A passagem do mundo medieval para o chamado mundo moderno – Olavo de Carvalho

“A passagem do mundo medieval para o chamado mundo moderno é quase que universalmente, ou popularmente, descrito como a passagem de um universo regido pela fé, misticismo e princípio de autoridade para um novo mundo regido pela razão, pela ciência, pelo conhecimento experimental dos fatos e pela análise crítica. Isso aí chega ao cúmulo no Iluminismo, que Kant define como “o fim da servidão humana”, quer dizer, o ser humano não tem de seguir nenhuma autoridade: ele tem de usar a sua própria razão, tem de se libertar do jugo da autoridade e ousar usar a sua própria inteligência para compreender o mundo real.

Essa imagem vem associada a uma série de corolários. Corolário número um: a emancipação em relação à autoridade era também a inauguração de uma época de liberdade civil – direitos humanos, governo constitucional etc. Segundo: a libertação não era somente civil e política, mas era uma libertação intelectual e espiritual. Todos os seres humanos agora despertavam para o uso da razão e, portanto, chegavam ao que Kant chamava “maturidade”. Ele diz que a imaturidade é se submeter voluntariamente a uma autoridade, não por incapacidade, mas por covardia. E, em terceiro lugar: a emancipação do homem não seria apenas civil, política, intelectual e espiritualmente, mas uma libertação do jugo da própria natureza, porque aumentaria o poder do homem sobre ela e nós estaríamos então livres de processos naturais que nos oprimem, que seriam agora por nós manipulados e usados em nosso próprio proveito. Essas são as três promessas do Iluminismo.

É claro que as três promessas não se cumpriram. Em vez de um mundo de liberdade civil, houve uma sequência de guerras, revoluções e tiranias opressivas que seriam inimagináveis para um homem do ano 1.000. Se você dissesse para um homem do ano 1.000, por exemplo, que o governo controlaria as pessoas à distância, como hoje acontece – você põe um satélite e ele observa tudo o que você está fazendo dentro da sua casa –, ele ficaria aterrorizado, morreria de susto. Isso lhe pareceria tão horrível, que era impensável. Se você dissesse até a um camarada do Iluminismo que, dali a cem anos, o governo ficaria sabendo de tudo o que ele comprasse e vendesse; que ele não poderia ter dinheiro guardado em casa, o burguês que fez a revolução iluminista ficaria horrorizado. No entanto, isso aconteceu.

Quanto ao famoso controle humano sobre a natureza: as pessoas dizem que o homem aumentou seu poder sobre ela. Mas que homem, cara pálida? Eu? Não, o que aumentou foi o poder de uns homens sobre outros homens. É claro: o aumento do poder sobre a natureza supõe uma organização hierárquica das ações humanas, em que nem todos podem participar no mesmo nível. Nem todos os seres humanos podem construir um satélite para observar os outros seres humanos, mas alguns podem. Aumentou o poder do homem sobre a natureza? Não, aumentou o poder de uns homens sobre outros, eliminando, portanto, as duas promessas anteriores.

Por fim, a ideia de que haveria um florescimento extraordinário da inteligência e da consciência humana… Vendo do ponto de vista de hoje – essas massas totalmente estupidificadas pedindo para ser enganadas o tempo todo –, percebe-se que o tiro saiu pela culatra. Mas se essas três coisas saíram pela culatra, se essas três expectativas deram errado, é porque a própria autodefinição da nova época, a autodefinição da nova fé, estava falsa. Essa ideia de que nós passamos de um período de fé, misticismo e autoridade para um período de razão, ciência e análise crítica, é apenas figura de linguagem, é um estereótipo. Não correspondeu à realidade.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 014, 11/07/2009.


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