No surgimento da cultura chamada moderna, o que se vê inicialmente não é o florescimento das ciências, mas do ocultismo – Olavo de Carvalho

“No surgimento da cultura chamada moderna, o que se vê inicialmente não é o florescimento das ciências, mas do ocultismo. Os séculos XVI e XVII são a época da astrologia e da alquimia. A maior parte dos livros que nós conhecemos sobre astrologia, os seus grandes clássicos, surgem nessa época. Os astrólogos, alquimistas e magos passaram a ter uma importância extraordinária como conselheiros dos príncipes, da nova classe governante.

Qual era a relação entre a cultura letrada, a cultura dos intelectuais, e a cultura mais popular, durante a Idade Média e nos primeiros séculos da Idade Moderna? Lendo o que os grandes filósofos escolásticos escreveram sobre os assuntos que mais tarde seriam chamados de ocultismo – como a astrologia, a alquimia etc. –, você percebe que eles faziam esforço miserável para inserir tudo isso dentro de um edifício racional de conhecimento, separando, portanto, o que pudesse haver ali de mero resíduo tradicional, lendário e folclórico, do que pudesse haver de conteúdo fático racionalmente admissível.

Por exemplo, na Suma contra os Gentios, S. Tomás de Aquino faz a sua famosa análise crítica da astrologia. Ele começa por dizer que tudo o que se move na terra é movido desde os astros. Porém, os astros são corpos, e um corpo só pode mover outra coisa que é corpo. Então ele diz que, se existe alguma influência dos astros na conduta humana, não pode ser uma ação direta sobre a alma humana: um astro não pode influenciar a alma humana. Mas pode, através da conformação do corpo, criar certas propensões e limitações. Ele diz que, como a maior parte das pessoas são de fato movidas por paixões corporais, é possível que, dada uma certa configuração astral, você possa prever, grosso modo, a conduta do sujeito. S. Tomás não teve tempo de prosseguir esse estudo, mas colocou os princípios de um teste científico da astrologia. Ele não diz nem que sim nem que não: ele articulou o problema cientificamente.

Quando começa, no século XVI, o florescimento da astrologia moderna, não se vê mais nada disso. A coisa se espalha como um rastilho de pólvora para tudo quanto é lado – todo mundo querendo ler seu mapa astrológico, e as pessoas acreditando naquilo integralmente, ao ponto de astrólogos como Robert Fludd, John Dee, Morin de Villefranche, terem posições privilegiadas na corte, ocupando o lugar que, em outras épocas, teria sido do conselheiro eclesiástico. Mais ainda: a discussão sobre a astrologia assume imediatamente um tom polêmico, passional: há um “a favor” e um “contra”, coisa que não existia antes.

(…) Portanto, a alta cultura da Idade Média, embora tendo absorvido todas aquelas concepções astrais que vinham das antigas civilizações cosmológicas, nem as aceitaram, nem as rejeitaram, mas trataram de elaborá-las intelectualmente num nível que nunca mais seria alcançado até o século XX.

(…) Nos séculos XVI e XVII, é loucura geral. Essa loucura chega a um tal ponto que, por volta de 1.680, as universidades são obrigadas a parar com a bagunça e, então, simultaneamente, a Sorbonne e a Universidade de Oxford excluem a astrologia do ensino e fazem declarações contra. Aí ficou proibido. É aquele negócio: quando o sujeito começa delirar muito, às vezes tem de tomar uma atitude repressiva para simplesmente devolver o camarada à realidade. Mas é claro que nisso houve uma perda formidável, porque a partir daí as atitudes com relação à astrologia se tornaram cada vez mais irracionais, extremadas e polêmicas, e nunca mais houve sossego para investigar a coisa com seriedade.

A mesma coisa com relação à magia, experimentos místicos etc. Houve um florescimento monstruoso disso no início da modernidade. Desse mesmo florescimento surgem as principais ideias da ciência moderna, inclusive a ideia de matematização, que é tirada exatamente daí.

E, quando a matematização está andando mais ou menos bem, só ela passa a valer, proíbe-se o resto. Mas proíbe-se o resto?! Quando nós observamos todos os personagens que historicamente criaram as novas tendências políticas da modernidade (fizeram a Revolução Francesa, impuseram a ciência dita materialista aqui e ali), eram todos maçons. O que é a maçonaria? É uma organização esotérica, cheia de ritos e símbolos puramente mágicos. Então, o que aconteceu foi que, a partir daí, passou a haver duas ciências: uma para apresentar ao público, outra para se discutir na loja maçônica. Uma série de problemas não podiam mais ser abordados objetivamente, porque existe o compromisso do segredo, a linguagem dupla, a paralaxe cognitiva – uma confusão dos demônios. É isso que é a modernidade; não é o reino da razão.

De umas décadas para cá, todo esse pessoal das ciências humanas – historiadores, sociólogos – descobriu que existe esse negócio de magia, de alquimia etc., e começaram a estudar isso historicamente. São milhares e milhares de livros. Ótimo, porque graças a eles – por exemplo, Frances Yates – nós podemos saber a importância imensa desse aporte maçônico na criação de todo o mundo moderno.. Hoje em dia não dá mais para disfarçar.

Quando começaram a publicar essas coisas, teve gente que achou ruim, dizendo que não era para mexer nisso, que era entrar no irracional. Mas nós precisamos saber como a história foi. Se você está tapando os olhos, aí é que você entra no irracional. Hoje a função das sociedades secretas é algo bastante estudado. Mas há um problema… Para fazer essa pesquisa da mente revolucionária, eu li livros e mais livros sobre magia na Idade Média, magia na Renascença, magia no Iluminismo, alquimia etc., e vi que tudo isso é tratado como se esses elementos fossem criações culturais de uma outra época. Eu nunca vi um sujeito que dissesse: “Para estudar a alquimia no século XVIII, eu preciso ver algum alquimista operando agora”, ou “Para estudar a magia, eu preciso estudar algo desses fenômenos metapsíquicos e parapsicológicos”. Curioso, esses estudos existem também. Nas faculdades de medicina ou de psicologia tem gente estudando esses fenômenos direitinho, mas não há a menor ligação entre eles e o pessoal da história e das ciências humanas.

Mas que magia é essa da qual eles estão contando a história, se eles nunca viram um sujeito praticando magia? Eles dizem: “Ah, as pessoas do século XVI acreditavam que acontecia isso assim, assim e assim”. Eu pergunto: Você sabe se isso acontece ou não? Você testou? Você não é um iluminista kantiano, que tem de testar tudo? Ou seja, cria-se também na dimensão da história e das ciências humanas um mundo fictício; transforma-se tudo aquilo que aconteceu no passado em crenças; coloca-se entre parênteses a relação entre essas crenças e a realidade concreta.

Existem várias sentenças dos Papas dizendo que magia é eficaz – ela é condenável, é errada, é pecaminosa, mas funciona. Não toda magia, evidentemente – tem um bando de charlatões também. Mas se nenhuma operação mágica jamais funcionasse, a sobrevivência de civilizações inteiras, inclusive a civilização moderna da Renascença, seria inexplicável. Se todo mundo só acreditava em besteira, e nós só passamos a descobrir a realidade agora, graças aos historiadores do século XX, então é um descompasso muito grande: todos estavam fora da realidade, até que chegou você, estudou história e descobriu tudo o que se passou. Isso é uma hipótese tão louca que não merece ser levada em consideração.

Desde o início, quando eu comecei a estudar esse assunto, eu sabia que precisava articular uma coisa com a outra. Se eu nunca vi um alquimista fazendo as coisas no laboratório dele, se eu não sei como eles fazem, como é que eu vou estudar a alquimia do século XVI? É uma coisa inteiramente absurda. Se você não tem nenhum conhecimento da matéria, você não pode ter conhecimento também da história dessa matéria, não pode entendê-la. É o mesmo que estudar a história da criação de cachorros sem saber o que é um cachorro. No entanto, isso é regra geral. Eu jamais encontrei um único historiador do período, incluindo Frances Yates, que pensasse: “Eu tenho de ler uns livros de parapsicologia, porque os caras estão estudando esse negócio hoje. Muitas coisas que eu acredito serem criações culturais e arbitrariedades da mente humana, podem não ser – às vezes são fatos da ordem física, de uma ordem física sutil”.

Por exemplo, o famoso experimento de Kervran. Kervran foi um cientista que descobriu que, em regiões onde não existe cálcio, os criadores de galinha têm um problema: sem cálcio, a galinha não pode fazer ovo. No entanto, as galinhas das regiões onde não existe cálcio produzem ovos tão bons quanto as de qualquer outro lugar. O que ele descobriu? As galinhas comiam coisas que tinham sílica e seu organismo transformava a sílica em cálcio. Então ele disse: “Epa, isso aí é transmutação da matéria. As galinhas são alquimistas!” Ora, se uma galinha pode transformar sílica em cálcio, um alquimista, um Isaac Newton, talvez seja capaz de fazer algo melhor. O que tem de errado nisso?

Lord Keynes, o economista, escreveu um brilhante trabalho sobre Newton. Ele era um homem muito rico, comprou os manuscritos de Newton em um leilão e foi ler. Daí ele viu que Isaac Newton praticamente só tratou de alquimia a vida inteira – quando não estava tratando de alquimia, estava tratando de assuntos bíblicos; quando não estava tratando de assuntos bíblicos, nas horas vagas, criou a teoria da gravitação. Todo mundo ficou escandalizado: “Mas como uma inteligência como a de Newton se dedicou a isso?” Bom, Newton se dedicou a isso porque ele percebeu que ali havia algum problema a ser estudado, e esse pessoal não percebeu nem isso. Como não perceberam, e como consideraram que todo esse negócio de ocultismo e magia é o lado escandaloso, tiveram de falsificar retroativamente a história da ciência moderna e sumir com todos os elementos mágicos, que foram justamente os que inauguraram a grande mudança.

Quando a autoridade intelectual da Igreja começa a vacilar, quem é que vem substituir? Os cientistas? Não; os magos, alquimistas, astrólogos, macumbeiros etc. Tudo isso serviu para minar a autoridade da Igreja. Depois de feito o serviço, eles dizem: “Bom, agora nós vamos varrer a poeira para debaixo do tapete e vamos dizer que foi um negócio chamado ciência moderna”. Mas acontece que os praticantes da ciência moderna são todos maçons; tudo o que negam em público, praticam na loja.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 014, 11/07/2009.


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