Não há explicações naturais, uma explicação só é uma explicação quando ela, embora partindo do estudo de um fenômeno em particular, se encaixa em uma concepção metafísica que vai dar a justificação do todo no qual aquilo se encaixa – Olavo de Carvalho

“Uma das características que chamam a atenção na história das ciências é o pressuposto que hoje é aceito em praticamente todo o universo científico de que as ciências devem sempre buscar explicações naturais, jamais recorrendo ao sobrenatural; este pressuposto não surge das próprias ciências, mas de pressupostos teológicos, de uma longa discussão teológica que criou este preconceito e, na verdade, esta absurdidade de que o natural é um domínio fechado, auto-explicativo.

Esta hipótese depende inteiramente da premissa de que existem leis naturais constantes e inabaláveis; e até hoje praticamente não foi descoberta nenhuma lei constante inabalável. Que eu saiba, a única lei constante e inabalável que existe é a segunda lei da termodinâmica (que é o negócio da entropia) — esta funciona universalmente. Mas, justamente a entropia, se funciona, mostra que nada na natureza é estável; tudo está sempre baixando de diferença quantitativa e qualitativa, há uma tendência geral ao nivelamento, à abolição das diferenças. A segunda lei da termodinâmica, justamente por ser estável, mostra que nada há de tão estável na natureza que possa ser objeto de leis eternas — não há leis eternas na natureza. Existem leis bastante duráveis, leis que se observam durante um período enormemente longo, mas não se pode dizer que são eternas e imutáveis. Acreditava-se que as leis da gravitação universal de Newton eram universais; mais tarde se mostrou que não eram. A relatividade quando diz que nada pode ser mais veloz do que a luz, nós vamos dizer que isso é uma lei eterna? Bom, dentro do próprio campo de discussão da relatividade existe a famosa dúvida de que o efeito da gravitação tem de ser simultâneo, então tem de ser mais rápido que a luz; logo, em todo o debate sobre relatividade sempre surge a pergunta irrespondível: qual é a velocidade da gravitação? Ninguém sabe. Então, como poderíamos dizer que a velocidade da luz é uma constante? Einstein colocava a velocidade da luz como a única constante em função da qual todas as outras têm de ser medidas. Como é que nós podemos aceitar essa constância da velocidade da luz como uma lei eterna, universal e imutável? Praticamente não há leis eternas e imutáveis na natureza; mas, quando Newton descobre a gravitação, aquilo impressiona as pessoas de tal modo que elas acreditam que Newton havia descoberto as leis eternas e imutáveis da natureza. Então a natureza, se é regida por leis imutáveis, é um todo fechado que funciona por si, sem necessidade de nenhum elemento externo.

Assim, surge entre os teólogos a seguinte discussão: se Deus construiu esta máquina tão perfeita e depois interferiu nela, acabou por desmoralizar-se a Si mesmo. E com isso Deus estaria reconhecendo que sua obra não é perfeita. Foi justamente essa discussão que, entre os teólogos protestantes e anglicanos, acabou se fechando na conclusão de que a natureza deve ser estudada em si mesma, fora de qualquer referência a Deus e ao sobrenatural. É evidentemente uma premissa que não se sustenta absolutamente porque: 1) você não sabe quais são os limites do natural; 2) ela se baseia inteiramente na hipótese de que as leis naturais são eternas e imutáveis. Na verdade, se você propusesse esta questão para um filósofo escolástico de quatrocentos anos antes, ele explicaria o seguinte: não há nenhum jeito de compreender as relações entre a natureza e Deus comparando estas duas dimensões diretamente, porque há uma série de mediações; a estrutura da realidade segundo a ideia cristã é enormemente mais complexa e vai desde o inferno até Deus; então teria de situar a natureza dentro desta escala enormemente complexa, onde o lugar dela é definido pelas suas contíguas; existe uma infranatureza e existe uma preternatureza, fenômenos que são laterais à natureza, ou seja: fenômenos de ordem demoníaca, por exemplo, a possessão, a obsessão etc. são chamados preternaturais — não são nem fenômenos naturais nem sobrenaturais, são fenômenos estranhos à natureza. Acima disso estariam todas as hierarquias angélicas até chegar a Deus. As relações entre natureza e Deus são extremamente complexas e mediadas por toda a estrutura do mundo espiritual. Quando acontece a reforma protestante, um dos seus efeitos imediatos é a queda do nível da especulação teológica até o nível pueril. Estas discussões, por exemplo, para saber se Deus não se desmoralizaria a Si mesmo se interferisse na natureza — é uma maneira pueril de colocar a questão, porque está partindo da crença em leis naturais imutáveis e eternas. Ora, se as leis naturais são eternas, então a natureza é eterna e, portanto, não pode haver sequer um Juízo Final. Logo, este universo tal como existe presentemente é concebido como eterno; mas aí você entrou numa contradição tão boboca, você entrou numa contradição com a própria Criação. Newton, pelo menos, teve a prudência de observar que as leis da natureza funcionam a partir da Criação, mas elas não podem explicar a Criação — pelo menos essa prudência ele teve. Mas a maioria das pessoas que discutiam este problema entre o século XVII e o XIX, sobretudo no meio anglo-saxônico, não percebiam isso de jeito nenhum.

Então colocavam as questões de maneira artificial, barbaramente simplificada e pueril, porque tinham perdido a alta cultura escolástica. Schelling disse que na passagem da escolástica para a modernidade houve uma puerilização da filosofia (tem toda a razão) — eles tinham perdido a noção da sutileza e complexidade das questões, e toda aquela técnica analítica enormemente sofisticada dos escolásticos foi perdida e então começaram a colocar as questões como as crianças colocam, começaram a fazer perguntas de criança. É uma ilusão pensar que as crianças são muito sábias nesse aspecto; todas cometem os mesmos erros em sequência até chegar à idade madura, e estes erros são praticamente padronizados. Um destes erros consiste em tentar analisar Deus como se Ele fosse um ser humano. Por exemplo: se Deus fizesse isso ou aquilo se desmoralizaria a Si mesmo ou não? Desmoralizar-se é algo que só pode acontecer a seres humanos dentro da sociedade humana. Deus não tem, em primeiro lugar, perante quem ser desmoralizado. Como é que se vai colocar essa expressão? Desmoralizar supõe uma sociedade que julga. Então, para Deus desmoralizar-se seria necessário haver uma coleção de deuses semelhantes a Ele que O julgassem — e isso não existe —, então não dá para colocar a questão desta maneira. E foi de erros deste tipo que surgiu a ideia do naturalismo, segundo a qual existem explicações naturais.

Na verdade, não há explicações naturais — a ideia de explicação natural é uma coisa inteiramente boboca. Uma explicação só é uma explicação quando ela, embora partindo do estudo de um fenômeno em particular, se encaixa em uma concepção metafísica que vai dar a justificação do todo no qual aquilo se encaixa, de outro modo não é propriamente uma explicação, mas apenas um arranjo provisório.

(…) René Descartes acreditava no seguinte: “Eu sei que Deus criou o mundo, mas se eu supuser que Ele criou o mundo apenas colocando duas ou três leis em ação e que tudo o mais se desenrolou automaticamente, eu posso chegar a uma descrição efetiva do universo — eu sei que não é assim, mas isso funcionaria do mesmo modo.” Ou seja, Descartes coloca o pressuposto naturalista como ficção; ele sabe que é ficção e declara que é ficção. A capacidade que nós temos de raciocinar logicamente a partir de premissas ficcionais, premissas que nós mesmos colocamos e que, embora sejam falsas, podem parecer com a realidade, é evidentemente uma das capacidades mais perigosas que o ser humano tem, porque tudo funciona como se as coisas fossem exatamente assim. E quanto mais exata for a descrição, mais enganado você estará. O universo inteiro da premissa naturalística é ficcional e sua origem não é científica. Até o século XVIII, quando se consolidou esta ideia, não havia conhecimentos científicos suficientes para embasar uma premissa naturalística. Existe um autor chamado Cornelius Hunter, verdadeiro gênio, que descobriu o seguinte: não é que as descobertas científicas confirmavam a premissa naturalística; não, elas eram interpretadas de acordo com esta premissa e, portanto, sempre a confirmavam porque eram lidas assim; se fossem lidas de outra maneira, se chegaria a outra conclusão. Então, o naturalismo se tornou uma espécie de profecia auto-realizável.

A profecia auto-realizável, por sua vez, é um mundo separado, ficcional, no qual alguém entra e se confirma eternamente a si mesmo, sem ser capaz de enxergar nada mais para além daquilo. E onde alguém pode enxergar, porém, não o faz como filósofo ou como cientista, mas apenas como ser humano na sua existência real. Contudo, a mesma premissa determina que é ilegítimo o apelo à experiência pessoal real, e só é legítimo o apelo à experiência já recortada e confirmada pela comunidade científica. Então, de fato, trata-se de um delírio: uma profecia que se autoconfirma e que o faz coletivamente. É uma espécie de doença mental, evidentemente.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 017, 01/08/2009.


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