Você penetra no mundo da alta cultura depois de ter adquirido uma massa gigantesca de informações e aquilo começa, de repente, a fazer sentido para você – Olavo de Carvalho

“Aquilo que chamamos de alta cultura não é nada mais do que a integração em outro grupo humano. Matthew Arnold definia a alta cultura como aquilo que se disse que se criou de melhor ao longo dos tempos. Ao adquirir alta cultura, você está tentando se integrar no grupo das pessoas que podem conversar a respeito do que se disse que se criou ao longo dos tempos. Ora, as pessoas que fizeram isso, os autores dos clássicos como Homero, Aristóteles e Goethe, já não estão mais presentes. No entanto, depois de ler alguns livros, você começa a perceber que essas pessoas frequentemente se reportam umas às outras: cada uma sabe o que as outras fizeram. E você só pode se considerar um membro desse diálogo quando entende o que eles estão falando e conhece todo o sistema de inter-referências ali presentes.

É claro que esse aprendizado é extremamente difícil se comparado com todos os outros. Primeiro, porque os personagens não estão presentes para dar sinais de que você está acertando ou errando. É claro que você pode ter um representante – digamos, um professor universitário – que o orienta vagamente, mas toda orientação que você possa receber do professor é mínima em face da imensidão dos códigos que você vai ter de adquirir para tanto. Esses códigos implicam, por exemplo, o domínio das línguas. Mas o domínio das línguas não é o mais difícil; o mais difícil é o domínio das inter-referências. Porque ao longo dos tempos os grandes escritores, os grandes filósofos etc. estão continuamente se reportando uns aos outros. É como se aquilo fosse realmente um diálogo em que todo mundo está sabendo o que os outros falaram; estão continuamente conversando de coisas que, para eles, já são velhas. E pior: não existe um meio de você graduar isso, porque a conversa já está transcorrendo há milênios. Não há como entrar nessa conversa com pouco esforço. É preciso ler muitos livros e pensar muito antes de começar a perceber as conexões. Isso quer dizer que a sua entrada no mundo da alta cultura é sempre desastrosa, no começo, ela é sempre feita através de erros monstruosos. Suponhamos que o primeiro escritor que você leia para adquirir uma alta cultura seja Dostoievski. Você não sabe do que ele está falando, não sabe quais são as referências dele, não conhece – concreta e historicamente – nem mesmo a sociedade em que ele viveu, elementos que certamente são muito importantes. Pois embora ele esteja dialogando com a tradição mundial da literatura, ele o faz desde um certo lugar e desde um certo momento, que ele também tem de levar em conta.

Então, é claro que seu entendimento daquela obra será inteiramente subjetivo. Você vai entendê-la em função de referências e de analogias que remetem exclusivamente à sua vida e ao que você conhece, sendo que o seu quadro de referências pode estar totalmente deslocado daquele que o autor tinha em vista. Todas essas primeiras experiências são sempre baseadas no erro, numa interpretação subjetivista e, por assim dizer, provinciana. É nesse sentido que Jorge Luis Borges dizia que para entender um único livro é preciso ter lido muitos. Quer dizer, você penetra no mundo da alta cultura depois de ter adquirido uma massa gigantesca de informações e aquilo começa, de repente, a fazer sentido para você, porque você passa a saber do que as pessoas estão falando e quando elas estão se referindo umas às outras, explicitamente ou implicitamente. Digamos, por exemplo, que você tenha aprendido um pouco de língua alemã e feito um esforço desgraçado para ler um poema de Goethe. Na hora em que você acha que realmente o entendeu, você entendeu apenas tudo o que está escrito em alemão. Acontece que quando ele escreveu esse poema, ele o fez como imitação de outro poema escrito em grego há dois mil anos antes. Por mais alemão que você estude, não irá perceber isso. Só o há de perceber quando tiver lido o outro poema, escrito em grego – ou em árabe. Aí você entenderá do que Goethe está falando. Até lá, seu entendimento será totalmente subjetivo e baseado apenas no significado que as palavras têm no dicionário.

(…) Todo o nosso ingresso no mundo da alta cultura é feito desses equívocos; mas esses equívocos são preciosos! Em primeiro lugar, porque eles lhe permitirão medir a distância existente entre os grupos sociais nos quais você já se inseriu, que estão ao seu alcance e onde você pode conviver fisicamente, e esse outro grupo do diálogo entre os grandes espíritos de todas as épocas. A distância é imensa! Aos poucos, à medida que vai progredindo nesse aspecto, você acaba vendo que todos os códigos, valores e critérios que existem nos grupos sociais ao seu alcance – e dos quais você participa diretamente –, sempre se originaram dessa outra esfera. Tudo o que existe – a não ser o mundo, que Deus fez – foi inventado por algum ser humano. Isso quer dizer que hábitos, valores, critérios, sentimentos, cacoetes etc., tudo o que existe na sociedade imediata vem dessa outra sociedade. Foram as pessoas que se notabilizaram como grandes estudiosos, grandes artistas e criadores as inventoras de tudo: “a sociedade” não inventa coisa nenhuma! Quando se diz, por exemplo, que a cultura grega criou tal e qual coisa, isso é uma metonímia. Alguém que fazia parte da cultura grega a criou. Você pode não saber mais quem foi, mas alguém fez aquilo. Às vezes, um sujeito tem uma grande ideia e, depois de adotada e imitada, já não se sabe mais quem a inventou, porque ninguém registrou o invento; o que dá a impressão de tratar-se de um invento coletivo. Não podemos confundir anônimo com coletivo. Tudo o que se disseminou anonimamente, começou a ser disseminado por alguém. É preciso entender que a ação coletiva não existe: isso é uma metonímia.

(…) Aos poucos, você vai notando que todas as ideias, valores, critérios etc. que estão presentes na sua sociedade imediata, nos seus grupos, têm uma origem remota em alguma ideia que alguém teve nas altas esferas do espírito. Essa ideia pode lhe aparecer já totalmente degradada, estragada, mas se você rastreá-la, verá qual sua origem. E só quando percebe essa origem é que você começa a entender as verdadeiras implicações dessa ideia, pois passa a saber de onde ela veio, como se integrou na corrente histórica, quais as transformações que sofreu e quais suas possibilidades reais. Se você não faz isso, o conhecimento que tem dessa ideia é apenas um conhecimento de dicionário. É o conhecimento de uma palavra e não de uma realidade.

(…) Um elemento fundamental na aquisição da alta cultura é saber de onde vieram as suas ideias, porque é só rastreando a origem delas que você sabe onde está na história desse diálogo entre os grandes espíritos; é então que você descobre sua filiação. Se você não sabe isso, não sabe nada, está como cego em tiroteio. É claro que no começo da aquisição da alta cultura você estará necessariamente como cego em tiroteio, porque entrará nessa ordem de estudos trazendo o conjunto de símbolos, reações, sentimentos, preferências, preconceitos etc. dos vários grupos sociais de que participa, sem, no entanto, saber a origem de nada desse material. Você estará entrando com uma carga de nebulosidade numa atmosfera em que tudo o que se busca é clareza, nitidez e consciência das coisas. Então, é claro que qualquer pessoa que começa a penetrar na esfera da alta cultura está totalmente desajustada. E o ajustamento é uma coisa muito progressiva, o qual requer uma série de técnicas e precauções, que é exatamente o que o ensino universitário – se ele existisse – deveria dar a vocês; mas, realmente, ele não existe. Existe uma coisa que leva esse nome. Hoje em dia, o que se chama de ensino universitário é apenas o que seria uma escola técnica há cinquenta, sessenta anos atrás, restringindo-se à aquisição da licença para um determinado exercício profissional e à conquista de uma identidade social. Nada tem que ver com a formação da sua inteligência para lidar com os grandes problemas.

(…) Esse ingresso no mundo da alta cultura significa que aquilo que foi criado de mais valioso e importante ao longo dos tempos por vários seres humanos tornar-se-á atual para você como possibilidades cognitivas e existenciais que você está realizando de novo. Você está repetindo, imitando, esses mesmos experimentos interiores e cognitivos que foram feitos por Homero, Aristóteles, São Tomás de Aquino, Shakespeare, Goethe etc. etc. E todas essas coisas vão tornar-se atuais para você no sentido de que são possibilidades que você está realizando. Talvez você não as realize tão bem quanto eles, mas tem de apropriar-se daquilo. Eu conheço muita gente que estudou grego, latim, alemão, italiano etc. e lê esses livros, mas não chega a incorporar isso. Por que isso acontece? Porque o ingresso deles no mundo da alta cultura é feito por motivo subjetivista e egocêntrico. Por exemplo, o sujeito quer testar as suas forças para saber se pode ser professor não sei onde, ou quer tornar-se um intelectual famoso. Ou seja, está entrando numa conversação mais elevada com objetivos da fase anterior. É como um mecânico de automóveis que não quer consertar o automóvel, quer apenas agradar o cliente. Não consegue prestar atenção no automóvel, pois está prestando atenção no seu próprio umbigo. Ora, todo o ensino universitário dessas coisas é assim: você tenta conseguir um lugar na sociedade e, por isso, realmente não está livre para participar de um diálogo supratemporal entre homens que já morreram, o qual não lhe trará nenhum proveito senão de tipo interior. Qual é esse proveito? Esse proveito é que na medida em que você participa desse diálogo, acaba adquirindo algum conhecimento sobre quem você é realmente, sobre quais são as suas possibilidades reais.

Por exemplo, é impossível ler Shakespeare como se deve sem que todos aqueles personagens apareçam para você como possibilidades suas e como outras tantas superfícies nas quais você vai se espelhar e nas quais verá a complexidade das emoções, dos desejos, dos temores que se agitam dentro de sua própria alma. Foi para isso que Shakespeare escreveu as peças. Se você ler um grande filósofo como Aristóteles, São Tomás de Aquino ou Leibniz, estudando-os você perceberá as possibilidades mais extremas da inteligência humana em confronto com problemas dificílimos; e você vai acabar percebendo o que a sua inteligência pode e não pode.

Durante o aprendizado de integração social acontece uma coisa muito curiosa: você se interessa, sobretudo, em você mesmo, mas tudo o que você sabe sobre você mesmo por esse meio não se refere a você realmente, mas apenas ao que os outros pensam de você. Então você está orbitando no mundo da autoimagem e não da sua realidade. Quer dizer, a sua identidade efetiva você só vai conhecendo ao testar suas últimas possibilidades de conhecimento, ou quando, por exemplo, lendo as Confissões de Santo Agostinho você vê que ele admite que desde pequeno, ainda no bercinho, tinha maus pensamentos contra a própria mãe, o que leva você a pensar: “será que eu também sou um filho-da-puta assim?” E você verá que é. “E se eu tentar melhorar, realmente? Agora eu quero ter outros pensamentos. Eu quero ter pensamentos de bondade, de generosidade etc.” E você tenta e vê que a coisa maligna volta, e volta, e volta, e volta e que frequentemente você tem de fazer um arranjo entre as duas coisas, porque não consegue melhorar efetivamente – às vezes consegue, mas só um pouquinho. Então aí você está testando as suas possibilidades na esfera moral e começa a ter alguma ideia efetiva do que você pode e do que não pode; e isso naturalmente modificará o julgamento que você faz sobre a conduta alheia.

Por exemplo, já vai fazer mais de 20 anos que eu adotei como norma para eu nunca esperar que alguém faça algo que eu mesmo não sei fazer. Então, se o sujeito tem uma má conduta, eu penso assim: “bom, e se eu tivesse, como é que eu faria para modificar isto?” Penso, penso e chego à conclusão de que não sei. E se não sei, como é que eu posso exigir que ele saiba? Então, deixa ele do jeito que ele está. Aí você começou a fazer um julgamento moral responsável, porque você considerou o outro como aquilo que ele realmente é, ou seja, como um semelhante. Ele é um ser humano e tem a mesma estrutura sua, ele tem mais ou menos o mesmo corpo de possibilidades que você. Ele não é Deus, não pode fazer mágica. Mas tem também de considerar as coisas que ele pode. E como é que eu sei que ele pode? Porque eu também posso.

A partir daí sua vida moral começa a ter uma consistência. O conselho de São Tomás de Aquino: “tem sempre diante de ti o olhar dos mestres”. Ou seja, o que São Tomás de Aquino, Aristóteles ou Shakespeare pensaria do que eu estou fazendo agora?”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 16, 25/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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Um comentário sobre “Você penetra no mundo da alta cultura depois de ter adquirido uma massa gigantesca de informações e aquilo começa, de repente, a fazer sentido para você – Olavo de Carvalho”

  1. Não vejo vantagem na alta cultura pois ela o atrela aos pensadores clássicos. Creio que o mundo atual pode lhe fornecer enorme material de reflexao para que sua conduta seja pacífica coerente e lhe traga tranquilidade nas relações humanas

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