Se é possível alguma conexão entre os raciocínios que montamos a partir da experiência, é porque já há essa conexão na própria experiência – Olavo de Carvalho

“No mundo de língua inglesa, sobretudo, existem muitos debates entre as chamadas “duas culturas”: a “científica” e a “literária”. Saul Bellow fazia aquela famosa distinção entre o que ele chamava de “os escritores” e “os intelectuais”. Os intelectuais são aqueles que criam ideias, doutrinas, hipóteses, discutem, e os escritores são aqueles que tentam expressar mais diretamente possível as impressões genuínas.

(…) Mas é claro que todo esse debate é viciado, porque toda percepção direta é remetida para o campo da literatura, das artes, da religião, do misticismo e do “irracional”, e tudo que é do campo da ciência já não tem relação alguma com o campo da observação direta, mas é tudo constituído de doutrinas, hipóteses, provas etc. A maneira de articular o problema está completamente viciada, porque a diferença aí não é do “consciente” para o “inconsciente”, nem do “racional” para o “irracional”, mas do raciocínio, da conexão lógica exibida pelos próprios fatos, e da sua imitação mental posterior. Esta é a única diferença. Como a conexão lógica percebida imediatamente não é transmissível em si mesma, só pode ser transmitida de duas maneiras: ou através da sua transformação em conceitos, e da posterior montagem do raciocínio, ou através da sua representação simbólica. Mas as duas são indiretas. A literatura, neste sentido, não está mais próxima da experiência real do que o está a ciência, sendo também ela uma transformação simbólica. A percepção real continua intransmissível. Quer dizer, podemos ter experiências análogas, até idênticas, mas não aquela experiência em particular.

Acontece que, se é possível alguma conexão entre os raciocínios que montamos a partir da experiência, é porque já há essa conexão na própria experiência; esta nos mostra a sua conexão lógica interna. É a racionalidade do próprio real que se mostra. E a racionalidade do próprio real é a razão divina, e não a nossa razão. Esta só vale alguma coisa porque ela é capaz de se referir indiretamente à primeira razão, à razão divina. Se não houvesse efetivamente nenhuma conexão interna entre os fatos, todas as conexões que montássemos em nossas cabeças seriam artificiais, seriam falsas. Mas todas as conexões que montamos não podem reproduzir inteiramente a estrutura do real, porque seria preciso fazer acontecer tudo de novo. A lógica interna do real só se mostra no momento em que ela se mostra, e tal como se mostra. Nós não podemos dela nos apropriar. Para isto, seria preciso captarmos a integralidade da racionalidade do real, ou seja, que nos apropriássemos do logos divino, transformando-nos em Deus. Como isto não é possível, restam-nos as representações indiretas. Acontece que nós, em seguida, operamos a inversão blasfema, e começamos a valorizar mais as estruturas criadas pela nossa mente do que as estruturas da racionalidade real, tal como se apresentou nos objetos. E nós chamamos isso de ciência, filosofia, arte etc.

No fundo, era isso que o Bruno Tolentino quis dizer com o “mundo como ideia”. As pessoas não querem o mundo. Elas querem uma ideia do mundo (ideia criada por elas). Esta ideia nos dá uma sensação de segurança justamente porque nós a criamos. Nós somos dominadores onipotentes do nosso mundo subjetivo – não dele inteiro, porque ele também é uma realidade e nós não o dominamos por inteiro, mas dominamos a parte que construímos mentalmente. Então escolhemos esta, porque o outro mundo nós não dominamos. Só que, no momento em que fazemos isso, viramos um idiota perfeito.

O predomínio da prova sobre a realidade, do signo sobre o significado, é a grande perversão cultural. E é justamente isso que nós temos de evitar. A filosofia existe, foi inventada, como um remédio contra isso. Nos diálogos socráticos, permanentemente Sócrates puxa as pessoas de volta, desde o seu mundo de ideias, para o mundo da experiência real. E é o que nós temos de fazer permanentemente conosco mesmos.

Mas desistam de aprimorar a percepção direta. Ela não pode ser aprimorada. Não há exercícios para isso. Aliás, ela não pode ser aprimorada porque ela já é perfeita. Ela é a percepção da realidade, é o conhecimento, e não pode ser aprimorada. Nós é que temos de nos aprimorar; temos de aprimorar a nossa personalidade para que aceitemos os dados do real. E isto é trabalho para uma vida inteira. É exatamente isto que nós estamos tentando fazer aqui. Temos de criar outro tipo de formação – uma formação que quebre a autoridade dessas formas culturais hipnóticas e que coloque, no lugar disso, a autoridade do próprio real. Nesse momento é quando estamos na plenitude do real, e percebendo o que está acontecendo mesmo. Mas como estamos percebendo com os próprios elementos da situação, e não com elementos mentais, não podemos repetir mentalmente o processo. Para repeti-lo, precisaríamos converter a experiência real num esquema mental. A certeza que esse esquema nos dá refere-se à experiência real, mas não a reproduz (representar e reproduzir são coisas diferentes). Isto quer dizer que, quanto mais pudermos nos ater à percepção imediata, sem racionarmos, melhor, porque o raciocínio é trabalhoso, é complicado, é demorado, e a possibilidade de erro é grande.

Ora, uma cultura que exige mais a prova do que o conhecimento é uma cultura totalmente pervertida, porque toda prova é relativa. Nenhuma prova pode nos dar certeza absoluta; certeza absoluta é dada apenas pela percepção direta. Se exigimos sempre provas, provas e provas, e não queremos a percepção direta, não queremos conhecimento nenhum; queremos apenas um pretexto socialmente aprovado para acreditar em alguma coisa. Isto quer dizer que a exigência de provas (não toda a exigência de provas, mas neste sentido que eu estou falando) é uma fuga ao conhecimento, e uma busca de refúgio na autoridade. É, na verdade, um puro argumento de autoridade.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 15, 18/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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