Na esfera da percepção nós somos capazes de fazer raciocínios indutivos de uma precisão incrível, ao passo que na esfera da representação e do raciocínio construtivo nós cometemos erros uns após os outros – Olavo de Carvalho

“Na passagem do fato aos conceitos e dos conceitos ao raciocínio pode-se introduzir uma multidão de erros. Não são apenas erros de lógica, mas até erros de denominação, de classificação, de categoria, de descrição – porque você tem de descrever primeiramente para si mesmo os dados da situação, dar-lhes nomes, conceitualizá-los e daí criar uma estrutura de raciocínio ativa que lhe permita chegar a uma conclusão. A possibilidade de erro aí é imensa. (…) Os erros todos não vêm da percepção: vêm do pensamento. A percepção também pode errar, mas a possibilidade de erro ali é muito menor. Se houvesse a quantidade de erros de percepção como há erros de pensamento, o trânsito dos automóveis na rua, por exemplo, seria impossível, porque eles bateriam uns nos outros a todo o momento. Quando você vê a infinidade de decisões que um motorista toma no trânsito – todas decisões certas, com uma precisão incrível, e que esse motorista jamais seria capaz de expressar, de dizer, nem mesmo de descrever – e você compara isso com as tolices que as pessoas falam nas discussões, torna-se claro que a primeira função cognitiva é muito mais eficiente e confiável do que a segunda.

Na esfera da percepção nós somos capazes de fazer raciocínios indutivos de uma precisão incrível, com uma grande velocidade e uma margem de erro mínima, ao passo que na esfera da representação e do raciocínio construtivo nós cometemos erros uns após os outros. Não é você que comete erros, os grandes filósofos todos cometeram erros. Por quê? Porque na esfera do raciocínio construtivo tudo é criado pela sua mente. A relação que aquilo tem com a realidade é indireta, meramente simbólica e frequentemente convencional – assim, a margem de erro é maior. Quando nós confiamos no segundo tipo de raciocínio porque dele podemos dar provas, repeti-lo, expressá-lo e fazer com outras pessoas façam raciocínios idênticos e confirmá-los, nós estamos nos enganando a nós próprios. Isso acontece porque você montou aquele raciocínio, expressou-o em palavras e o explicou para outras pessoas, de modo que elas pudessem explicar o mesmo raciocínio de novo e chegar à mesma conclusão. Desse modo, é claro que milhares ou milhões de pessoas podem conferir e dizer para você: “É isto mesmo! Você tem razão”. No entanto, o que elas conferiram na verdade? Apenas a lógica interna de um raciocínio. A conexão desse raciocínio com os fatos pode ser verificada através de experimentos, os quais, contudo, jamais vão reproduzir a situação inteira – serão apenas experimentos que coincidem, esquematicamente, com a situação em apenas um ou dois pontos. Ou seja, mesmo a verificação experimental do raciocínio lhe dará uma certeza muito precária. E – curioso – nós estamos em uma civilização que há quatro séculos só confia nisto.

Se, por exemplo, você viu um sujeito dar uma facada no outro e só havia você ali presente. Você viu, mas não foi pura percepção: você percebeu toda a conexão causal entre o ato assassino, a facada e o efeito mortal que aquilo teve sobre a vítima. Então há um raciocínio ali, que, no entanto, não foi feito nem com imagens na sua mente, nem com signos, nem com palavras: foi feito diretamente com os fatos que você estava percebendo; ou seja, era a lógica interna dos fatos que estava se mostrando para você. Suponha que as pessoas ponham em dúvida o seu testemunho e queiram provas. Elas vão construir milhões de conexões lógicas possíveis e inventar experimentos que devem coincidir com aquela situação em um ou outro ponto esquemático. Por exemplo, o sangue que estava na faca era do mesmo tipo do sangue da vítima. Você percebe que isto é apenas um elemento da situação inteira – se você pegar elemento por elemento, jamais vai reconstruir a situação inteira, serão sempre pedaços que por sua vez terão de ser conectados mediante outras construções lógicas.

Por que confiamos nisso? Confiamos nisso, em primeiro lugar, porque fomos nós que inventamos isso e acreditamos que o domínio do pensamento é o domínio sobre a realidade. Segundo, porque aquilo pode ser reproduzido por outras pessoas, que confirmarão o que nós estamos dizendo. Isso quer dizer que preferimos um milhão de confirmações indiretas e parciais a uma exibição completa e direta do fato – ou seja, estamos completamente loucos. Isso é o que nos últimos quatro séculos se chama de ciência, todo o edifício da nossa ciência é baseado nisso. Primeiro: a confiabilidade maior da construção indireta em relação à percepção direta. Segundo: a confiabilidade do testemunho coletivo daqueles que fazem o mesmo raciocínio que você e o confirmam – e que conseguem, no máximo, confirmar experimentalmente um ou outro ponto de coincidência entre o seu raciocínio e o fato. Isso é assim porque toda esta atividade científica é uma atividade social onde o que se busca é a confiabilidade coletiva de certas coisas. Agora, se nós não estamos buscando confiabilidade coletiva nem estamos fazendo questão de que todo mundo acredite em nós, mas estamos interessados em buscar o conhecimento para nós mesmos, então é claro que é a primeira modalidade de conhecimentos que deve nos interessar. Ela pode dar a certeza total e absoluta, mas dificilmente você vai poder transpor essa certeza de tal modo que ela se torne confiável para outras pessoas.

Todo o esforço da filosofia, pelo menos na Grécia, foi o de habilitar as pessoas a perceber a realidade. Aristóteles, que codificou a lógica pela primeira vez, sabia perfeitamente que, de tudo o que fora percebido na esfera dos fatos, só uma parte mínima era transposta na demonstração lógica. E também sabia perfeitamente a diferença entre a conexão lógica entre conceitos e a conexão fática entre entes e dados da realidade.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 15, 18/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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