É assim que você tem de ler os livros de filosofia: como experimentos cognitivos profundos e sérios, para isso você tem de dar ao autor a credibilidade que ele merece – Olavo de Carvalho

“A primeira coisa que eu faço quando estudo qualquer coisa que seja é deixar-me impressionar profundamente por ela, como se eu estivesse assistindo a um filme – sabe aqueles filmes a que você assiste na ponta da cadeira, sem piscar? –, e então eu me deixo impressionar totalmente, sem nenhuma defesa. Eu leio o livro como se fosse realmente um espetáculo e deixo que aquilo fique dentro de mim, sonho com aquilo, aparecem outras imagens etc. e, aos poucos, aquela experiência se condensa numa estrutura mais abstrata, de forma que eu possa dizer: “foi isso o que aconteceu! O que eu vi ali foi isso!” Quero dizer: espero que apareça uma expressão conceitual daquilo que eu vi e, a partir do momento em que eu tenho essa expressão conceitual, posso voltar e ver se eu a observei como ela realmente foi, ou se faltou um pedaço. Mas eu acho que esse primeiro momento, o da impregnação, é o essencial. Mas é preciso rezar para Deus não deixar o diabo o enganar, porque você pode se impregnar de veneno. E se você se impregnar de veneno, você vomita.

No Jardim das Aflições eu contei isto: eu assisti à conferência do José Américo Motta Peçanha exatamente assim. Enquanto ele estava falando, eu acreditei em tudo o que ele estava dizendo, absorvi a situação, a reação da platéia, como se fosse um filme na minha cabeça. Aos poucos, aquilo se concentrou de tal modo que eu podia descrever com clareza o que se passou e o que eu ouvi. A partir do momento em que sei o que ouvi, posso comparar com o que eu sabia antes; mas não antes. Porque se na mesma hora em que o sujeito estava falando eu ficasse criticando – “ah, isto é besteira!” – eu faria uma crítica superficial. Aquilo era um besteirol memorável, era tudo besteira até o fim. Mas se eu não me impregno primeiro da experiência do besteirol, como é que vou criticá-lo depois? Para criticar o besteirol, você precisa deixar que ele lhe imbecilize um pouco também. Não tenha medo, isso passa. Depois você vomita tudo.

Então, quando eu tentei descrever o que se passou, vi que foi uma experiência hipnótica. Ele não estava expondo uma filosofia, estava hipnotizando a platéia para fazê-la aceitar coisas que eram absolutamente inaceitáveis, por exemplo, historicamente. Quando ele tentava, por exemplo, fazer de Epicuro uma vítima da maledicência coletiva – quando na verdade os maledicentes eram eles. Sei disso porque tinha lido algumas coisas. Eu sei o que o Epicuro fez ou que deixou de fazer. E também quando ele tentava puxar a platéia para fazer uma espécie de evocação do que seria o jardim de Epicuro: como nós somos pura matéria, estamos nos decompondo e vamos morrer daqui a pouco, então nós nos apegamos apenas às ideias agradáveis do passado e só nos lembramos daquilo… e ele tentava mostrar aquilo como uma coisa maravilhosa! Mas quando eu tentava fazer isso, só ficava deprimido (“mas como? Isso não me alegra de maneira alguma e não acredito que isso possa alegrar alguém!”). Mas, se eu não tentasse absorver o que ele disse e não tentasse revivenciar a coisa como ele falou, eu não perceberia a incongruência existencial da coisa, perceberia talvez a incongruência lógica. Mas a coisa mais besta que você pode fazer perante um discurso é criticar suas incongruências lógicas, porque um discurso que é logicamente incongruente pode corresponder à realidade: ou porque a realidade que ele está descrevendo comporta, em si mesma, contradições; ou porque o sujeito, através dessas contradições, está expressando de maneira canhestra e errada alguma coisa que é real. Então, ficar procurando incongruência lógica é besteira; mas existe incongruência existencial, incongruência ontológica, aquela coisa que é impossível. É fisicamente impossível que um sujeito, sabendo que vai morrer e virar um nada, apegue-se às suas recordações do passado – sempre do passado – e ficar feliz com isso, porque ele não está vivendo o passado, ele está vivendo o presente e está caminhando para a morte. Ora, como minhas recordações do passado podem me defender do sentimento da morte? Elas não podem fazer isso! Não há uma incongruência lógica, mas há uma incongruência existencial. Quer dizer: isso que o Epicuro fazia para alegrar as pessoas, a mim só me deprime. E acho que deprimia os outros também. Então, aquela felicidade do Epicuro só existe no nível do discurso, ela não existe como experiência real, porque se você tenta vivenciar aquela experiência, ela falha, ela não acontece.

(…) O mesmo ocorreu com o experimento interior de René Descartes, o experimento da dúvida metódica. Eu li e me deixei impregnar. Descartes assegura que o que ele está expondo nas Meditações de filosofia primeira não é uma teoria, mas o relato de uma experiência. Então, aceitei fazer a experiência. Só que na hora em que tentei imaginar as coisas como ele diz que imaginou, não funcionou. Aparecia outra coisa. Quanto mais eu tento colocar tudo em dúvida, mais aparecem coisas nas quais eu acredito. E não é só no meu pensamento em que acredito. Por exemplo, eu acredito piamente que estou no lugar em que estou. E quando começo a pensar que “penso, logo existo”, aí tem uma frase, um transcurso. Desde o “penso” até o “existo”, o “eu” continuou o mesmo. Então não é o pensamento que confirma o “eu”, é o “eu” que confirma o pensamento. Digo isso porque tentei fazê-lo e assim se deu. Mas se eu tentasse ler Descartes e ficasse criticando tudo, não chegaria a nada. Então, você tem de absorver a coisa, deixar-se impregnar por ela e daí revivenciá-la. Vocês vão ver como isso funciona.

(…) Tente vivenciar aquilo que Kant diz: não vemos as coisas em si, mas apenas seus fenômenos. Não há um único fenômeno que apareça apenas como fenômeno. Não há uma única coisa que compareça diante de você só na sua aparência fenomênica. Se você tenta imaginar um pinico, você não pode dizer que o pinico é uma mera aparência fenomênica. E como é que eu sei disso? Eu tentei. Eu li o Kant e acreditei. Mas não é assim. Como é que é? Eu também não sei. Mas sei que assim também não é. Ou o que dizia David Hume: quando uma bola bate em outra bola, há apenas dois movimentos sucessivos, nenhuma causa. Mas onde terminou o primeiro movimento e onde começou o segundo? Isso ele não viu. O que ele viu foi um movimento único, que depois decompôs mentalmente. Essa foi a experiência real: uma sequência única. Eu não posso parar o movimento da primeira bola e começar o da segunda, porque é uma fração infinitesimal. Eu não posso captar isso com os meus olhos. Então, ao que ele diz que nós juntamos dois momentos e criamos em cima disso a ideia de causa, eu replico: não, é o contrário! Nós captamos um movimento único e o decompomos mentalmente em dois. E sei disso porque li Hume, levei aquilo a sério e tentei reproduzir a experiência.

É assim que você tem de ler os livros de filosofia: como experimentos cognitivos profundos e sérios. Para isso você tem de dar ao autor a credibilidade que ele merece. David Hume estava completamente errado nisto, mas ele não era nenhum charlatão. Lendo os ensaios de David Hume sobre a história da Inglaterra percebe-se que aquele homem era maravilhoso. Mas neste ponto aí, me desculpe, mas não dá.

No entanto, se o cara estiver com treta, a incongruência aparecerá de maneira mais esplendorosa ainda. Quando Nietzsche escreve aquele negócio: “por que sou tão inteligente?”, eu digo: “Não, você não é tão inteligente assim!” Ou quando Hobbes tenta reduzir tudo, todos os impulsos humanos a agressividade e medo, eu digo: “não dá para você fazer isso, a famosa guerra de todos contra todos.” Quantas vezes eu tentei, por mim mesmo, dominar o restante da humanidade? Essa ideia jamais me ocorreu. E dominar todas as pessoas do meu meio? Também nunca pensei nisso, nem por um único instante. E se eu não pensei por que devo supor que os outros pensaram? (…) Ou seja, essa ideia de que todo mundo quer dominar todo mundo, isso nunca aconteceu! E se nunca aconteceu, por que vou supor que algum dia, antigamente, aconteceu para todos? “Antigamente todo mundo era assim, todo mundo era um Adolf Hitler em potencial!” (…) Essa não é a situação humana em geral. Ou você acha que o bebê pensa, em seu bercinho: “o papai e a mamãe querem acabar comigo… eu tenho que dominá-los!”. Não é possível isso! Então, essa psicologia do Hobbes está totalmente errada.

Quando você faz essas experiências em profundidade e começa lendo as análises críticas que outros fizeram a respeito, aquilo tudo se preenche de sentido para você e fica muito mais fácil de entender. Mas se você tenta jogar só no nível das ideias, dos conceitos etc., isso é masturbação mental. Então, não discuta com o autor antes de ter certeza que você o leu. Mas você não pode ler o sujeito e impedir que ele te influencie. Isso aí não dá. Se você quiser influenciar o autor, então escreva você o livro e mande-o ler. Se foi ele quem escreveu, é ele quem vai te influenciar. Não há escapatória. Depois você pode vomitar tudo e sair mais limpo e mais forte do que antes, porque você adquiriu o contra-veneno.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 016, 25/07/2009.


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