A relação que se coloca entre lógica e experiência – Olavo de Carvalho

“No instante em que você admite ter feito o que fez, você cria uma relação lógica de causa e efeito – a cadeira está quebrada porque eu a quebrei. Essa relação lógica imita, por sua vez, a sequência temporal real. Note que você não pode reproduzir a sequência inteira, porque todo ato humano, o mais simples que seja, se compõe de uma infinidade de percepções e não dá para contar todas elas. Então você reduz a complexidade do ato ao esquema de causa e efeito: houve um agente (sou eu), uma ação e uma consequência da ação. Você esquematiza logicamente a coisa e essa esquematização corresponde à sequência temporal real.

Ao fazer isso, você está praticando um novo ato, que rearticula a situação presente com a situação passada, dentro de uma sequência real. Portanto, você tem: (a) a verdade esquemática da relação de causa e efeito; (b) a verdade temporal da sucessão dos atos; (c) a verdade da sua declaração no momento, pela qual você assume um papel verdadeiro numa nova situação. É esse papel verdadeiro que permite que você compreenda a realidade do que foi antes. Se você decidir inventar uma outra história, vai ter de criar uma nova estrutura, uma nova temporalidade hipotética, e terá de agir de acordo com essa temporalidade hipotética, de acordo com esse teatro que você concebeu. Esse teatro, como é inventado por você mesmo, é incompleto e esquemático, não tem todos os elementos que existem no mundo real, mas só aqueles que você selecionou. Você não pode viver dentro dele; só pode simulá-lo em certos momentos. Para poder continuar a simulá-lo, você precisa saber que ele é simulado, e assim por diante. A mentira criaria toda uma situação psicológica complexa que você teria de sustentar com novas mentiras, novos fingimentos etc., e no fim você acabaria se desmoralizando de alguma maneira.

Aristóteles inventou a ciência da lógica com o propósito de que ela pudesse expressar as relações entre formas inteligíveis reais. Isso significa que não há separação entre essa lógica – esse conjunto de discursos lógicos – e o mundo real no qual esses próprios discursos são elaborados. Portanto, se você aplicar os conceitos básicos da lógica de Aristóteles à própria lógica de Aristóteles, eles funcionam. Notem que uma coisa é a estrutura interna da lógica de Aristóteles – a lógica considerada como um conjunto de regras –; outra coisa é a lógica de Aristóteles considerada como algo que um sujeito criou na realidade – a lógica como sequência de atos biograficamente realizados por Aristóteles. Isso quer dizer que ele pode criar um discurso lógico a respeito da própria sequência de atos com que ele concebeu a lógica.

Já a lógica dos sinais, que começa mais ou menos com Pedro Abelardo, tem de ser considerada como um universo em si, separado e sem relação com o mundo real. Se você aplicar a lógica dos sinais aos atos que o próprio inventor da lógica dos sinais praticou para inventá-la, você chega a contradições. Então, qual passa a ser a preocupação do lógico dos sinais? Evitar que suas ações reais sejam examinadas pela mesma lógica que ele inventou. É o mesmo caso do sujeito que diz que nós não podemos conhecer nenhuma realidade. Daí você pergunta para ele: “Você disse isso realmente? Você disso isso verdadeiramente? Você quer que eu acredite que você disse isso?” Daí ele vai dizer: “Não, não é isso que está em questão.” Por quê? Porque a análise lógica que ele está fazendo se coloca num plano específico que só vale para ela mesma. É aí que começa toda a paralaxe cognitiva.

Quando eu digo que existe uma relação intrínseca entre o conhecimento da verdade e a sinceridade, eu estou dizendo que a mesma armadura lógica que você usou para contar os fatos transcorridos antes é a que se aplica ao fato que está ocorrendo agora. Para você reconhecer um simples ato anterior que você praticou, e para confessá-lo, você tem de, no mesmo ato, afirmar a unidade do real, a unidade da sequência temporal e a inseparabilidade das causas e efeitos. Portanto, o ato da sinceridade, o ato do reconhecimento sincero, não só coloca você numa posição real em relação ao seu próprio passado e em relação à pessoa com quem você está falando, mas reafirma a unidade de tudo isso.

Para você reconhecer o que fez, tem de reconhecer também: (a) o que está fazendo agora; (b) a realidade da pessoa que está presente, fazendo-lhe a pergunta; (c) a relação entre você e o seu ato; (d) a relação entre o seu passado e o seu presente; (e) a relação entre o seu presente e o seu futuro, que é a resposta, a reação que você espera dessa pessoa. Você articula tudo isso. Mas teve de articular mentalmente? Teve de inventar isso? Não, não teve de inventar nada. Você teve de pensar tudo isso? Não. Conscientemente, você só lembrou do ato passado e o falou – e você não poderia fazer isso sem automaticamente afirmar a unidade daquilo tudo. Assim, você se colocou dentro de um conjunto de relações que não foi criado na sua mente, mas que se impôs a você como realidade da sua vida. Esse é o único método de investigar a verdade. Se você, ao investigar a verdade, começa a transformá-la num conceito abstrato e a trabalhar com ela separadamente do elemento de sinceridade, do tecido de relações com a sua experiência, você não está falando da verdade, mas apenas do conceito da verdade.

Esse conceito, por sua vez, adquire uma espécie de independência em relação à experiência real. Quando você diz que está procurando a verdade, mas determina que ela é uma verdade separada da experiência, você já está dizendo, neste ato, que ela é incognoscível – daí você não a encontra e conclui que não existe verdade nenhuma! Realmente, essa verdade, tal como você a concebeu, não pode existir mesmo. Se você está procurando a verdade e, ao mesmo tempo, a separa do tecido real da experiência, é claro que você não poderá encontrá-la. Você fez aí uma espécie de armadilha e se prendeu dentro dela: você se colocou uma questão impossível e, não encontrando a resposta, diz: “Não se pode encontrar verdade nenhuma.” Não, essa verdade que você está procurando não existe, mas talvez alguma outra exista.


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 14, 11/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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