A escalada em que o indivíduo vai conquistando círculos cada vez maiores de linguagem, que lhe dão acesso à convivência com círculos maiores de pessoas e, portanto, a maiores e mais complexas possibilidades de ação humana – Olavo de Carvalho

“À medida que o ser humano vai se desenvolvendo, atravessa, desde o seu nascimento, uma série de apropriações da linguagem — linguagem no seu sentido mais amplo possível, não só linguagem verbal, mas toda a apreensão e domínio de signos e significados. Vê-se então uma espécie de escalada em que o indivíduo vai conquistando círculos cada vez maiores de linguagem, que lhe dão acesso à convivência com círculos maiores de pessoas e, portanto, a maiores e mais complexas possibilidades de ação humana.

O primeiro círculo que ele tem de conquistar é claramente o da comunicação imediata com a sua família: o pai, a mãe, o irmão etc. Nós sabemos que ali todas as deficiências de linguagem que a criança possua serão supridas, de certo modo, pela própria família. Por exemplo, no caso da criança que chora porque quer alguma coisa e não consegue dizer o quê, os pais fazem um esforço para entendê-la e frequentemente acabam adivinhando. Não é propriamente ela quem domina a linguagem. Existe em torno dela um sistema de amortecedores que visa a facilitar a sua comunicação por um esforço a mais do receptor, e não do emissor da informação. É claro que esse sistema de amortecedores vai diminuindo à medida que o tempo passa. À medida que você cresce, espera-se que você mesmo domine sua linguagem sem que outros tenham de facilitar sua expressão. E assim por diante. Depois, o indivíduo começa a ter amiguinhos, vai para a escola e passa a ter de conquistar não só um repertório, mas um sistema de signos cada vez maior, mais organizado, flexível e eficiente. Até o ponto em que, já próximo da vida madura, supõe-se que o indivíduo seja capaz de expressar e comunicar tudo o que é necessário para sua subsistência na sociedade humana. E se ele não souber, então “dane-se”: se ele não consegue explicar as suas necessidades e os seus objetivos, ninguém tem nada a ver com isso, ninguém tem a obrigação de ser tolerante e compreensivo com ele.

No período da adolescência, quando o foco da convivência vai sendo transferido da família para o grupo dos seus coetâneos — pessoas da mesma idade —, surge uma dificuldade que pode chegar a ser muito dolorosa em certas circunstâncias: a dificuldade da conquista da aprovação pelo meio social, que implica você ter de ser aceito pelos seus professores, pelos vários grupos de alunos. E a aceitação depende de que as pessoas o sintam como um semelhante, como alguém que fala a mesma língua deles e quer as mesmas coisas. (…) Aqui nos EUA é muito comum ver como a sociedade criou uma série de mecanismos para facilitar essa integração, porque a formação dos grupos de amigos aqui se dá sobretudo pelas afeições comuns que as pessoas têm a certas atividades. Existem, por exemplo, clubes de debates, de música, de roqueiros, de punks etc. Então você logo encontra sua turma, adquire a mesma linguagem deles.

(…) Entra aí também a comunicação com a autoridade — com a sociedade no sentido da hierarquia — e com o mundo também, o que significa também a apreensão do sistema de leis vigentes. É claro que todo grupo tem as suas leis, mas essas leis, em geral, são tácitas; não são declaradas. Existem as leis que foram aprovadas pelo parlamento, oficialmente vigentes e que você é obrigado a cumprir. Note que o conhecimento que as pessoas têm dessas leis é extremamente precário. Se você interroga um cidadão brasileiro sobre o Código Penal, ele não tem a menor ideia dos delitos ali previstos. Se pergunta sobre o Código Civil, seus direitos e deveres, sobre o sistema de propriedade, o pessoal, em geral, não sabe quase nada a respeito disso. Aqui nos Estados Unidos sabem mais um pouco, mas mesmo assim a distância entre os conhecimentos de que o cidadão usualmente dispõe e a totalidade do sistema legal vigente é abissal. As leis hoje em dia já se contam às centenas de milhares e ninguém tem o controle disso, nem mesmo os profissionais que lidam com isso — advogados, juízes, promotores etc. — têm o conhecimento do sistema integral das leis. No entanto, continua em vigor aquele preceito de que ninguém pode jamais alegar o desconhecimento da lei. Dizer que infringiu uma lei porque a desconhecia não é considerado uma desculpa válida. Há o princípio de que o cidadão tem a obrigação de conhecer as leis; mas essa obrigação é, ao mesmo tempo, impossível de se cumprir, porque as leis são em número demasiado. Isso, por sua vez, contraria outro princípio do direito: o de que ninguém é obrigado ao impossível – ad impossibilia nemo tenetur. Se você é obrigado a conhecer as leis, mas o conhecimento das leis é praticamente impossível, então você está sendo obrigado ao impossível. Existe aí um loop lógico: você é obrigado a uma coisa que, ao mesmo tempo, é impossível; e você, por sua vez, não pode alegar essa impossibilidade. Basta isso para ver como a integração do cidadão na sociedade de hoje pode ser uma coisa bastante complicada. E é claro que essa dificuldade do cidadão em se integrar na sociedade fomenta um estado psicológico de extrema insegurança, que impele o indivíduo a buscar a proteção da autoridade; o que, por sua vez, aumenta o poder da autoridade e, portanto, aumenta o número de leis.

(…) É claro que, além do mundo das leis e do direito, existe o mundo gerador deles, o mundo da política. Frequentemente, as pessoas desenvolvem alguma participação no mundo da política – no mínimo através do voto e das opiniões – antes de ter a mais mínima ideia de qual é o sistema legal vigente. É uma coisa incrível que as pessoas não conheçam as leis, mas exerçam influência através do voto, dos debates etc. Donde já se nota que a integração do cidadão na sociedade contemporânea é cheia de percalços, contradições e problemas.

O período que vai da adolescência à primeira mocidade – dos doze aos vinte um, vinte dois anos – é o período em que seu meio fundamental deixa de ser sua casa, sua família e torna-se a sociedade maior. É justamente nessa fase que aparece o problema da integração ou da adaptação social do sujeito. Note que também o conceito dos inadaptados — desajustados, marginais etc. — é relativo, porque o marginal também está integrado em algum grupo. Um sujeito que está totalmente fora das leis, que está sendo perseguido pela polícia não está socialmente desajustado, posto que está perfeitamente ajustado dentro do grupo dos narcotraficantes ou dos batedores de carteira. Ninguém existe sozinho. A existência humana se dá através de uma trama de relações que implica expectativas, aprovação e desaprovação, simpatias e antipatias; e nós temos de lidar com isso 24 horas por dia.

(…) Imagine a quantidade de conhecimentos que uma pessoa – por mais burra que seja – precisa ter simplesmente para viver em sociedade. Imagine a quantidade enorme de códigos. Pode ser que ela não seja capaz de expressá-los verbalmente, mas saberá operá-los de algum modo, coisa muito mais complicada do que aprender gramática na escola. A diferença é que esse aprendizado é puramente empírico e, na maior parte dos casos, tácito, feito por impregnação semi-consciente de hábitos. E nós sabemos que tudo o que é aprendido sem uma atenção específica é muito mais fácil do que o que você aprende com atenção deliberada. Por exemplo, ao aprender a andar de bicicleta, se você tivesse de explicar cada um dos movimentos que fez – quais dão certo e quais não dão –, você precisaria escrever enciclopédias inteiras sem jamais chegar a aprender a andar de bicicleta. O que de fato ocorre é que você tem certas impressões que, uma vez gravadas na sua memória, articulam-se umas com as outras, fazendo com que você acabe aprendendo o que é preciso fazer. Esse aprendizado não é totalmente inconsciente, mas o processo do aprendizado é inconsciente. O que se passou, a forma como você aprendeu, não é possível explicá-lo.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 016, 25/07/2009.


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