá para separar). A lógica busca apenas coerência, coesão do discurso, independentemente de qual seja o objeto do discurso.

Mas, quando nós nos colocamos o problema da verdade, ela é tomada como objeto real da nossa experiência, como algo que nós podemos ou não podemos conhecer – e conhecer não hipoteticamente, mas realmente. Como aquilo que é lógico só discute o possível e o hipotético, não adianta nada resolver o problema da verdade na esfera lógica – isso não responde à nossa questão. Mesmo o sujeito mais cético, que duvida completamente da possibilidade de conhecer a verdade, conhece um monte de verdades que ele jamais pensaria em negar. Por exemplo, se ele acabou de dizer que não existe verdade, você pergunta para ele: “Você disse que não existe verdade, ou você não disse?” E ele dirá: “Eu disse.” Se ele disser “Eu não disse”, então acabou a discussão, não há mais problema. “Você disse verdadeiramente que não existe a verdade? Mas se não existe verdade alguma, meu filho, se nenhuma verdade é cognoscível, então você não pode saber o que acabou de dizer.” Então, para escapar de todos esses dilemas cépticos e relativistas, você só tem de fazer uma operação muito simples: tem de sair do plano do discurso hipotético, do discurso lógico, e voltar para a situação real, onde o discurso está se desenrolando.

Quando Aristóteles criou a ciência da lógica, ele pretendia que a lógica se aplicasse à realidade. Houve gente suficientemente burra para dizer que a lógica de Aristóteles é apenas uma extrapolação de conceitos gramaticais – Aristóteles teria pegado a estrutura da linguagem e transposto para o pensamento em geral. Essas pessoas não sabem que a ciência da gramática não existia nos tempos de Aristóteles, só começou cem anos depois, então ele não teria uma gramática da qual pudesse tirar os conceitos para aplicar à lógica.

Aristóteles tirou a lógica do estudo das espécies animais, no momento em que tentava classificá-los segundo as suas várias aparências, sua estrutura anatômica etc. Ele inventou a anatomia comparada. No instante em que tentava descobrir o parentesco entre os animais, Aristóteles já tinha ali o problema das categorias: como é que eu vou classificar? Com base em quê eu vou classificar? Se, ao observar um animal, eu olho a cor da sua pele, e, ao observar um outro, eu observo o seu tamanho, eu não posso compará-los. A comparação tem de ser feita com base em caraterísticas unitárias: o mesmo aspecto deve ser olhado neste e naquele animal. Mais ainda: um aspecto separado não basta; você tem de ver um aspecto e a articulação dos vários aspectos, e daí você pega a estrutura inteira aqui e compara com outra estrutura inteira lá.

Foi fazendo isso, e tentando sistematizar o que ele mesmo estava fazendo, que Aristóteles criou a lógica. Ele não a criou como um mero jogo formal – embora ela seja um jogo formal –, mas como um instrumento de verificação, de averiguação, porque, das observações que ele ia fazendo, ele deduzia várias afirmações, e era necessário que o discurso sobre essas várias observações tivesse a mesma coesão que o objeto observado tinha. Portanto, a lógica foi criada como um instrumento de verificação, e não de descoberta – Aristóteles mesmo diz que a lógica não descobre nada. A coerência do discurso era uma expressão simbólica da unidade do próprio real. Se ele estava observando, por exemplo, o desenvolvimento do embrião de um gato, quando ele chegasse à sentença nº 605, ela tinha de ter uma coerência lógica com o que fora dito antes, porque o objeto observado era o mesmo. Isso quer dizer que a unidade, a coerência do discurso expressava para Aristóteles a unidade e a densidade do próprio real.

Muito mais tarde, passados mais de 10 séculos, o pessoal inventa a lógica dos sinais, que já não é mais uma lógica de conceitos que se referem a coisas. Eles perceberam que a lógica tem uma estrutura própria, regras próprias, independentes do objeto observado, do qual se está falando. Não que Aristóteles não tivesse observado isso, mas isso não lhe interessava. Ele sabia perfeitamente que a ciência da lógica poderia ser descrita inteiramente como um conjunto de regras sem qualquer referência à realidade externa, mas ele estava interessado em desenvolver uma técnica de discurso que permitisse manter a coerência naquilo que ele estava falando sobre a realidade, e não sobre qualquer coisa – se não, ele estaria fazendo apenas um jogo.

Já a lógica dos sinais é apenas um jogo. Esse jogo funciona igualzinho à lógica de Aristóteles, só que a atenção se dirige a um outro ponto. Num caso, você está falando da coerência do discurso sobre a realidade – discurso este que só pode ser conferido com a realidade se também puder ser conferido com ele mesmo (se o discurso for auto-contraditório, ele nada diz sobre a realidade). Só o discurso coerente é que pode ser conferido com a realidade para saber se é verdadeiro ou falso; se ele for incoerente, não diz nada, então não pode ser verificado. O que interessava a Aristóteles é precisamente a verificação: conferir a relação entre discurso e realidade.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 014, 11/07/2009.


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