As várias camadas de falsificação da tradição moderna, e como nós, que estamos no Brasil e que participamos muito perifericamente dessa tradição, estamos na posição ideal para analisá-la criticamente – Olavo de Carvalho

“A primeira falsificação é a famosa matematização dos objetos, que se substitui à presença real dos próprios objetos. Leibniz dizia que se nós tivermos todas as características quantitativas de uma coisa, nós ainda não podemos explicar a existência dessa coisa, nem saber o que ela é. Ele diz que matematizar as medidas está certo, mas nós precisamos saber o que estamos medindo, e esse o que é dado pela velha teoria aristotélica da forma substancial. Se nós temos a forma substancial, então sabemos o que estamos medindo; se não, acabamos por trocar os objetos pela suas medidas. Se temos somente as medidas, estamos falando de um mundo hipotético.

Claro que, tecnicamente falando, esse mundo hipotético corresponderá ao mundo real, porque essas hipóteses referem-se apenas a certas relações isoladas que permanecem relativamente constantes. Não se referem à natureza real, e sim a ações humanas praticadas em cima do mundo real. Hoje em dia se diz que a ciência gerou a moderna tecnologia. Mentira; a tecnologia é que impera, manda na ciência, faz dela o que quiser, com o agravante de que não há um só aparato tecnológico que possa ser reduzido a um princípio científico único. Todo aparato tecnológico exige a articulação pragmática de princípios incomunicáveis entre si – não há como achar um princípio comum.

(…) A segunda mentira é a de que houve uma revolução científica. Não houve uma revolução científica, mas uma revolução ocultista da qual aos poucos foi saindo o que se chamou de revolução científica. Não houve ruptura, rompimento com o mundo do ocultismo – ele apenas foi encoberto e ainda está presente. À medida que as pesquisas avançam, isso vai ficando cada vez mais claro.

A terceira mentira é a falsificação da própria história das ciências. Aonde esses caras pretendem chegar com tudo isso? Em parte, temos o fenômeno da paralaxe cognitiva, com o fenômeno da proliferação das falsas autobiografias, como a do René Descartes, Michel de Montaigne e outros tantos. Justamente nessa época surge a concepção do mundo como teatro. Descartes, quando escreve a parte científica da sua obra, faz como se fosse um teatro, uma obra de ficção. Então começa a haver uma mescla de ficção e realidade, e uma mescla indistinta do que era cultura popular, na Idade Média, com o que era cultura letrada, de modo que fica quase impossível se contar a história. O famoso Iluminismo na verdade foi um obscurantismo: encobriu-se tudo para que ninguém entendesse nada, e é essa a situação na qual nós estamos.

Imaginem os efeitos disso numa cultura periférica como a brasileira, onde até essa falsificação de alto nível é vista como se fosse um ideal longínquo. Quando aquele filósofo francês, o Jean-Yves Béziau, disse que o ensino de filosofia no Brasil era a imitação simiesca de um modelo degenerado, era disso que ele estava falando. O que os filósofos da USP querem ser quando crescer é uma podridão, é algo que ninguém deveria querer ser. Mas, visto da distância do terceiro mundo, aquilo parece uma coisa de alto nível europeu a ser imitado. Quando justamente nós, que estamos no Brasil, no terceiro mundo, e que participamos muito perifericamente dessa tradição moderna, estamos na posição ideal para analisá-la criticamente e contar a história como realmente foi, porque não estamos totalmente comprometidos. No Brasil, na verdade, pode-se até discutir esse negócio de ocultismo e maçonaria muito mais livremente do que na Europa ou nos EUA. A nossa falta de compromisso com a tradição moderna nos coloca numa posição perfeita para que possamos absorver, não a tradição moderna (e a tradição antiga através dela), mas todas as tradições, sem nos sentir presos nem inibidos por nenhuma delas.

O único lugar do mundo onde aconteceu um fenômeno como Mário Ferreira dos Santos foi o Brasil, porque o Mário estudava o negócio pitagórico, escolástico, moderno, leibnitziano, tudo no mesmo plano. Para ele, tudo tinha mais ou menos o mesmo valor, ele estava livre. Se ele fosse fazer isto num ambiente universitário brasileiro, as inibições em torno seriam tantas que o matariam, não o deixariam fazer uma coisa dessas. Eles nem poderiam compreender do que o Mário estava falando. Ele transitava com a maior liberdade entre a filosofia grega e toda a escolástica. Ele tinha lido tudo, os escolásticos mais obscuros, coisa que ninguém leu, somente especialistas haviam lido aquilo (e também só aquilo). O Mário transitava naturalmente entre todas essas coisas. Tudo isso aí é possível por quê? É como naquela poesia do Murilo Mendes: nós estamos deitados em uma rede que todos os países estão balançando. Não pertencemos a tradição nenhuma. Ótimo! Nós podemos pegar de todas as tradições o que quisermos, o que for bom para nós. No Brasil podem acontecer fenômenos como Mário Ferreira dos Santos, por causa dessa flexibilidade mental que o brasileiro tem. Quando aconteceu o Gilberto Freyre, qual foi a novidade dele? Ele começou a pegar informações de fontes que todo mundo desprezava: “Ah! Não se faz isso numa universidade!” Ele disse: “Por que eu não vou fazer? Eu sou apenas um rapaz latino-americano, eu posso fazer. Vocês não podem, porque são pessoas ‘importantes’. Mas eu posso”. Resultado: foi o maior sociólogo do século XX.

Mas em vez de tirar vantagem dessa liberdade, dessa flexibilidade brasileira, o que os caras fazem? Se inibem. De acordo com a medida do quê? Da universidade francesa, que é uma coisa decadente e podre, que ninguém mais na França leva a sério. Eles se castram a si mesmos. Mas nós não temos de fazer isso. Nós, aqui neste curso, praticamos a mesma liberdade do Mário: pegamos todas as fontes conforme o que nos seja útil e conforme o que nos seja bom.

Um camarada que tem essa liberdade mental é o tal do Ken Wilber. Por que ele pode ter essa liberdade? Porque ele não é propriamente um homem da universidade; é um pesquisador independente que às vezes uma universidade chama. Ele não precisa de ninguém: ganha rios de dinheiro publicando livros e com as gravações que ele faz, então ele pode dizer: “Olha, eu estou aqui misturando vedanta com parapsicologia com behaviorismo”. Ele pode fazer o que quiser. É claro que Ken Wilber tem muita besteira também, é um globalista etc.

Outro que podia fazer isso, um grande gênio da sociologia, foi Pitirim Sorokin, presidente da Associação Sociológica Americana por muitos anos, emigrado russo. A Rússia também era assim, não tinha compromisso nenhum com a universidade européia, então o russo podia fazer o que quisesse. Pitirim Sorokin chegava e dizia: “Nós vamos estudar as doutrinas sociológicas de Confúcio”. Ele dizia que a sociologia é a ciência mais antiga do mundo. Todos os outros diziam que a sociologia apareceu no século XIX, com Emile Durkheim e Augusto Comte. Ele dizia: “Não, é uma coisa antiquíssima, está aqui na Índia, na China…” Ele pegava tudo isso e estudava em pé de igualdade com Emile Durkheim. Claro que muita gente ficou escandalizada, mas tanto fez sucesso que se tornou presidente da Associação.

Nós podemos fazer o que fizeram Ken Wilber, Pitirim Sorokin, Mário Ferreira, em vez de nos atrelarmos a essa desgraçada tradição universitária moderna, que já está podre, já caiu em tudo quanto é lugar, está totalmente desmoralizada. Aqui nos EUA está desmoralizada, na Europa também. Por que nós vamos nos ajoelhar perante esses ídolos?”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 014, 11/07/2009.


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