Você não precisa ensinar nada de real para as crianças e até adolescentes, se você der os meios de linguagem, aí eles estarão bons para aprender o resto – Olavo de Carvalho

“Acho que a primeira educação é a educação da imaginação através da linguagem – ou seja, a ampliação da linguagem, o sujeito aprender a ler. Eu acho que a coisa básica é a arte e a ficção, isso em primeiro lugar. Você não precisa ensinar nada de real para as crianças e até adolescentes. Se você der os meios de linguagem e de expressão da experiência, aí eles estarão bons para aprender o resto. Isso vai seguir a ordem dos quatro discursos.

A segunda etapa da aprendizagem é de ordem moral e política. (…) Ela é o aprendizado do uso da linguagem como meio de ação. Note que todo adolescente, quando descobre que pode usar a linguagem para influenciar as pessoas, fica maravilhado. A adolescência é a época em que você começa a discutir e ter opinião. É a tendência natural do ser humano. Uma vez que você já tenha certo domínio da linguagem e que ela lhe sirva como um instrumento para sua orientação, aí ela pode servir para algo mais. Ela pode servir para afetar os outros, para modificar a situação. Isso acontece naturalmente durante a adolescência.

Então, acho que isso poderia ser feito de uma maneira mais regulamentar. Por exemplo, essa é a época de ensinar as pessoas a discutir com honestidade, a fazer suas opções, a tomar suas decisões, a formar grupos, a se organizar socialmente, a agir na sociedade. É a época em que se vai começar, mas o sujeito tem que saber, em primeiro lugar, que o fato dele influenciar os outros não quer dizer que ele provou nada. Nós primeiro tomamos decisões, fazemos escolhas, e só depois é que colocamos o problema da sua veracidade ou validade. O sujeito precisa ter certa prática da discussão e da ação social – da prática retórica, por assim dizer – para, em seguida, poder começar a dar os princípios da arbitragem científica do que está falando. Eu acho que o ensinamento, por exemplo, da ação social deveria preceder o ensino das ciências. O método científico deveria ser ensinado para as pessoas como uma etapa superior que absorve e transcende todo esse mundo da opinião. Você vai passar da doxa para a epistéme. Mas se você não tem a doxa… Veja que a Grécia teve quatro séculos de treinamento retórico antes que surgisse a dialética de Platão e Aristóteles. Só quando as pessoas estavam muito bem afiadas naquilo é que surge o problema: quando alguém fala bonito e é convincente, será que é verdade tudo o que falou?

Hoje em dia ensina-se filosofia nas escolas. Isso é uma estupidez, porque o que eles vão fazer na verdade é o ensino de retórica, ensinar as pessoas a discutir. Os critérios dessa discussão serão critérios retóricos, critérios de mera verossimilhança, não vai passar disso aí. E só depois de algum treinamento nisso é que elas começam a perceber que para além da persuasividade do que elas falaram, existe algo chamado realidade. Essa foi a minha experiência pessoal. Eu me lembro que quando estava no ginásio eu falava muito bem, falava melhor do que os outros e era duma cara-de-pau extraordinária, não tinha inibição social nenhuma. Então, eu convencia as pessoas do que eu quisesse. (…) Foi logo em seguida que eu comecei a estudar história, ciências sociais etc. e daí comecei a pensar que não tinha nenhuma garantia de que estava na verdade. O sucesso dos meus discursos não quer dizer nada! Posso ter falado uma tremenda besteira e convencido todo mundo. Mas pude fazer isso porque tinha vencido a primeira etapa. Aqui nos Estados Unidos eles têm muito disso: ensino de discussão. Eles ensinam as pessoas a falar em público. Mas que coisa maravilhosa é isso! É mais importante do que aprender matemática; se você passa por isto, depois matemática você aprende rapidinho. Uma pessoa que não sabe falar para as pessoas, que não sabe agir socialmente de uma maneira eficiente vai aprender álgebra e geometria para quê? Para ele ficar mais isolado, mais inibido ainda, mais burro do que já está?

O começo do ensino é um adestramento social, é um ensino de integração social. A gente deve assumir isso. Nós não vamos ensinar verdade nenhuma para essas crianças: nós vamos ensiná-las a se virarem na sociedade humana: a vencerem a timidez e sentirem-se iguais aos outros, porque isso alivia o problema da integração. Se o sujeito tem confiança nos seus meios de ação social, se ele sabe que pode persuadir os outros, ele já não fica de joelhos na frente dos outros para que o aceitem. Fala-se muito em cidadania, mas – meu Deus! –, se você não sabe falar que cidadania pode ter? Nesse sentido, o começo da educação é, sem dúvida, primeiro a educação do imaginário, da sensibilidade e da própria linguagem; e depois a utilização da linguagem como meio de integração social, dando a cada um os poderes necessários para que não se torne escravo de grupos, para que não seja um coitadinho. Dentro de uma escola, se todo mundo sabe discutir, se todo mundo sabe falar, ninguém vai abusar do outro. Todavia é preciso dar esse ensino conscientizando os alunos de que não estão ainda na esfera da verdade, de que existe algo mais adiante que vai fazer com que o orgulho deles caia do burro.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 16, 25/07/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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