A verdade é a conexão das formas inteligíveis dos seres em si mesmos, o resto é só pensamento – Olavo de Carvalho

“A percepção que o sujeito teve (…) – a percepção que ele não montou na própria mente, mas que percebeu diretamente dos dados – seria impossível se esses dados não tivessem em si mesmos uma estrutura inteligível. A teoria do Aristóteles que diz que as coisas têm uma forma inteligível é inteiramente certa.

Quando criamos um conceito, estamos tentando traduzir em palavras algo do que percebemos da forma inteligível dos objetos. O conceito, contudo, continua sendo apenas um conceito: uma criação da nossa mente. O conceito não é uma apresentação nem uma reprodução do objeto: o conceito o representa. “Representa” quer dizer: o objeto está ausente agora. Ora, os conceitos são evidentemente inteligíveis, pois fomos nós que os criamos – eles são, por assim dizer, translúcidos. Mas uma certeza obtida a partir de um raciocínio que você montou com esses conceitos continua sendo apenas uma certeza lógica, ou seja, a certeza da conexão entre conceitos. A ligação entre esses conceitos e a realidade continua problemática, tanto que é preciso a ciência experimental – mas para fazer o quê? Para ver se a ordem lógica que você colocou nos conceitos toca a ordem dos fatos em alguns pontos seletos. Porém, no caso da primeira apreensão, foi a própria forma inteligível dos objetos que se revelou a você na sua plenitude e se apresentou de modo imediato. Como não foi você quem criou isso aí, você não pode reproduzir aquilo integralmente. Você está percebendo a lógica interna entre entes e suas respectivas formas inteligíveis, mas quem criou isso foi Deus, isso veio de fora, não foi você quem criou. Este é o domínio da verdade: a verdade é a conexão das formas inteligíveis dos seres em si mesmos. O resto é só pensamento. O pensamento pode tocar a verdade em certos pontos, mas ele não pode ser a verdade.

Quando você estuda para ser um cientista ou um filósofo, o que você está fazendo? Você está desenvolvendo conhecimento? De maneira alguma. Você está desenvolvendo uma linguagem que lhe permite falar com outras pessoas do seu grêmio e obter delas a confirmação do que você está dizendo. E o objeto, o assunto? As coisas mesmas? Estão completamente ausentes disso aí. Quando você, por exemplo, recebe o diploma de mineralogia, não tem nenhuma pedra ali presente. Só tem o grêmio dos mineralogistas, o reitor da universidade etc. Você está se movendo não no ambiente da relação dos objetos da sua ciência, mas no terreno das relações humanas – no terreno, portanto, da subjetividade coletiva, no terreno intersubjetivo e não no objetivo. A relação objetiva com a realidade é pessoal, intransferível e muda. O conhecimento existe é na hora que o mineralogista pega a pedra, olha-a, e ela revela para ele a sua estrutura, portanto a sua composição e, assim, algo da sua origem, da sua história. Depois disso só o que existe é a transfiguração disso em símbolos e a comunicação humana – e a perda que há nesse trajeto é imensa.

Muitos anos atrás tive de colocar esse problema para mim mesmo (vocês também vão ter de fazer esta opção): eu quero o conhecimento ou a comunicação? Eu quero saber o que as coisas são mesmo, ou eu quero ter um discurso que seja aprovado pela coletividade dos que acham que sabem? Então percebi uma coisa muito importante: você saber algo é saber algo que os outros não sabem. Se você só sabe o que os outros sabem também, vocês estão se movendo dentro da esfera de um recorte comum que vocês fizeram da realidade. Mas quando você está em face da própria realidade – que não foi você quem criou, que não é você quem domina e dentro da qual você está (você está ao mesmo tempo diante e dentro dela) –, é ali que se dá o momento do conhecimento: no momento da percepção da realidade. A transformação disso em linguagem humana é um processo altamente complexo e falível. Foi isso então o que tive de decidir: vou perceber um monte de coisas com uma evidência incrível e não vou poder dizer para ninguém, porque não vou conseguir provar nada do que estou falando. Bom, você tem de escolher. Você pode provar uma parte mínima. Mas a testemunha de um crime não tem de provar nada, porque ela é a prova.

Esse conhecimento do testemunho direto é o que constitui a substância da filosofia. Por isso um livro de filosofia jamais diz tudo o que tem de dizer. Por isso sugeri a vocês o exercício da leitura lenta, de complementar imaginariamente o texto até que os fatos mesmos da experiência de onde o filósofo arrancou a própria experiência apareçam para você. Com o tempo você pode desenvolver uma habilidade muito grande de retornar dos textos à experiência. Isso certamente ajudará você a fazer o processo contrário, que é ir da sua experiência real até uma expressão culturalmente eficiente. Mas expressar uma coisa de maneira culturalmente eficiente não quer dizer que você vai poder prová-la. Mas você quer o conhecimento ou a prova? A prova é uma coisa que você oferece para os outros. A testemunha de um crime precisa de prova? Não. Ela tem o conhecimento direto.

Anos atrás escrevi uma apostila chamada “Inteligência, verdade e certeza”, na qual eu lembrava os componentes da ideia pura de ciência tal como descritos por Edmund Husserl em seu livro Filosofia Primeira. Ele dizia que a primeira condição é a existência da evidência, que é a percepção direta de alguma coisa. Por exemplo: eu percebo que estou falando a vocês neste momento; eu percebo que estou aqui. Se não existisse a evidência, todos os pensamentos seriam duvidosos. Mas a evidência só vale, evidentemente, para quem a tem. A testemunha do crime testemunhou o crime e não precisa de prova nenhuma: é ela que pode ser usada como um dos elementos de prova. Mas quem não esteve lá, não viu nada e não tem conhecimento da situação? Do que necessita? De uma evidência indireta,  ou prova. A prova então consistirá de uma série de afirmações que têm uma conexão lógica com os dados apresentados pelas testemunhas e pela própria situação. Esta conexão, por sua vez – a conexão lógica que você faz, por exemplo, entre duas premissas e uma conclusão, o famoso “Todos os homens são mortais, Sócrates é homem, portanto, Sócrates é mortal” –, é uma conexão de tipo lógica ou do tipo evidente? Se fosse uma conexão apenas de tipo lógico – portanto indireta –, precisaria de outra prova e outra prova e outra prova, indefinidamente. Isto quer dizer que a estrutura da prova lógica depende, por sua vez, da evidência. E “evidência” então é o objeto do conhecimento intuitivo direto. Isso significa que a evidência é tudo, porque ela dá o fato e também a conexão entre os vários passos lógicos do raciocínio. Isso é o mesmo que dizer: a lógica nada prova – nada, absolutamente nada. A lógica só cria conexões entre afirmações, mas essas conexões só podem ser percebidas intuitivamente. Concluo: não existe conhecimento racional, só existe conhecimento intuitivo. Todo o racional é baseado no intuitivo. Estou chamando de “intuitivo” aquele tipo de raciocínio que você faz com os elementos da própria situação, e não com signos, com elementos criados pela sua mente. É o que eu chamo “intuicionismo radical”: não existe conhecimento lógico, não existe conhecimento racional, só existe conhecimento intuitivo. O racional não passa de uma conexão intuitiva entre elementos que já não são dados pelos fatos, mas dados mentalmente pelos conceitos que você criou. A conexão entre dois conceitos só pode ser percebida intuitivamente, não logicamente. Por exemplo: como percebo que um animal pertence a uma determinada espécie? Eu tenho um esquema, uma definição geral da espécie, e vejo que aquele indivíduo em particular se encaixa nessa espécie. Como posso perceber isso racionalmente? Não posso! Só posso perceber isso intuitivamente. Isso quer dizer que o primeiro tipo de conhecimento é o único conhecimento que existe! O outro é apenas um esforço para você conquistar uma confiança subjetiva naquilo que você já conhece, é apenas um esforço de autopersuasão, é pura retórica. A substância do conhecimento é uma coisa de percepção individual, direta, dificilmente transmissível. Aquilo que é transmissível, que é objeto de prova, não é conhecimento: é um conjunto de esquemas mentais que se refere muito indiretamente ao conhecimento. Por isso que, hoje em dia, quanto mais as pessoas estudam, mais burras elas ficam.

Li a esse respeito o seguinte: uma vez chegou um sujeito a um museu, oferecendo uma estátua que ele tinha desenterrado na Grécia. Os camaradas mandaram testar a pedra da estátua. Os químicos disseram: “Não, de fato esta pedra foi trabalhada muito antigamente, porque a superfície dela sofreu certas alterações que levam milênios para acontecer. Esta estátua é genuína”. Já estavam comprando a estátua, e um funcionário do museu falou: “Tem alguma coisa errada nesta estátua. Eu não sei o quê está errado, mas está errado. Não comprem. Se vocês já pagaram, peçam o dinheiro de volta. Se não pagaram, não paguem.” Não tinham pago e, como o sujeito era um velho expert, eles decidiram esperar para ver o que acontecia. Ele sabia que tinha alguma inarmonia naquela coisa. Ele não sabia qual, não sabia dizer qual. Ele estava percebendo, mas não tinha um nome. Ou seja, ele não tinha o símbolo mental para dizer o que estava percebendo, mas estava percebendo corretamente.

Depois de algum tempo, ele conseguiu dizer o seguinte: “Esta estátua não tem um estilo: ela mistura vários estilos, de várias épocas diferentes. Assim, ela não pode ser genuína. As pessoas não podiam ter misturado vários estilos gregos na antiga Grécia, só poderiam fazer isso hoje”. A percepção desses estilos é também do primeiro tipo – vamos chamar esse tipo de “intuitivo”, no sentido em que eu estou usando a palavra “intuitivo”. Ela só pode ser intuitiva. Para o sujeito do museu mostrar isso para os outros, precisaria que cada pessoa tivesse absorvido a história de cada um desses estilos longamente – não no papel, mas nos olhos –, tivesse visto várias estátuas daqueles estilos, aprendido a olhar as formas daquele estilo e depois olhar aquela estátua e ver que aqueles estilos estavam todos presentes ali ao mesmo tempo. Provar isso é quase impossível. O sujeito, no entanto, estava se movendo no terreno da certeza mais exata, mais inconfundível que podia haver. Ele estava se movendo no terreno do quê? Dos dados reais.

O que aconteceria se a diretoria do museu, em vez de acreditar no velho expert, que só tinha a autoridade dos seus olhos, decidisse confiar na ciência química? Teria comprado a estátua fake por milhões de dólares. Depois ia dar um inquérito, os caras perderiam o emprego, seria uma desgraça. Felizmente no mercado de arte ainda existe isto: a autoridade do connoisseur. É o sujeito que não pode provar o que está dizendo, porque está tudo na memória dele, na percepção dele. Ele não pode dar uma prova cientificamente válida. Mas isso não quer dizer que o conhecimento dele seja menos preciso que o conhecimento científico: é muito mais preciso. Ele apenas não é facilmente transmissível. Então, por assim dizer, “vale para ele”. Ora, o que tem a ver a validade intrínseca de um conhecimento com a autoridade social da sua transmissão? Hoje somos ensinados a confundir uma coisa com a outra. Achamos que aquilo que pode ser provado e verificado por várias pessoas – provas repetidas por várias pessoas – é mais confiável do que aquilo que você está vendo com seus próprios olhos. E chegamos ao absurdo de pensar que a ciência pode corrigir as nossas percepções. É claro que isto é uma alienação total, é totalmente irracional.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 15, 18/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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