Ciência não desenvolve a inteligência de ninguém, ao contrário, para fazer ciência você precisa de inteligência, mas a ciência por si mesma não desenvolve a inteligência humana de forma alguma – Olavo de Carvalho

“O ser humano tem certas possibilidades que o diferenciam maximamente de todas as demais espécies animais. Estas possibilidades, evidentemente, não aparecem quando examinadas desde o ponto de vista de qualquer ciência em particular — elas aparecem no conjunto da experiência humana. Por exemplo: o pessoal da genética afirma que a diferença entre um homem e um macaco é de apenas 3%. Isso mostra tão-somente que a ciência da genética não está habilitada a captar a diferença entre o homem e o macaco. E dizer que entre a inteligência do macaco e a Catedral de Chartres ou a música de Bach, a diferença é de apenas 3%, é realmente otimismo demais em favor do macaco. Isso significa que, se o macaco tivesse apenas 3% a mais, ele conseguiria fazer todas estas coisas. Então, não se trata de uma mera diferença, não é algo que se deva perguntar a qualquer ciência; nenhuma ciência está habilitada a captar isso porque há uma diferença global que aparece somente na experiência real, na experiência concreta humana; não é uma diferença que pode ser separada e medida pelos critérios de uma ciência particular — isso seria inteiramente absurdo.

Se nós pudéssemos captar a diferença do homem e do animal através da ciência genética, então esta diferença seria exclusivamente genética, e assim por diante — e poderia ser até uma diferença irrelevante. Eis o caso em que cada ciência em particular não consegue apreender algo que a experiência comum corrente apreende da maneira mais simples e mais fácil; o que é uma demonstração muito clara de algo em que eu insisto: nenhuma ciência tem autoridade para criticar a experiência comum ou para pretender superá-la, de forma alguma. Toda ciência é um recorte específico feito em função de certas perguntas específicas. O que é uma hipótese científica? É uma conjectura de que certo grupo de fenômenos funciona de acordo com uma determinada constante; em seguida, os fenômenos escolhidos para observação são aqueles que respondem a esta determinada constante. É claro que todo empreendimento científico é eminentemente tautológico, redundante. E só funciona porque é redundante. E se a redundância falhar é porque as observações foram mal feitas, mas em princípio elas são feitas para dar certo. Toda teoria científica consiste em dizer que os fenômenos escolhidos para provar determinada hipótese provam esta hipótese; e os fenômenos, por sua vez, foram selecionados de acordo com a mesma hipótese. É algo, na verdade, muito fácil de fazer; e só se complica pela heterogeneidade dos materiais com que as várias ciências lidam, mas o processo em si mesmo é muito simples. Esta extrema simplicidade do processo científico é que me leva, inclusive, a negar que a educação científica tenha alguma função na alta cultura: ela não tem função nenhuma. O que tem função é o aprendizado dos métodos científicos, da teoria da ciência etc., mas isto precisamente não faz parte de nenhuma ciência. Mas um conhecimento aprofundado de geologia, de biologia etc., não tem alta função educacional; tem uma função social, devido à utilidade que estes estudos têm para a tecnologia, para a sociedade em geral etc. Mas do ponto de vista da educação é absolutamente ridículo acreditar que uma educação científica seja uma educação; ela não é de forma alguma porque o procedimento científico é simples e é indefinidamente repetido; e não há muito o que aprender com este, tanto que o ideal das próprias ciências é que seu processo inteiro possa ser feito até por computador — desde a formulação das hipóteses até as provas finais, que um computador possa fazer. Isso seria a perfeição de uma ciência; esta, quando chega ao supra-sumo de sua perfeição, não precisa mais da inteligência humana porque já está totalmente automatizada e simplificada. Basta isso para você entender que ciência não é educação de maneira alguma; ciência não desenvolve a inteligência de ninguém, ao contrário, para fazer ciência você precisa de inteligência, mas a ciência por si mesma não desenvolve a inteligência humana de forma alguma.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 017, 01/08/2009.


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