A maneira correta de investigar o problema da verdade – Olavo de Carvalho

“Qual é a maneira correta de investigar o problema da verdade? É rastrear como a noção da verdade passou a existir para você. Talvez você não chegue a um conceito da verdade, mas terá uma noção suficientemente clara para poder reconhecê-la, quando ela se apresentar de novo. É isso aí que eu chamo de método da confissão. A confissão começa pelo procedimento oposto àquele que se tornou comum depois de René Descartes: em vez de colocar tudo em dúvida, você vai começar por reconhecer o que você já sabe e o que não pode deixar de saber para poder colocar essa questão que você está colocando.

Descartes estava procurando uma afirmação que fosse verdadeira em todas as circunstâncias. Se é verdadeira em todas as circunstâncias, então não depende de nenhuma delas – era isso o que ele estava procurando. Mas nós não estamos procurando uma afirmação, um juízo. Nós estamos procurando lançar luz sobre a nossa experiência real; procurando elucidar para nós mesmos o que de fato aconteceu. Descartes, quando busca essa sentença infalível, de certo modo tenta isolá-la de todas as outras, isto é, uma sentença que não depende de mais nenhuma outra. Então ela chega à conclusão: “Eu penso, logo existo. Todas as vezes que eu penso isso, isso é verdade. Ou seja, se não existisse mais nada além de mim mesmo pensando, isso continuaria sendo verdade; e se eu jamais tivesse pensado, isso continuaria sendo verdade, porque, quando eu pensasse a primeira vez, eu existiria.” É isso o que ele está procurando: uma verdade totalmente independente de qualquer condição externa.

Não é isso o que nós estamos procurando. O que nós procuramos é a inserção da nossa própria investigação da verdade no tecido real da experiência, que nos sugeriu esse problema. Estamos vendo de onde surgiu o problema da verdade para nós e como é que nós entramos nele. Assim, pode ser que não obtenhamos uma sentença, uma proposição tão bonitinha quanto a de Descartes. Mas a frase que ele disse, “Penso, logo existo; esta frase é verdadeira todas as vezes que eu a penso”, é absolutamente vazia. É independente até de o sujeito pensar. Se nunca ninguém tivesse pensado nada, a frase continuaria verdadeira. O que Descartes conseguiu com isso? Ele arrumou uma frase. Depois de todo esse esforço, ele conseguiu uma frase. E, para obter essa frase, ele começou por falsificar a experiência.

Eu já analisei, nos escritos “Conhecimento e Estranhamento” e “Descartes e a Psicologia da Dúvida”, por que a narrativa que Descartes faz da sua própria experiência não pode ser verdadeira. Ele não pode ter feito a experiência como disse que fez. Então, para chegar a uma proposição universalmente válida, ele teve de falsear os dados. Mas isso é filosofia?

Aristóteles, quando inventou a ciência da lógica, teve a preocupação de que ela não fosse um esquema verbal totalmente independente da realidade, mas a expressão formal de relações abstraídas da própria realidade, de modo que, do discurso lógico, se pudesse retornar à experiência – o que é a base mesma de tudo o que nós entendemos como ciência. No outro extremo, depois de passados dois mil e duzentos anos, já no ano 1800, Hegel vai dizer que a capacidade cognitiva mais fundamental que o ser humano possui é a de se isolar de toda a realidade existente, de todo o dado, e concentrar-se apenas nas relações lógicas que estão no seu pensamento: abstrair o mundo. Na hora em que você abstrai o mundo, diz ele, você sobe para a esfera da universalidade, porque não estará mais dependendo do fluxo das experiências, passando a se mover agora na esfera do universal absoluto e incondicional.

Tudo isso é verdade, mas esse incondicional é puramente hipotético, não tem conteúdo nenhum. O método que Hegel considera certo para investigar a verdade é um método que só serve para  investigar a armadura lógica, não das coisas, mas do próprio discurso. E você não pode ter nenhuma certeza de que esse discurso tem alguma coisa a ver com a realidade. O que Hegel propõe é a total ruptura com aquele mesmo universo que Aristóteles pretendia entender. 


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 014, 11/07/2009.


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