Vejamos agora de onde surgiu essa ideia de pensar com a própria cabeça – Olavo de Carvalho

“Tomemos como exemplo o sujeito que diz que pensa com sua própria cabeça e tem suas próprias ideias e opiniões. Pois bem. De onde ele tirou essa ideia? Ele ouviu milhares de pessoas dizerem a mesma coisa e sabe que em determinado meio social é bonito dizer isso, porque lhe dá certo prestígio. Logo, essa originalidade dele é inteiramente copiada. Mas vejamos agora de onde surgiu essa ideia de pensar com a própria cabeça; rastreemo-la historicamente. Daí descobrimos que até um certo momento da história ninguém se preocupava em pensar com a própria cabeça. As pessoas não se interessavam muito sequer em saber quem foi o autor de certa ideia, queriam saber se ela era verdadeira ou falsa. Tanto que quando se entregava um livro com a autoria totalmente falsa a um leitor, ele não se incomodava com isso. Ninguém se preocupava em saber se uma ideia era sua ou do vizinho. Era uma situação completamente diferente da de hoje, em que temos uma extrema preocupação em de saber a origem das ideias.

Isso porque, no curso dos tempos, o costume de se interessar apenas em saber se uma ideia é verdadeira, ignorando sua origem, acabou se revelando contraproducente: gerou tantas confusões e atribuições falsas, que se fez necessário datar os fatos e começar a reconstituir a história, para saber quem disse o quê antes e quem disse o quê depois. Isso é uma coisa recente na história, já que, se as pessoas não se preocupavam em saber quem teve uma ideia, elas também não podiam se preocupar em pensar com suas próprias cabeças. Essa preocupação com a originalidade das ideias não começa evidentemente com a preocupação com a originalidade das suas próprias ideias, mas com a origem das ideias em circulação. Note que isso não apareceu antes do século XIII. Na Grécia, havia tido um começo disso aí. Aristóteles, por exemplo, gostava de rastrear a origem das opiniões anteriores sobre os assuntos que ele estava estudando. Mas ele era um sujeito sozinho; ele tinha essa preocupação. Não podemos dizer que na Grécia as pessoas se preocupassem com isso. Depois, isso foi apagado e voltou aproximadamente no século XIII.

Essa convicção tão comum hoje em dia, expressa nessas frases que aparecem na boca de tantas pessoas (“eu penso com minha própria cabeça”, “eu tenho minhas próprias opiniões” etc.), não é uma coisa natural no ser humano; é algo que passou a acontecer historicamente a partir de certo momento e que não teria podido acontecer se não aparecesse antes o que chamamos de consciência histórica, ou seja, se as pessoas não começassem a se preocupar com a história das ideias. Elas começaram a se preocupar com isso porque o diálogo entre os grandes espíritos de todas as épocas estava ficando confuso. René Descartes não tinha em sua biblioteca mais de cem livros; era, contudo, um homem cultíssimo. Ele leu aqueles cem livros e praticamente os sabia de cor. Com esses cem livros ele tinha mais ou menos uma ideia das doutrinas e hipóteses em circulação no tempo dele. Mas se se supõe que ele não tivesse cem livros e sim vinte mil, aí a coisa começaria a complicar um pouco. Sem rastrear a história para saber quem veio antes e quem depois, quem falou uma coisa e quem falou tal outra, ele acabaria se confundindo. Isso quer dizer que o acúmulo de personagens no diálogo supratemporal fez com que ele virasse uma bagunça. As pessoas começaram então a ter a preocupação de rastrear.

Essa preocupação, hoje, é tão séria, que para publicar um trabalho científico numa revista acadêmica você tem de contar quais foram seus antecessores, de quais fontes você partiu, porque se você não o fizer, ninguém saberá onde se situa historicamente a ideia que você está apresentando. É preciso que fique claro se você está dizendo uma coisa porque é o primeiro a pensá-la ou se está apenas trabalhando em cima da ideia de outro; se está aprovando a ideia do outro ou a criticando, mudando ou acrescentando uma coisa nova; que fique claro onde você está historicamente.

Existe um caso célebre, que é o de Albert Einstein. Quando ele publicou seu primeiro trabalho sobre o que ele chamou a relatividade especial, em 1905, havia uma coisa estranha nele: ele não trazia uma só citação ou referência bibliográfica. Dava a impressão de que ele estava apresentando algo totalmente inédito, tão inédito que não tinha antecedentes. Quando foram estudar depois e analisaram o caso com mais atenção, viram que, ao contrário, não havia ali uma única ideia que ele não tivesse copiado de alguém. Einstein foi o maior plagiário do século XX. A teoria da relatividade especial é toda copiada e por isso mesmo ele não indicou as referências. Ninguém nega que Einstein fosse um gênio, mas ele era mais um gênio da picaretagem do que um gênio da física. Havia, por exemplo, um sujeito que ele disse nunca ter lido, Henri Poincaré. Ora, tudo o que Einstein tinha apresentado no trabalho sobre a relatividade especial já tinha sido demonstrado por Poincaré fazia 15 anos. Poincaré escreveu vários livros sobre isso e Einstein disse que nunca tinha lido esses livros. É impossível, porque você vê que os raciocínios que ele usa teriam sido impossíveis sem ele ter consultado Poincaré. Portanto, esse é um dos grandes escândalos da história da ciência: é claro que a fama de Einstein é totalmente imerecida. No entanto, quando descobriram isso já tinham transcorrido mais de 20 anos, todo mundo já estava badalando o sujeito. (…) Quando o vexame é grande demais, todos fazem de conta que não perceberam. E foi isso o que aconteceu com Albert Einstein. Porque, de fato, ele não construiu nada, mas simplesmente pegou várias coisas e maquiou. Os grandes cientistas que tinham de fato trabalhado acabaram injustiçados pela história. E isso não é uma coisa desconhecida pelos historiadores da ciência. Mas ninguém gosta de falar sobre o assunto. Normalmente essas coisas não acontecem. Hoje em dia, um trabalho como esse que ele apresentou em 1905 já não seria aceito numa revista acadêmica, porque é preciso que fique claro o que se aproveitou dos antecessores e o que é contribuição original, senão a geração seguinte irá fazer confusão.

Se não existisse essa preocupação com a reconstituição da cronologia das ideias, ninguém jamais teria pensado em dizer “eu penso com a minha própria cabeça e não com a do vizinho”. Uma atitude que no nosso meio parece tão natural, tão espontânea, é uma criação histórica. E não é uma criação histórica original, mas uma decorrência remota de outra criação, que é justamente a consciência histórica. É impossível pensar com a sua própria cabeça, se você não sabe sequer de onde vieram as suas próprias ideias. Se você não sabe se foi você que as criou ou se você as absorveu de algum lugar e aquilo se impregnou no seu imaginário, você não tem a menor ideia se aquilo é seu ou de outro. Eu posso afirmar, a partir da minha experiência, que a totalidade das pessoas que dizem “eu penso com a minha própria cabeça” está mentindo: elas nunca pensaram com as próprias cabeças, não conseguem pensar com as próprias cabeças, não têm a menor capacidade para isso e estão apenas tentando aparecer. Faz anos que estou estudando esse problema da mente revolucionária e se me perguntarem qual é a novidade desse trabalho, eu digo: a novidade é só uma. É a ideia de verificar a unidade da mente revolucionária ao longo dos tempos pelo seu lado formal e lógico e não pelo conteúdo das ideologias, das propostas etc. É só isso o que há de original; de resto, eu copiei tudo. Porque para saber se as coisas eram exatamente da forma que eu estava dizendo, eu tinha de subdividir essa questão. Se eu fosse pesquisar por mim mesmo cada um desses problemas a partir das suas fontes primárias, de seus documentos primários, eu levaria mil e quinhentos anos e não terminaria. Felizmente, todas as perguntas concretas que eu fiz sobre isto e aquilo já estavam todas respondidas por milhares trabalhos de pesquisa acadêmica maravilhosos. Ou seja, os caras já me deram a prova do que eu queria; eles só não sabiam que estavam provando isso, cada um deles tentou provar apenas a sua tese. Mas quando colocados numa sequência, vê-se que eles já provaram o que eu estou dizendo. Ora, o que eu coletei até agora dá 550 páginas, falta muita coisa ainda. Dessas 550 páginas, quantas são minhas? Dez. E isso é suficiente para fazer um trabalho extremamente original. O resto, eu devo a esses milhares de estudiosos que destrincharam os vários problemas para mim. Agora, Einstein nem isso fez. E a originalidade dele, então, foi montar numa outra ordem? Não! Nem isso ele fez. Não há nada na teoria da relatividade que seja do Einstein, nada. Existe um autor norueguês chamado Christopher Jon Bjerknes que rastreou texto por texto e chegou à conclusão de que Einstein é um plagiário incorrigível, compulsivo. Acontece que Einstein era um companheiro de viagem dos comunistas. Ele nunca foi comunista, mas todo o círculo amizade dele era formado por comunistas. E ele, em vez de ser um inocente útil, não, ele não era inocente e nem útil. Ele era um espertalhão que se utilizava dos caras. Eu acho que Einstein foi um dos poucos caras que fizeram os comunistas de trouxas. Nesse sentido, o sujeito era um gênio, fantástico, porque conseguiu não prestar serviço nenhum a eles, além de emprestar o seu prestígio, e mesmo assim conseguiu tirar um monte de vantagens. Então, não se pode negar a genialidade do cara. Esse culto do Einstein que existe até hoje é um produto da KGB. E os outros cientistas? Eram muito melhores do que ele, mas não tinham esse aparato a seu serviço. Lorenz e Poincaré, que não são precursores de Einstein, mas os autores da teoria da relatividade, ficaram para a lata de lixo da história. É claro que isso não vai durar para sempre: um dia esse caso será esclarecido perante a opinião pública. Pesquisado e provado já foi, é caso encerrado. Mas é caso encerrado entre os estudiosos que aprofundaram o assunto. Popularmente, não; vai levar muito tempo ainda para se popularizar – se chegar a se popularizar no curso de nossas vidas. Uma empulhação não dura pra sempre; mas pode durar bastante tempo. Tem aquela frase do Abraham Lincoln: “você pode enganar algumas pessoas o tempo todo, ou muitas pessoas durante algum tempo, mas não pode enganar todo mundo o tempo todo.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 16, 25/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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