São somente as pessoas investidas realmente da alta cultura que podem dar um senso de medida ao debate coletivo – Olavo de Carvalho

“O que aconteceu no Brasil nos últimos trinta anos é que a alta cultura desapareceu. Não há mais pessoas assim. Dentre os caras considerados os melhores, que estão hoje na mídia, escrevendo livros ou dando palpites, não há nenhum no qual você sinta a presença de uma consciência efetiva do que está dizendo, porque nenhum deles sentiu o problema ou vivenciou aquilo efetivamente; ele sequer tentou! Tudo o que essas pessoas dizem é apenas captação de benevolência de grupos de referência. Elas não abrem a boca para contar uma experiência interior que tiveram, uma coisa que compreenderam profundamente. Abrem a boca para dizer: “olha como eu falo igual ao que vocês gostam, olha como eu uso o estilo, as ideias, o conteúdo deste grupo tão queridinho!” E as pessoas começam a achá-los queridinhos mesmo. São todos adolescentes em busca de integração social. Tudo que escrevem e dizem é só para conquistar esta miséria que é a aprovação de outros tantos idiotas como ele. Portanto, isso não é um debate, mas um grupo de psicoterapia presidido por alguém mais louco do que todos os pacientes.

São somente as pessoas investidas realmente da alta cultura, no sentido mais sério da coisa, que podem dar um senso de medida ao debate coletivo, porque todas aquelas “ideias” em circulação, que refletem apenas necessidades subjetivas de pessoas ou de grupos, só adquirem sentido quando se referem a um diálogo mais universal, que é, no fundo, a origem de tudo isso. Fora isso, essas ideias são apenas expressões de anseios subjetivos totalmente desencontrados entre milhares de pessoas que estão tentando buscar uma identificação umas com as outras. Qualquer que seja o assunto sobre o qual elas falem, elas nunca falarão de fato do assunto, mas estarão sempre falando de si mesmas e de suas necessidades. E há pessoas sendo bem pagas para fazer essa porcaria.

Nos artigos de jornal e suplementos culturais de uns 50 anos atrás, você via que havia algumas pessoas que personificavam de certo modo a alta cultura. Ou seja, elas elaboravam esses problemas profundamente, referindo-os àquilo que se disse e se pensou de melhor sobre o assunto ao longo dos tempos. Tudo isso vivenciado não apenas como leitura exterior, mas como experiência interior efetiva. Hoje não há mais isso; e como não há mais, o debate público se esfarela em um festival de loucuras, evidentemente. Todo esse debate não tem importância nenhuma, porque ninguém sabe do que está falando, cada um só sabe o que quer. “Eu sei o que eu quero, eu sei os meus anseios, as minhas necessidades e estou aqui como num grupo de psicoterapia para falar de mim, para que vocês atendam às minhas necessidades subjetivas, para que vocês me digam que eu sou alguém”. É para isso que as pessoas falam. Isso é uma usurpação de altas funções por pessoas que não estão absolutamente qualificadas nem intelectualmente, nem moralmente e muito menos existencialmente para isso. É por isso que o debate é tão oco, tão pobre, tão vazio, tão miserável!

E o que é que se pode fazer contra isso? O que nós estamos fazendo aqui: treinar uma nova geração de pessoas para que adquiram esse aprendizado com toda a seriedade, com toda a sinceridade e depois ocupem o espaço e tirem aquelas pessoas de lá, porque elas estão fazendo mal para a sociedade. Eu não posso ler um Contardo Calligaris, um Luís Fernando Veríssimo ou um Leonardo Boff sem entender que o que eles estão fazendo é um crime. E não é por causa do conteúdo do que elas dizem, pois o pessoal dito da direita faz a mesma coisa. O sujeito só escreve para mostrar-se: “olha como eu pertenço a este grupo, olha como eu estou bem encaixadinho aqui, olha como as outras pessoas do mesmo grupo gostam de mim”. Até um sujeito católico faz isto! (…) O que estou falando não se refere a ideologia, não são os caras da esquerda que fazem isto, todo mundo no Brasil faz isso. Dentre os ditos liberais, por exemplo, cada um que abre a boca diz: “olha como eu estou de acordo com o pensamento liberal!” O que estão querendo é identidade grupal.

Ao examinar os problemas verdadeiramente, a possibilidade de você coincidir cem por cento com algum grupo é mínima. Você sempre vai dizer alguma coisa que não combina com o grupo, mesmo que esteja de acordo com ele. Por exemplo, eu concordo com o liberalismo econômico cem por cento, mas não posso analisar todos os problemas por esse viés, porque o liberalismo econômico não trata de todos os assuntos e não está habilitado a lidar com todos os assuntos. Então, algo que eu diga vai ter que necessariamente pisar no calo de algum liberal, porque eu não estou escrevendo para mostrar como eu sou liberal, mas para dizer as coisas como eu realmente as vejo, o que quer dizer que eu estou escrevendo mesmo, enquanto eles estão apenas imitando. Acontece que no Brasil hoje só há imitação, não há mais nada.

Vocês têm, então, uma missão a cumprir. Vocês irão fazer este curso até o fim, adestrar-se nessa coisa, irão virar seres humanos de alto valor e inteligências de alto gabarito e ocupar o lugar dessa gente. E é para tirá-los de lá a pontapés. Por exemplo, que um sujeito como o Luis Fernando Veríssimo se considere um escritor é um insulto à literatura. Não é que ele não seja um escritor, ele não sabe o que é. Ele não sabe, Paulo Coelho não sabe, Marco Maciel não sabe, essa gente toda que está na Academia Brasileira de Letras. A Academia Brasileira de Letras está cheia de iletrados! Não iletrados no sentido escolar, mas no sentido da grande literatura. Meu Deus do Céu! Preste bem atenção, este é um ponto já bastante assentado dos estudos literários no mundo: um escritor é alguém que participa da tradição de uma arte, ele não é um sujeito que, partindo do nada, decidiu escrever alguma coisa. Há sim alguns escritores que conseguem se acertar na tradição mesmo tendo pouca cultura literária, porque do pouco que leram, absorveram tudo, sem nem saber como, por uma aptidão especial. Um sujeito que não lia muita coisa era Nelson Rodrigues. Mas do que ele lia, ele ficava impregnado. Então ele entra na tradição, ele é um escritor.

Ora, para que servem os escritores? Os escritores são pessoas que servem para tornar dizível a experiência direta humana. É uma função da mais alta importância, é função salvadora, porque tudo aquilo que se passa na alma humana que o ser humano não consegue dizer adquire um poder fantasmagórico em cima dele. Na hora em que você domina aquilo e consegue exprimir pela palavra, você exterioriza aquilo e aquilo deixa de ter poder sobre você. Então é quase uma função de exorcismo. Sem essa função não existe civilização, não existe cultura, não existe sociedade humana, não existe lei, não existe ordem, não existe liberdade, não existem direitos humanos, não existe ciência, não existe nada! As civilizações foram fundadas pelos poetas, eles tornam a experiência dizível e por isso permitem a convivência humana. Não fosse isso, estaríamos isolados nas nossas experiências, nos nossos sofrimentos, como cachorros. 

(…) O desastre de um país onde se perdeu a alta cultura é que tudo é decidido em função de interesses subjetivos de indivíduos ou de grupos e não existe em parte alguma apreensão mínima sobre a realidade. Estamos em uma situação de descontrole total. E onde há uma situação de descontrole total, há uma espécie de desespero e, naturalmente, as pessoas que estão encarregadas de dirigir a sociedade acabam inventando mais controles para ver se elas adquirem o domínio da situação. Só que esses controles também não incidem sobre a realidade, são coisas aleatórias, absurdas, que não fazem sentido. Por exemplo, o Brasil é um país que tem 50 mil homicídios por ano – é o país mais assassino do universo -, onde os estudantes tiram as menores notas nos testes internacionais – é o país mais analfabeto e mais burro do universo. Como é que num país que tem esses dois problemas, um país assassino e burro, o governo está preocupado com que as pessoas não falem mal de gay? Por quê? Está todo mundo falando mal de gay na rua?

Cada gay que se vê é apontado à execração pública, é apedrejado, há esse problema? Esse problema não existe. Pelo contrário, o Brasil é um dos países mais permissivos do mundo, onde as vovozinhas assistem a shows de travesti, à tarde, na televisão com seus netinhos; e ninguém fala nada! Por que tanto desprezo por dois problemas existentes – um que equivale a um brutal derramamento de sangue todo ano e outro que só cria dificuldades e perdas para o país o tempo todo – por que é que, com esses dois problemas na mão, os brasileiros estão preocupados com problemas que não existem? Por quê? É o subjetivismo. O sujeito que apresenta um projeto de lei para defender os gays o faz porque os gays estão realmente sendo perseguidos e assassinados? Ora, quando eles apresentam os números, vê-se que os gays são um dos menores grupos de risco que existem no país! A violência contra os gays é uma coisa raríssima! Então, ele não está lidando com um problema real, mas quer parecer bom menino perante a comunidade gay – objetivo totalmente do interesse dele. E nós pagamos para esses desgraçados discutirem essas coisas no Parlamento. E, não satisfeitos com o dinheiro que ganham, eles ficam a toda hora se dando aumentos e mais vantagens, nomeando todos os seus parentes para cargos públicos… para discutir essas coisas? É claro que o Brasil virou uma imensa máquina de desentortar banana, um equipamento enormemente complicado, mas que não faz absolutamente nada.

Se alguém pode corrigir isso, são vocês. Só uma geração de intelectuais altamente afinados, adestrados e sérios pode pôr fim a essa porcaria. Isso se puderem – não sei se conseguirão –; mas essa é a sua responsabilidade. E entendam, por favor: eu peço que durante o curso vocês se abstenham de dar palpites, de dar opiniões. Fiquem quietinhos, estudem e preparem-se para, quando entrarem na arena, entrarem com tudo, com toda a força, como eu mesmo entrei. Quando se publicou o meu primeiro livro que teve um alcance público, O Imbecil Coletivo – o primeiro de fato foi O Jardim das Aflições, que teve uma tiragem mais modesta – toda esta pseudointelectualidade tremeu nos alicerces, porque sabia que eu não era mais um. E se, em vez de haver um sujeito fazendo isso, houver quatrocentos? Estará acabada a brincadeira. E nós temos que acabar com essa brincadeira, é nosso estrito dever, dever de cada um de vocês, preparar-se não só intelectualmente, mas humanamente, moralmente, psicologicamente para enfrentar essa responsabilidade. E eu tenho consciência de que não estou só espremendo e exigindo algo dos outros, sei também que não estou exigindo nada que não sei fazer – porque eu sei fazer isso; não só sei, como já estou fazendo. Nós temos que sanear intelectualmente o Brasil: isso é a coisa mais urgente que existe. Urgente significa uma coisa que vai levar vinte, trinta anos, mas em história isso aí não é nada.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 16, 25/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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