A antipsiquiatria é cem por cento empulhação – Olavo de Carvalho

Essa semana li uma série de artigos que foram publicados por Ferreira Gullar a respeito da questão da reforma psiquiátrica e a resposta que foi dada a eles por este articulista da Folha, Contardo Calligaris. E, num determinado site – de cujo nome agora não me lembro, mas depois vou publicar o link para ele num artigo –, li inúmeras reações de psicólogos, educadores, psiquiatras etc. a essa discussão (mais ou menos umas duzentas cartas). E nunca vi tantas pessoas terem tantas opiniões sobre um assunto que elas desconhecem totalmente! Porque elas não sabem de onde surgiu essa coisa. Eu sei porque quando era jovem interessei-me um pouco pela antipsiquiatria, com o livro de Ronald Laing, O eu dividido, – isso vai fazer 40 anos – e, mais tarde, fui estudar algo da história do movimento e descobri mais ou menos como era; mas é coisa que já havia até esquecido. E aquilo que eu já tinha estudado, aprendido e até esquecido, de repente, aparece diante de mim como se fosse uma novidade total, na voz de pessoas com total desconhecimento do problema. Naturalmente, cada um opinava ali desde um ponto de vista inteiramente subjetivo, a partir de certos pontos do assunto que chamavam a sua atenção. Mas esses pontos podiam não ser aqueles que estavam realmente em jogo, a começar pelo primeiro opinador, que foi Ferreira Gullar.

A reforma psiquiátrica incorpora alguns elementos da antipsiquiatria, buscando evitar a internação dos doentes mentais e reintegrá-los em suas casas, por assim dizer. Ferreira Gullar, que tem dois filhos esquizofrênicos e conhece de perto o problema, disse que isso é impossível, que não há como tratar dois esquizofrênicos na própria casa. Ele foi agredido, foi quase morto por um deles. Eu já tive maluco em casa e sei como é: a gente não conseguia dormir! Ademais, não é só o risco. O problema é que o universo de significações de um doente mental, de um esquizofrênico, é enormemente diluído. Não há propriamente significação, as significações para ele formam-se e desaparecem aleatoriamente. Assim, a convivência com um sujeito desses dilui o universo de significados, ele torna-se uma força entrópica dentro do meio imediato. Imediatamente, a convivência entre as pessoas baixa de nível e isso já basta para destruir inúmeras relações humanas. Ferreira Gullar, com toda a justiça, reclamava disso, alegando que às vezes é preciso internar as pessoas, não porque queiramos trancafiá-las ou livrarmo-nos delas, mas para o bem delas e de suas famílias, para que as famílias possam continuar com suas vidas mais ou menos normais, dentro de um diálogo compreensível que não seja diariamente erodido pela intromissão do non-sense total.

(…) De onde, então, saiu essa ideia de que os loucos têm de ser devolvidos para suas casas? O pretexto era o seguinte. Agora vou contar a história como realmente é – isso que vou dizer, que é a origem da questão, não foi mencionado nem de longe nas milhares de páginas que rolaram nas últimas semanas – e depois escreverei um artigo sobre isso, pois é um assunto muito interessante. Na década de 70 apareceu esse grupo de psiquiatras (Franco Basaglia, David Cooper, Ronald Laing) que proferiu a seguinte tese, depois subscrita por Michel Foucault: o aparato psiquiátrico faz parte do aparelho repressivo do Estado e é usado para isolar as pessoas de que o establishment não gosta, as pessoas que têm uma conduta divergente. Ora, isso corresponde à realidade? Os hospitais psiquiátricos foram feitos para você trancafiar seus inimigos lá dentro? Existiam alguns lugares no mundo onde isso acontecia realmente: os países comunistas. Existem livros inteiros que documentam os hospitais psiquiátricos políticos onde pessoas inteiramente normais e saudáveis foram internadas como loucas – como, por exemplo, o escritor Vladimir Bukovsky, que sofreu eletro-choques, tomou injeções de Aldol etc. e, por pouco, não ficou louco. Isso era usado sistematicamente na URSS, foram milhares e milhares os dissidentes políticos trancafiados como loucos. Se você tomar essa definição do sistema psiquiátrico dada pelos antipsiquiatras, ela aplicava-se literal, realística e exatamente à situação da URSS – e não só na URSS, mas também em Cuba fazia e faz-se até hoje o mesmo.

Mas no restante do mundo essa descrição aplicava-se? Obviamente não. Em primeiro lugar, havia uma rede imensa de hospitais psiquiátricos privados, onde as pessoas não eram internadas pelo Estado, mas por suas famílias ou por si mesmas. Segundo, havia-se disseminado em toda a sociedade o exame crítico da atuação dos psiquiatras, inclusive pela Justiça. Ou seja, se você internasse um sujeito no hospital e o médico prejudicasse aquela pessoa, ela mesma ou seus parentes poderiam processar o médico. Isso sempre existiu em todo o Ocidente. É claro que também existiam os casos em que uma família de gente má simplesmente trancafiava o louco lá para livrar-se dele – e nem sempre gente má, às vezes livrar-se daquele sujeito era condição para a subsistência da família, era uma questão de autodefesa. Existiam também, em alguns casos, nas populações mais pobres, aqueles hospitais que eram simples depósitos de loucos, onde as pessoas sequer recebiam tratamento ou o tratamento era usado apenas para controlar a conduta deles, mas nada era feito para que o sujeito melhorasse. O sujeito entrava ali para ficar pelo resto da vida. E qual era a possibilidade de que uma pessoa não-esquizofrênica fosse internada nessas circunstâncias? A possibilidade era mínima, mas existia. Sempre pode haver um erro, pode haver um hospital ou médico corrupto. Poderia acontecer, por exemplo, de um sujeito querer livrar-se da mulher, pagar uma quantia ao psiquiatra e interná-la. Isso poderia acontecer, mas não era o normal. Tanto não era normal que, se isso fosse descoberto, o cara iria para a cadeia. Portanto, enquanto a descrição do sistema psiquiátrico como aparato repressivo era literalmente verdadeira para os países comunistas, no que se refere ao resto do mundo, era uma figura de linguagem hiperbólica, monstruosamente exagerada.

Ora, houve algum movimento de antipsiquiatria nos países comunistas? Não, o que houve aconteceu no Ocidente. Mas, de repente, milhares de psiquiatras começaram a denunciar o sistema psiquiátrico como um aparato repressivo do Estado e a lutar pela proibição das internações. Na Itália, sob a liderança de Franco Basaglia; na Inglaterra, de David Cooper e Ronald Laing, que depois tiveram uma enorme influência também nos EUA. E agora essa discussão chegou ao Brasil e estão querendo regulamentar isso pela lei – é claro que por iniciativa de um deputado petista. Como começou isso? Começou quando, na Europa, descobriram o que os hospitais psiquiátricos soviéticos estavam fazendo e todo mundo ficou escandalizado, de modo que a Associação Psiquiátrica Norte-Americana começou a pressionar a Associação Psiquiátrica Mundial para expulsar os médicos soviéticos. A discussão arrastou-se e foram muitas as denúncias que saíram no Ocidente. Mas o processo foi difícil, havia muita resistência para expulsar os soviéticos, até que, em 1983, os soviéticos finalmente retiraram-se por conta própria da Associação Psiquiátrica Mundial, para evitar mais vexame.

Aconteceu que, simplesmente, sentindo-se humilhada pela pressão americana e pelas denúncias constantes daquela monstruosidade que estavam fazendo nos hospitais psiquiátricos, a URSS deu o troco. Franco Basaglia era um discípulo direto de Antonio Gramsci. A reforma da lei psiquiátrica na Itália foi inteiramente iniciativa do partido comunista. David Cooper era um agente soviético treinado na URSS. Já Laing era um coitado, alcoólatra, um sujeito irresponsável e incapaz de ter uma conduta adulta. Abandonava mulher, filhos e pacientes – esquecia-se dos pacientes. Era um bocó de mola que foi simplesmente usado para esses fins. Então, dois agentes comunistas, um deles treinado da URSS, lançaram essa porcaria da antipsiquiatria para dar o troco, na base do “acuse-os do que você faz”. Essa é a história da antipsiquiatria. E em todo o debate que eu vi ali, ninguém se lembrou de ver a origem da coisa. As pessoas ficaram discutindo em tese, por exemplo, se devem internar ou não. Essa questão não tem solução, porque você não pode internar o louco de modo geral; nem interná-lo, nem desinterná-lo. Você só pode internar ou tirar da internação este louco, depois aquele louco, depois aquele louco, um por um. Então, se me perguntam se sou a favor das internações e dos hospitais psiquiátricos, digo que não. E quanto a tratar o louco em casa? Depende do louco. Essa questão não tem solução pronta. Por exemplo, os dois filhos do Ferreira Gullar, está na cara que deveriam ser internados, pois tentaram até matar o pai. Mas há outros casos, de loucos mansos.

(…) Cada caso é um caso. Discutir isso em tese é uma besteira. Mas quando você entende a origem do movimento, entende que ele não foi feito nem para favorecer o louco, nem para favorecer a família do louco, mas para criar um estado de caos social no Ocidente, como parte da revolução cultural, como parte da guerra cultural. Mais ainda, esse movimento da antipsiquiatria não veio sozinho, estava ligado a todo o processo da contracultura e por isso mostrava os loucos como vítimas do Estado opressivo, os drogados como vítimas do Estado opressivo, os bandidos como vítimas do Estado opressivo. Todo esse movimento fomentou um crescimento extraordinário de todas as forças que podiam gerar o caos e a destruição dentro da sociedade. Por exemplo, essa disseminação mundial das drogas jamais aconteceria sem contracultura e antipsiquiatria. Esses cinquenta mil brasileiros que morrem por ano, sobretudo por causa do narcotráfico – há outras causas também, mas a predominante é o narcotráfico –, jamais teriam morrido se não fosse essa gente.

Esses caras eram agentes soviéticos muito mal-intencionados que só queriam criar um estado de caos e revolta, criar crise; e criaram. Ora, qualquer proposta baseada neles e que venha, por coincidência, de um deputado do PT, obviamente não é boa. É claro que o problema da necessidade ou não da internação tem que ser discutido objetivamente em cada caso e admitindo-se também tratamentos alternativos. Deve-se tentar de tudo, mas jamais tomando como critério aferidor a antipsiquiatria. A antipsiquiatria é cem por cento empulhação. Daí a importância de se rastrear de onde vêm as ideias: a antipsiquiatria aparece como uma ideia posta em circulação entre intelectuais de primeiro nível e é só rastreando a história direitinho que se vê que não era bem isso. Não foi por motivos científicos que inventaram a antipsiquiatria. Enquanto no Ocidente muitos países aderiram a essa loucura, mandaram os loucos de volta para casa e destruíram milhares de famílias, criando um caos desgraçado e disseminando drogas e banditismo para todo lado, os hospitais psiquiátricos da URSS continuaram internando dissidentes e em Cuba eles continuam até agora! Enquanto aqui o filho do Ferreira Gullar, que foi internado para não poder matar o pai, é uma vítima do Estado repressivo etc., nos Estados comunistas o sujeito que é simplesmente um dissidente político é internado sem ter doença nenhuma, sem ter nenhum desvio de conduta. O desvio de conduta que ele tem é ser de direita. Por isso, é internado, leva eletrochoques e sai de lá louco ou morto. E contra isso ninguém protesta… A ignorância das fontes das ideias pode ter efeitos sociais desastrosos e pode também transformar você num palhaço opinador que, sem saber, contribui para esses resultados sociais desastrosos na medida em que “toma posição” e orgulha-se de ter opinião própria.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 16, 25/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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