Sem a cultura literária não dá para ter a científica, mas sem a científica dá para ter a literária – Olavo de Carvalho

“Aquele idiota do C. P. Snow, que escreveu no livro As Duas Culturas que “temos a cultura literária, a cultura científica”, onde ele nivela as duas coisas. Eu digo: meu filho, cultura científica é um detalhe que você pode adquirir tardiamente. Sem a cultura literária não dá para ter a científica, mas sem a científica dá para ter a literária. Essa é a única cultura que existe. As letras, os escritos, são as coisas fundamentais! Ciência não passa de um gênero literário entre outros! Ou seja, aprender a falar é fundamental!

Estive lendo esses dias o escrito do crítico inglês Frank Raymond Leavis que ele escreveu em resposta ao livro do Snow, As Duas Culturas. Ele fala tantas coisas horríveis do Snow, que até hoje ninguém gosta de falar desse livro – “Não, isto é um negócio muito mal-educado, não podia ser assim…” Olha, eu acho que foi inteiramente merecido. Por exemplo, o Snow diz o seguinte: “vocês reclamam quando uma pessoa não é capaz de ler Dickens, mas vocês não reclamam quando alguém não sabe a segunda lei da termodinâmica”. Eu nunca conheci nem meios literários de alto nível, nem filosóficos, nem humanísticos etc. uma única pessoa que não conhecesse a segunda lei da termodinâmica e não fosse capaz de explicá-la. O simples fato de que a palavra entropia seja uma das mais usadas nessas discussões já prova que a segunda lei da termodinâmica para eles é arroz com feijão. No entanto, está provado estatisticamente que a quase totalidade das pessoas que se formam em ciências não são capazes de ler Dickens. Eu tenho uma tremenda dificuldade para ler Dickens. Esses dias eu estava desesperado, porque ao lê-lo, a cada linha aparece uma palavra que eu não conheço – e olha que leio livros em inglês desde os 15 anos de idade. Dickens é como se fosse um Aquilino Ribeiro, o vocabulário dele é uma monstruosidade. Então, estou lá eu lendo com o dicionário, todo complexado, e daí vejo lá o próprio Snow confessando que um doutor Ph.D em física não é capaz de ler Dickens. Eu digo, ora meu filho, o pessoal dos estudos humanísticos está muito mais informado a respeito de ciência do que vocês estão informados a respeito do resto, porque ciência não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Ciência não é alta cultura, jamais; nenhuma ciência é alta cultura. Tanto que você pode chegar a dominar uma ciência inteira sem ter praticamente cultura nenhuma. Se, por exemplo, você quer entender a relatividade especial – a relatividade geral é mais complicada -, você precisa apenas de álgebra do ginásio, não é um grande problema. Há outras coisas que para serem entendidas precisam de uma matemática mais complicada, mas aí você não precisa entender pessoalmente, pode pedir a um amigo que lhe explique. Eu tenho muitos amigos físicos, engenheiros e pergunto para eles. Não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Mas e ler Dickens? Ah, ler Dickens é um bicho-de-sete-cabeças, sim, porque ele escreveu vinte romances e para cada um deles você tem de consultar um dicionário pelo menos quinhentas vezes por volume. É muito mais difícil do que entender a teoria da relatividade.

A linguagem é tudo para o ser humano. Quando Aristóteles fala no “animal racional”, esse “racional”, do grego logos, quer dizer “linguagem” também, refere-se ao animal que fala. É através da fala, é através da linguagem que você conquista a sua participação nesses vários círculos de intercâmbio humano, desde o círculo da sua família, passando depois pelo círculo do ginásio, até o círculo da alta cultura. A linguagem é tudo para o ser humano. Quando Aristóteles fala no “animal racional”, esse “racional”, do grego logos, quer dizer “linguagem” também, refere-se ao animal que fala. É através da fala, é através da linguagem que você conquista a sua participação nesses vários círculos de intercâmbio humano, desde o círculo da sua família, passando depois pelo círculo do ginásio, até o círculo da alta cultura. Agora, depois do círculo da alta cultura tem mais algo? Tem, porque quando se chega aí você já aprendeu a conversar com os mestres, você se põe diante do olhar deles, sob o julgamento deles? não sob o julgamento do Seu Zé Mané ou do seu professor. Não, não, não! Você se põe sob o julgamento dos melhores. Depois você começa a ter uma ideia do interlocutor universal, interlocutor onisciente, e então passa a pensar não mais no que São Tomás de Aquino pensa de você, nem no que Shakespeare pensa de você, mas no que Deus pensa de você. E isso começa a fazer sentido para você. Fora disso, a palavra Deus não quer dizer nada para você; e se você acredita nele ou não, é absolutamente irrelevante.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 16, 25/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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