O mundo humano é mais facilmente cognoscível por nós do que a natureza – Olavo de Carvalho

“Quando a Europa inteira estava brincando com esse negócio de construir estruturas racionalistas, tinha um sujeito totalmente desconhecido na Itália, um camarada chamado Giambattista Vico, que dizia o seguinte: “Nós só conhecemos perfeitamente aquilo que nós mesmos fizemos. Nós não podemos conhecer o mundo da natureza perfeitamente, porque não fomos nós que o fizemos, mas podemos conhecer o mundo da alma humana, o mundo da história humana, o mundo da sociedade. Por quê? Porque nós mesmos os fizemos.”

Então, esse conhecimento vem antes do outro. É incrível, porque hoje em dia todo mundo acredita que existe um conhecimento objetivo das ciências naturais, onde a verdade é muito fácil de alcançar, e existe um outro mundo, duvidoso, nebuloso, que é o mundo da sociedade humana. Isso é totalmente esquizofrênico! É claro que é muito mais fácil compreender ações humanas do que compreender a natureza. Acontece que faz muitos séculos que a ciência não se ocupa em compreender a natureza, mas apenas em observar certas relações mensuráveis e compará-las com outras relações mensuráveis. Com a finalidade de quê? De compreendê-la? Não; de operá-la tecnicamente – é o que Bertrand Russell chamava de “a verdade técnica”. Russell, expressando muito corretamente, diz que, desde a Renascença, o que nós entendemos por verdade não é o que as coisas são, mas aquilo que nos permite operá-las de uma certa maneira.

Mas, quando você descobre ser possível fazer uma certa operação técnica sobre um certo objeto, você só descobriu uma única coisa a respeito dele, e essa coisa não diz respeito a ele, mas às ações que você pode fazer com ele. Ora, qualquer objeto do mundo pode ser objeto de infinitas ações humanas. Por exemplo, o porco: você pode matá-lo e comê-lo, ou você pode criá-lo como se fosse um cachorro de estimação. São ações completamente diferentes. Mais ainda: a capacidade que você tem de transformar os dados da natureza revela sempre um potencial que esses objetos têm, mas esse potencial pode não ser o principal. Você nunca sabe se o que você está observando da natureza pelos métodos da ciência moderna é importante ou não na estrutura geral da natureza. É impossível saber isso por esses métodos. Ou seja, a característica fundamental da ciência moderna é ter desistido de compreender a realidade e passado a encarar todo o conjunto da realidade apenas como um conjunto de possibilidades de ação técnica sobre a natureza. É claro que, quando você ajuntar centena de possibilidades de ação técnica sobre tal ou qual coisa, talvez você conheça algo sobre ela. Mas essa centena de possibilidades vindas de várias ciências diferentes é inarticulável.

Todo o conceito moderno de conhecimento não é propriamente conhecimento; é uma outra coisa. Não quer dizer que não tenha o seu valor. Se tem um sujeito que gosta de tecnologia, que aprecia tecnologia, sou eu. Mas eu sei que a tecnologia não é um conhecimento dos objetos; é o conhecimento de possibilidades de ação humana sobre esses objetos.

A impressão que nós temos de que a natureza é um conjunto de dados objetivos e que o mundo humano é uma confusão, uma névoa total, é uma exata inversão da realidade. Mesmo porque, o que a ciência conhece da natureza são as possibilidades de ação humana sobre esses objetos. Em toda essa tecnologia, nós estamos conhecendo o quê? O ser humano – mais o ser humano do que o objeto sobre o qual incide a ação dele. O simples fato de existir tecnologia, de nós podermos estudá-la, mostra uma quantidade imensa de processos de ação humana que são perfeitamente cognoscíveis – para você obter o efeito “x”, você tem de fazer isso, mais isso, mais isso e mais isso. Tudo isso é o que? É ação humana.

De certo modo, a ciência foi na direção exatamente oposta ao que dizia Giambattista Vico, mas acabou confirmando o que ele disse. O mundo humano é mais facilmente cognoscível por nós do que a natureza. Porém, você pode encobrir a natureza com a rede das relações técnicas que você mesmo criou em cima dela e achar que uma coisa é a outra. Mas quando você faz isso, a própria visão do mundo humano se torna falseada. Por quê? Você acredita que a ação humana se desenrola em cima de algo chamado natureza, mas isso que você chama de natureza já é ação humana. Então o que é a natureza, tal como a ciência moderna a concebe? Ela é uma espécie de golem. Golem é aquele boneco de barro da lenda judaica – o sujeito constrói um boneco de barro, fala as palavras mágicas, o boneco adquire vida e começava a bater nele. A natureza é um golem. A concepção científica da natureza é constituída de uma rede de ações humanas possíveis em cima dessa natureza – isso não é a natureza. A natureza para nós se tornou realmente um enigma, um enigma tão grande que nós sequer nos damos o trabalho de estudá-lo. Mas como a nossa concepção da sociedade humana é construída em cima dessa ideia substitutiva de natureza, a concepção que nós temos da sociedade fica também falseada, porque de fato não é na natureza, tal como a descreve a ciência, que se desenrola a vida humana; é na natureza real, anterior à descrição científica.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 14, 11/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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