Todo o período que nós chamamos de educação do indivíduo é centrado na própria pessoa, e o problema que então está sendo trabalhado é o do ajustamento social – Olavo de Carvalho

“Toda essa fase da vida é enormemente problemática e o que está em questão durante todo esse período não é nenhum problema objetivo, mas você mesmo. Seu centro de preocupação é seu próprio umbigo, porque você está interessado em saber se as pessoas o aprovam, se o que fez será bem ou mal recebido, se é um sujeito socialmente simpático ou antipático, se está dentro ou fora do código e assim por diante. O problema é você mesmo: você é um problema ambulante, um problema para você mesmo.

Durante todo esse período, qualquer preocupação que o indivíduo tenha com questões objetivas nunca é direta, mas passa sempre pela preocupação subjetiva. Por exemplo, se o indivíduo está tentando aprender a jogar futebol, ele tem duas preocupações: a preocupação primeira, que é ser aceito pelo time, e o aprendizado da técnica do futebol, que é somente um meio para isso. O olhar que o sujeito lança sobre as coisas é sempre duplo, está sempre medindo a dificuldade externa em confronto com a sua dificuldade interna — seu próprio estado —, mas o objetivo de todas as ações é sempre o próprio indivíduo, ele precisa de algo: de se integrar no grupo, da aprovação de tais ou quais pessoas, que a namoradinha goste dele e assim por diante. Esse período da adolescência e juventude é de um subjetivismo atroz, em que o critério máximo de julgamento de tudo é o próprio umbigo.

Só quando os problemas básicos da integração social estão resolvidos e já não são mais problemas é que sobra espaço no HD mental do sujeito para ele pensar sobre problemas objetivos. E isso acontece quando a situação social do indivíduo se estabiliza de tal modo que ele já tenha o domínio dos códigos habituais e não precise mais pensar nisso. O sujeito agora tem um emprego – e sabe o que se espera dele naquele emprego, sabe o que tem de fazer –, uma família, um conjunto de obrigações e desafios a enfrentar. E essa atividade se desenrola dentro de um quadro de expectativas sociais já estabilizado e que não necessita mais de uma atenção específica, a não ser que aconteça algo de anormal como, por exemplo, a mudança de chefe. O sujeito tinha um determinado chefe e, de repente, chegou outro com a mentalidade completamente diferente; criou-se momentaneamente um desajuste. Se esses desajustes acontecerem a todo momento, o sujeito estará liquidado, pois não conseguirá sair da situação de insegurança juvenil. Mas uma vez estabilizado o quadro, então ele estará pronto para desempenhar alguma atividade real, para cuidar de problemas objetivos. Se ele for um mecânico de automóveis, ele já não precisará mais saber se o cliente da oficina gosta dele. Ele precisa consertar o carro e para isso tem de deixar o problema subjetivo de lado e dedicar-se a resolver o problema real.

Todo o período que nós chamamos de educação do indivíduo — desde a infância até o fim da adolescência — é centrado, portanto, na própria pessoa e o problema que então está sendo trabalhado é o do ajustamento social. Quando você está estudando história no ginásio, você não está interessado propriamente nos fatos que aconteceram na história, mas em ser aprovado no exame de fim de ano. O foco central é você mesmo. O aprendizado da história é um instrumento para você conseguir certa aprovação da qual você necessita. Também é claro que há aí, fora os problemas do aprendizado escolar, o problema das afeições, daquilo de que você gosta ou não. Nesse período você pode descobrir que gosta de certas disciplinas na escola e que não gosta de outras. Algumas mexem com a sua imaginação e lhe dão uma satisfação subjetiva. Note bem que mesmo aí o foco não está no objeto propriamente dito daquela disciplina, mas na satisfação que ela lhe dá. Por isso mesmo, todo o processo da educação é um teatro. Tudo o que se passa na educação não corresponde à realidade do que está sendo ensinado, mas à situação pedagógica criada. Por exemplo, no ensino de uma disciplina qualquer, a ordem do ensino não refletirá a estrutura interna da disciplina, mas a ordenação pedagógica que for considerada a mais propícia ao seu aprendizado. Portanto, coisas que não têm grande importância na estrutura interna da disciplina podem ter importância pedagógica, porque elas são mais fáceis de ensinar. Eu me lembro que quando eu estava no ginásio, tinha um professor muito original de biologia; naquela época estava havendo um problema diplomático entre o Brasil e a França, pois os franceses estavam pescando camarões nas costas brasileiras. Estava um bafafá, todos os dias saía algo no jornal. Então ele tomou aquilo como pretexto para dar aula de biologia em torno dos camarões e ficou seis meses lecionando camarões. Não porque os camarões dentro da ordem da estrutura total das ciências biológicas sejam tão importantes assim, mas porque pedagogicamente convinha àquele momento. Isso mostra como a estrutura da experiência educacional é totalmente centrada na pessoa do estudante e não na objetividade da disciplina que está sendo estudada.

Do mesmo modo, as situações pedagógicas não são situações reais. São situações teatrais, montadas para simular uma realidade do mundo exterior. Imagine a diferença do que é o estudo de história para um estudante de ginásio e para um diplomata que esteja discutindo com o representante de outra nação um problema de fronteiras. Esse diplomata tem de saber exatamente o que aconteceu de fato, quem chegou ali primeiro, demarcou a fronteira etc. Ele precisa saber tudo isso realmente; e não é apenas para passar de ano. Como está pressionado por uma situação real que ele mesmo tem de resolver, seu interesse dirige-se diretamente ao objeto da ciência histórica, aos próprios fatos históricos. No aprendizado, por exemplo, o professor pode recorrer a uma série de recursos de ficção para explicar certas coisas. Se o que você souber da história não corresponder exatamente aos fatos, mas à ordem pedagógica escolhida, muito bem, você passa de ano. Durante essa fase existe sempre a presença do elemento imitativo e teatral; e a única coisa real que existe ali é você mesmo. Sua necessidade psicológica e social de se integrar no meio, obter aprovação etc.: esse é o foco de tudo que acontece.

Já na passagem para a vida adulta a situação realmente muda, pois o que as pessoas esperam de você é que você desempenhe certas funções realmente. Note que o que está em jogo já não é sua aprovação social. Se você obteve um emprego é porque já foi aprovado para ele, não está mais em teste. O que se quer agora não é mais que você demonstre sua capacidade de estar naquele emprego, mas que resolva os problemas reais que se lhe apresentaram, por mais simples que sejam. Você pode ser o faxineiro que cuida dos banheiros: as pessoas não querem saber se você é capaz ou não, querem que o banheiro esteja limpo! Se você é um sujeito totalmente incapaz, mas consegue fazer aquilo, então está ótimo! Não é mais você quem está em julgamento, mas o efeito real das suas ações. O tratamento que as pessoas lhe dão vai se tornando, assim, progressivamente mais impessoal. Quando você já tem um papel social definido, passa a ser tratado não mais como Seu Fulano, mas como o representante daquele papel social, o qual implica certas obrigações. O que as pessoas querem é que você cumpra aquelas obrigações já definidas.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 16, 25/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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